segunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Modus essendi?

A solidão enobrece alguma coisa? Ergue-se um templo a que? À vazia contemplação das dependências da sede de tal solidão? Seria o avatar ou o anti-cristo do silêncio? É o desmatamento duma planície carente de cartógrafos. A pedra-bruta do palpável enclausura em cavernas os fiéis a caminho desse santuário da contemplação individual chamado de solidão. Muitos, inchados pelos machucados da pedra-bruta, acusam o templo de adorar uma nuance individual obscura. Vandalizam e profanam o templo, acusando-o de deboche monumental às suas pessoas. Não há profetas para tal templo. A adoração não é externa, e estes ignoram as imagens de tal templo. Mais ou menos como um budista entrando numa igreja católica, cheia de imagens em poses e trejeitos sádicos como cruz e sangue. Não é o tipo de templo construído sob uma repartição acima das nuvens. A solidão, como templo, não passa da poeira que calca as paredes desses brinquedinhos de montar que se convém chamar mundanamente de templos. Ela paira na leveza do ar, e não no peso do concreto na mão do operário.

Seria a solidão o elixir da consciência? Um placebo mental? Um mar de corais se despedaçando com a maré trazida pela incidência solar dum céu inquisidor e mascarado por aveludadas nuvens que funcionariam como a sobrancelhas esboçando sarcasmo existencialista com vapor d'água? Talvez seja uma foto desbotada na gaveta. Sumindo no horizonte. Um fio de Ariadne que se rasga. O aroma duma flor trabalhando na teoria do caos. Imagens duma aquarela fatiando furiosamente 8mm de projeção. Espaço (físico ou não) ao redor de você, buraco negro se alastrando feito facho de combustível flamejando pelo destino, de calor a ponto de se extinguir ao se chegar ao rarefeito ar das alturas de si mesmo.

Simplesmente um grito que não se ouve. Lágrima estancada. Palavra que falta. (Con)tato que, aos mais rudes, fratura as pernas das coisas simples. A solidão não é uma casa de vidro (espelhado, talvez); os ossos de seus freqüentadores é que assim são. Música incidental que ignora instrumentos, funcionário que aposenta vivência, compositor ausente. A solidão emancipa e hierarquiza um Estado em pós-guerra: o ego. Motivo do confronto? Dissidências, conspirações, decisões infelizes. Não importa: a primeira vítima de tal guerra foram seus articuladores. Rara ocasião em que inocentes são poupados? Não: os únicos inocentes são tais articuladores.


É melhor eu pensar duas vezes antes de voltar a escrever outro post ouvindo música...

domingo, 4 de dezembro de 2005

Medo de ser feliz ou feliz em ter medo? Contravenções da introspecção

Três verdades sobre a introspecção. Primeira: a esperança vale ouro para qualquer tímido; muitas vezes, abrir mão dela pode se tratar de auto-preservação face a uma possível desilusão que, em contrapartida, lhe viola ironicamente a alma: o destino é egoísta e só se sustenta com expectativas e especulações. Segunda: aos tímidos, pequenos gestos têm a relevância que as amssas, acostumadas e resumidas às excusas carnais de ocasião, jamais conhecerão. Terceira: os tímidos são miragens ambulantes; por mais pacata e solitária que sejam suas vidas, as pessoas criam mitos absurdos sobre sua vida afetiva, sob o chulo argumento do "come quieto". Ode ou boato maldoso tendo o tímido como alvo? Não faz diferença.

Assim como a covardia, a timidez não escolhe sexo, credos e gostos pessoais. A diferença é que covardia trata-se de omissão unilateral quanto ao pudor alheio; com a timidez, tal omissão unilateral é quanto ao pudor individual. Ser feliz é atentar a ambos pudores? É, com certeza, um cansaço. Cansaço do lado existencial de cada um de nós. Do lado pessoal que normatiza tudo e credita nada. Do lado que registra tudo e organiza nada. Do lado que constrói o alicerce do eu e embarga as irregularidades do outro. Nesse meio, a timidez é um fiscal cuja forma de suborno deve-se descobrir o quanto antes: o ego é um instrumento que só se comercializa por meio de barganhas psicológicas.

Se a vida é uma sucessão de salutares desperdívcios, ao tímido este é absoluto. Como se seu destino se tratase meramente duma reciclagem de tal desperdício: como se suas alegrias fossem meros insumos reaproveitados de matérias-primas das quais são incapazes de obter. O tímido e seu universo, composto desse lisão existencial, pode até lembrar o cenário de algum fime pós-apocalíptico dos anos 80, mas filmes têm final; o destino dos tímidos, não: trata-se do rascunho dum epílogo que sempre interrompe as tramas dum viver de constantes abortos. A timidez é uma limitação e poucos saberão disso. A tragédia humana é algo muito maior do ue meras lembranças. A ocasião condena, mas a índole julga. Se sorte é personalidade do destino, talvez a timidez não esteja apenas no tímido. Não mudamos, nos adaptamos ao que almejamos ser. Ou seja, pode-se apagar a timidez de apenas um lado da moeda; o outro é indelével. O vácuo na cabeça dos homens leva ao surrealismo do imaginário individual, mas não o esquiva do realismo anti-humanista, e previsivelmente articulado, de seus atos. A mente é volátil, o ato não. E cá chegamos à máxima dos orgulhosos: os "aprendizes" da timidez. Timidez esta que dimensiona as pessoas a proporções além de suas vontades. Viver como ditador de si mesmo não é fácil...

sexta-feira, 25 de novembro de 2005

Deus não deu asa a cobra

Desanima ter a perspectiva de que os idiotas podem se dar melhor na vida do que você. Quando pequeno, me sentia capaz de dominar o mundo. Uma vontade de ser sempre melhor me impelia a me tornar centralizador de meu próprio mundo, crendo que meus atributos intelectuais sempre superariam quaisquer forças que tentassem se opuser a mim. É óbvio que eu estava redondamente enganado. A capacidade mental devia ser sempre superior às dissipações da vida que insistem em nos confundir, futilizar e contrariar. Quando se envelhece e se percebe que a competição entre a sublimação intelectual e a subjetividade lânguida das forças que a esta se opõem, deixa-se de crer valer a pena ser melhor. Tal estado de espírito se sustenta sobre o tão pouco que fiz em tão arrastada idade minha. Quando penso que, na Antiguidade Clássica, a inteligência sempre sobrepujava as outras forças, inclusive socialmente, começo a me amaldiçoar pelo que a burguesia, o feudalismo e o capitalismo fizeram com uma ordem social que salutarmente era prescrita pelos homens que pensavam. Em tempos em que ter nome nem sempre é suficiente para se ter respeito, mas é suficiente para abusos somente, é difícil não se ter a sensação de que tal ordem psíquica e social se trata duma verticalização que clama à promiscuidade quanto à honra, a sisudez, o orgulho e a sagacidade de espírito. A sagacidade da carne não é dispensável, mas ao menos dá a sensação de que se aproveitou algo dos dias. De que se fez barulho o suficiente para se ter orgulho do dia em que se morrerá*. De que se experimentou, algo obrigatório para uma existência meramente experimental. De que princípios são bons e deveriam independer de personalidade. O que talvez viesse a incutir no velho erro de se misturar hierarquias sociais a diretrizes de personalidade. Mas se já se insistiu tanto no erro, porque não se incutor no erro quando o momento parecer mais oportuno, se não mais amplo, geral e irrestrito? Não pode isso se tratar meramente de uma justificativa desesperada para a pobreza desses meus arquivos adestrados pela índole, que se convencionou chamar de memórias. Talvez possa, mas se assim for, é meramente fruto de algo tão deletério quanto referencial, a comparação. A mesma que gera referências, objetivamente falando, e a mesma que gera cobiça, insegurana e desconcerto, subjetivamente falando. Enfim, mais um post que se trata gratuitamente dum externar de pesares desnecessários, mas que se tornariam daninhos se permanecessem nesse depósito em que ninguém reclama a posse de nada, chamado de memória, daquilo que terá dito a que veio.

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* Isso com o sujeito alegando ter sido percebido e ter distraído as pessoas a seu redor da angústia de suas ignorâncias quanto a si mesmas. Temos instituições que saudam o viver, que lutam pela manutenção de tal dádiva, mas nenhuma que saude maduramente a verdade do óbito. Que saude a vontade das pessoas, que têm razão para não perderem tempo com suas vidas insoluvelmente sem objetivos alcançados, de querer morrer. Isso não é condenável. Ainda acredito que chegará o dia em que se optar pelo dia em que se pagará o óbulo para Caronte será um avanço de consciência coletiva que trará consideráveis benefícios sociais, mesquinhamente, como sempre, para as instituições. Há coisas piores que a morte, e as pessoas ainda se assustam com isso. Ainda não são incrédulas e desiludidas o suficiente para sobrepujar sua insegurança em abraçar indiscriminadamente religiões arrebanhadoras. Mas estamos nesse caminho. Funerárias e necrópoles são inúteis; meros depositários prepotentes de atos inevitáveis da natureza. A cultura ocidental sempre teve o defeito de não dar importância ao conhecimento místico, e isso distancia enormemente os homens ocidentais a se conhecerem a si mesmos. Instituições que, ao abrigarem a idéia do memento mori, instruíssem apropriadamente os aspirantes ao fim sobre os mistérios (não a significação vulgar, mas a de milênios atrás, entre os sábios) do universo, guiando-os à eutanásia sem culpa, fazendo-o se deparar mais realistamente a seus dilemas pessoais e questionamentos ora fictícios. Esclarecer a verdadeira importância pessoal perante a própria morte é algo que falta nas sociedades, com certeza. Instituições com simbolismos e história o suficiente para isso ainda surgirão, e desmentirão apropriadamente exibicionismos como góticos, satânicos e outros produtos de vulgares saliências psicológicas de multidões.

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

Green eyes

Honey you are a rock
Upon which I stand
And I come here to talk
I hope you understand

That green eyes, yeah the spotlight, shines upon you
And how could, anybody, deny you

I came here with a load
And it feels so much lighter, now I?ve met you
And honey you should know, that I could never go on without you

Green eyes

Honey you are the sea
Upon which I float
And I came here to talk
I think you should know

That green eyes, you?re the one that I wanted to find
And anyone who, tried to deny you must be out of their mind

Cause I came here with a load
And it feels so much lighter, since I met you
Honey you should know, that I could never go on without you

Green eyes
Green eyes

Honey you are a rock
Upon which I stand

terça-feira, 15 de novembro de 2005

Jamais conte com o impossível

A realidade sempre supera a ficção. Assim como a idiotice: ela assume proporções incalcançáveis para outros ramos da índole humana. E cá provo isso, no cotidiano dum jovem comum, em sua semanal batalha retórica pra conseguir o aval de seus pais para assumir seu direito constitucional (apenas constitucional, infelizmente) de ir e vir. Deviam estender uma cláusula extra para os pais caxias, que acham piamente que criam filhos apenas para eles, e não para o mundo. Pobres almas... enfim, leiam e se arrependam!

_ Cara, que raiva! Não agüento mais esse impasse que rola toda vez que quero sair.
_ Quer uma dica? Conte com o impossível!
_ É o que sempre faço! E sempre fico em casa, enfurnado, sobrando, sem poder sair aos lugares legais.
_ Vou ser mais claro: quando seus pais sugerirem que deixarão você sair se apenas algo impossível acontecer, quando o dia de São Nunca chegar, por exemplo, concorde. Sempre. E exiga o cumprimento da improvável promessa.
_ Estranho. Não entendo como isso pode dar certo.
_ Como você acha que consegui convencer meus velhos a ir ao litoral sozinho, com o carro, sem carteira de motorista?
_ Bom, é melhor você me dar alguns exemplos.
_ Sim, darei.


***
[no segundo semestre daquele ano]
_ Pai, compra pra mim essa coletânea de DVDs do Poderoso Chefão pra mim?
_ Só no dia que Renato Aragão escrever um romance!
[ao lado da prateleira de DVDs da loja, encontram livros nacionais, incluso o do humorista]
_ Eles dividem em quantas vezes, filho?

[dias depois]
_ Mãe, posso trazer o Marcão pra jantar com a gente?
_ Filha, você sabe que o pai detesta seu namorado!
_ Ah, vamos, quebra esse galho pra mim!
_ E agüentar o velho pra cima de mim depois? Só se começarem a vender um vídeo amador clandestion da Paris Hilton trocando fluidos.
_ Tá bem. Mas não prefere um vídeo da Pamela?
_ Acha que nasci ontem, é? Dessa vez você não engana a gente.
[pouco depois, para o irmão]
_ Putz, mas essa é chutar cachorro morto! E ela falou numa boa?
_ Sim, acredite se quiser.

[no final daquele ano]
_ Pai, posso ir à Disney ano que vem?
_ Porque você ainda perde tempo perguntando?
_ Pliiissss...
_ Tá bem, tá bem, te levo pra lá no dia que o Zeca Pagodinho ganhar um acústico da MTV!
_ Tá bem, promessa é dívida, viu?

[no início do ano seguinte]
_ Mãe, me dá grana pra ir ao show da Avril!
_ Você deve estar brincando, não? Pense no impossível de seu pedido antes que eu dê a resposta óbvia.
_ Pliiiissss...
_ Tá, vamos fazer assim: te pago a entrada no dia que a Madonna der um beijo de língua na Britney via satélite, transmissão mundial!
_ Ah, você sabe que isso nunca vai acontecer!
_ ...e digo mais: a Christina Aguilera vai ter que receber um também!
_ Sei. Então, quando esse dia chegar, eu vou. Deixa que eu espero.

[lá pro meio do ano]
_ Pai, deixa eu ir pra boate hoje?
_ Só quando a Dercy Gonçalves bater as botas.
_ É, isso eu admito que nunca vai acontecer.

[lá pro final do ano]
_ Mãe, empresta o carro preu ir pro litoral?
_ Só quando o Pearl Jam vier tocar aqui no país.
_ Tá bem.
_ Digo, só quando o Deep Purple vier tocar aqui.
_ Já que você insiste...
_ Só quando um ex-astro da música topar fazer um reality show.
_ Beleza.
_ Melhor ainda: só deixo você ir quando eu vir o Ronaldinho Gaúcho chutando na trave quatro vezes consecutivas, sem deixar a bola cair. Rá! Sem impossibilidades do mundo da música, quero ver você sair dessa casa!
_ Nossa, você poderia até ter exigido a desvirginização da Sandy! Pelo jeito, me dei mal...
[minutos depois, encontra o vídeo pela internet]
_ Pode passar a chave, coroa...

[dias depois]
_ Pai, o que você acha desse desenho? Vou tatuá-lo semana que vem!
_ Só por cima do meu...
_ Vira essa boca pra lá!

***
_ Pô, desse jeito eu vou acabar cobrando quando eles propuserem que eu só possa sair de casa no dia de São Nunca!
_ Não duvide! Vai que o comércio comece a adotar a data pra vender suas tranqueiras...
_ Bom, eles tentaram com o Dia do Amigo...
_ E se eles exigirem que o Elvis morra para que você possa sair?
_ Use essa tática com moderação, jovem...

segunda-feira, 14 de novembro de 2005

Ganhar na loteria? O prêmio é sorte ou prata?

Lotéricas vendem sorte, no sentido etimológico da palavra, e não à suposição imposta pelo senso comum. O que você paga na boca do caixa não é a chance de se tornar milionário, mas a certeza de ser acionista dum grão infinitesimal dum campo de possibilidades. Não há almoço grátis, e o que ocorre é que o prêmio em si verte, para uma sorte só, as esperanças e aspurações depositadas por outras 50.000.000 de sortes. A empresa (tanto a asserção etimológica quanto a dada pelo senso popular) trata-se de uma mera bolsa de valores de apelo mais popular e unilateral. Chega a ser paradoxal um país que proíba jogos de azar autorizar qualquer concurso apenas por meio da única instituição financeira nacional que promove cinicamente o tipo de jogatina que proíbe. E os títulos de capitalização? Uma vez, comentando com amigos, concluí que gente como o Senor "dá pela Tele-sena e tira pelo Panamericano".

As pesoas vêem o mítico de se ganhar tamanha quantia como um final feliz dessa história tortuosa que constituem em terra. Desse filme do qual protagonizam e jamais poderão conferir a pós-produção, ganhar uma bolada pode indicar clímax, complicação, plots, desenvolvimento da história. Menos o final. É uma versão adulta da -- tão sonhada pelas crianças -- viagem à Disney. Ou seja: sonhos são opcionais, aspirações oscilam pelo destino. Jogar com a sorte seria uma maneira escusa de se sonhar? Pelo menos é mais fácil do que apostar o próprio pescoço na vida real; com a cartela, os números aceitam ser degolados pelo campo das possibilidades em seu lugar. Talvez estar no que se sonha seja mais importante. Estar, não ser. Aspirações oscilam, e ser o que se oscila não é confiável. Não se trata dum final feliz. Se trata dum novo evento na trama. A sorte é a personalidade do destino. E cá se encerra os dizeres de um cético em relação a jogos de azar. Pefiro gritar truco na orelha de alguém a arriscar ilogicamente alguns numerozinhos...

domingo, 13 de novembro de 2005

Felizmente esse diálogo pe ficcional

_ Homem tem mania de começar a ficar mal-vestido por causa de pé na bunda de mulher.
_ Hmm, se fosse assim, 3/4 dos pedintes nas ruas seriam pessoas bem-resolvidas de questões afetivas mal-resolvidas, nossas estatísticas seriam radicalmente invalidadas e teríamos com isso uma inusitada redenção social.
_ Seu grunge!
_ Retire o que disse!
_ Não mesmo! Há quanto tempo você não usa uma roupa que não esteja desfiada, com costuras esgarçadas, ou cores alvejadas por água sanitária?
_ Bom, deixe-me ver...
_ Viu só? Você nunca estranhou o fato de algumas pessoas jogarem algumas moedas na caixa do seu violão quando você canta com a galera na praça?
_ Achei que elas faziam aquilo preu parar.
_ Talvez seja por isso, também.
_ Mas a Mel vai virar passado. Ela tem que virar passado!
_ Pelo seu bem, espero que sim. Mas juro que quebro seu nariz se você contratar outro telemensagem pra tentar se reconciliar com ela de novo.
_ É, foi um momento de fraqueza.
_ Custava se prostituir afetivamente por telefone?
_ O que você chama de "prostituir afetivamente", chamo de "reafirmar prosaicamente" meu amor por ela.
_ Nunca te perguntaram se você renova seu guarda-roupas com a Defesa Civil?
_ Ora, mas meu visual é atraente pr'algumas meninas. Já ouviu falar que gosto não se discute? Quanta menina ajeitadinha por aí que eu conheço que tem um tesão daqueles por garotos de cabelos longos e desgrenhados e com roupas pretas? Não se lembra de semana passada, quando aquela morena queria me levar pra tomar um drinque com ela?
_ Cara, aquela menina que te abordou na calçada era uma asistente social! E ela não te ofereceu um drinque! Pra você, nem Santi ela ofereceria. E me poupe da piadinha do "Junior"...
_ Tem razão, ela não era uma simples ninfeta: era uma promoter! Até me deu um cartão do escritório dela! Quer moral maior do que poder ligar pra guria em horário comercial? Ela tá caidinha por mim, porra!
_ Meu, aquele cartão era do Adauto.
_ Não conheço essa boate, deve ser nova.
_ Não é uma boate, é um clínica psiquiátrica!
_ Afinal, tenho cara de indigente ou de louco?
_ Ela deve ter presumido ambos: quem mais prepara serenatas às três da manhã em pleno Centro da cidade?
_ Queria encontrar a Mel depois da balada. Ela não atende minhas ligações!
_ E perturbar a ordem em plena avenida era a solução perfeita, não?
_ Lógico! Como ela pode ter resistido a meu cover horroshow de Sweet child o'mine?
_ Cruz-credo! Além de grunge, é emo!
_ Ei, cuidado com o que fala!
_ Grunge, grunge, grunge....
_ Cruj, cruj, cruj, tchau!

sexta-feira, 11 de novembro de 2005

Textos esquecidos num canto qualquer do disco rígido, que por razões desnecessárias e desconhecidas, serão poupado da pulverização eterna. Leiam e se arrependam: eu já me consterno perante as linhas abaixo, sem uma conclusão apropriada.

Divergências

Para um bom inimigo escolha um amigo. Ele sabe onde atacar. Sendo que recomenda-se que deve-se manter os amigos próximos, e os inimigos mais próximos ainda, uma inimizade à altura só surge entre amigos. Ou seja, o trágico da vida é que apenas amizades em potencial são esmagadas com inimizades. Não há isenção nisso. O incauto que crava uma espada em seu peito talvez não seja um inimigo. Talvez seja, assim como você, vítima de circunstâncias desfavoráveis. Pontos-de-vista desfavoráveis. Atos desfavoráveis. Rousseau já dizia em seu Contrato social que apenas os iguais podem ser amigos: um Estado só deve ser inimigo do outro, um homem só pode ser inimigo do outro. Se intrometer em brigas alheias implica em se correr o risco de se incutir em inimizades de uma natureza a qual não te pertence. É por isso que o pior erro de qualquer estado é considerar indivíduos como seus inimigos. Exemplos atuais não nos faltam. Sem falar que alianças muitas vezes transcendem, mesmo que à força, inimizades.

Sendo assim, ódios são recalques racionalizados. Eticamente suportados, ou não. Mas isso é levado em consideração por poucos, e raramente percebe-se que inimigos não se colecionam, por simplesmente não passarem de amizades trágicas. Que é o que basicamente acontece em qualquer das histórias contadas pelos dogmas: por mais que os profetas e os messias agradem a todos, mais cedo ou mais tarde haverá amizades trágicas. Impulsionadas por certo sentimentos calcados por carências humanas? Talvez. Mas mais possivelmente pelo egocentrismo. Afinal de contas, a natureza individual dificilmente se dá bem com a coletiva. São naturezas diferentes, lógico, e portanto não podem ser inimigas. Divergências, assim, não são motivos para inimizades, evidentemente. Convergências, sim. A opinião geral, média poderada de opiniões individuais, nem sempre bate com a opinião vigente. Mas isso já disseram antes de mim...

Ninguém nunca é o mesmo, nem num dado num momento, nem em quaisquer momentos. Mas que é da cármica natureza humana emperrar com certas pessoas, isso é. Esses sons obstacularizados que denominamos de língua insistem em pormenorizar demais. Abominam os silêncios à toa. E quando os exaltam, os deixam em voga a ponto de empobrecer as nuances dos dizeres orais. Precisamos descobrir algum tipo de imparcialidade ao nos comunicarmos. Os mais tradicionais, com suas regras de etiqueta, dotam a fala de um tom sisudo e comedido que poderia ser interpretado como uma ingênua tentativa de isso obter? Em muitas ocasiões, felizes devem ser os que, sem poder se utilizar da fala, se utilizam de meios menos passíveis de ambiguidades. Mas dotaram os homens e o mundo de poesia, e o fardo de se cantar essa tragédia grega fica ao nosso exclusivo cargo. Cargo este dissipado facilmente, hoje em dia. Essencialmente, pela inimizade de naturezas conflitantes. O problema de inimizades, com isso, é que elas sempre deverão se contentar com um nicho obscuro que contrarie o ódio e que tende a cultivar naturalmente.


A dádiva-mor

Reclamar devia ser um esporte. Mas como todo esporte se baseia em movimentos ritmados e/ou sincopados, inspirados por metas e pontos, a hedonista dádiva de reclamar logo se tornaria uma rota masturbação mental. O esporte em si seria passível de reclamação. Tanto o fim quanto o meio: qual justificaria qual? Reclamar é uma prãtica nobre demais pra ser simplesmente tachada de esporte. Reclamar devia ser, então, um jogo psicológico. Algo como o xadrez ou os jogos de cartas, misturando brilhantemente raciocínio lógico com dissimulação. Imagine, em vez de Kasparov duelando com um processador, duelando com um mestre da retórica, cada qual combatendo os argumentos do outro por meio de críticas construtivas (valendo mais ou menos pontos, de acordo com a categoria), ou destrutiva. Mas, pensando bem, o adversário de Kasparov seria uma mulher. Veja só: seria esse um dos poucos esportes supostamente passíveis de igualdade para ambos os sexos? Pensando bem, isso seria mais divertido que ficar brincando com dezeseis peças inanimadas, dispostas em cima dum tabuleiro, por horas a fio. Isso devia ser é coisa de nerd brotoejado fã de RPG, e não de grandes mentes. Imaginem a popularização de um esporte assim: em vez do guri ir pro campinho se ralar enquanto corre atrás duma bola, ele avisa em casa: "mãe, vou reclamar com uns amigos." Melhor do que arcar com despesas de saúde relativas aos tropeções naturais ao popular futebol.

A destreza gestual, o afiar dos argumentos, a habilidade para entonação e persuasão: seria a competição mais barata de se patrocinar e organizar. Como as partidas de pôquer da ESPN: imagina o quanto de reformas em estádios, por exemplo, a geral deixa de gastar, dispondo a jogatina na primeira mesa de bar que encontram. Pois é. Tudo bem que jogos psicológicos assim reduziriam à miséria toda uma classe de intelectuais, críticos, cineastas, artistas e economistas em geral. Mas veja só o fantástico retorno social proposto: além de jogar todos esses exibicionistas verborrágicos ao ocaso, se faria hábito a dádiva do reclamar, de tal modo, perante a mentira, demoliria de vez todo nosso sistema judiciário. Sem falar no contexto social: com uma formalização dessas, acrescida ao ato de reclamar, o que aconteceria aos elogios simples? Simples, a perdição dos puxa-sacos. Imagina quantos cachorros por aí começariam a ganhar heranças milionárias com o ocaso deles. Aprofundando as suposições, e os serviços de reclamações de empresas telefônicas e de ônibus? Ah, esses são prata da casa! Cachorro morto sempre é chutado, por mais que reclamem. Frase irônica? Tá reclamando do quê?

Já repararam como os reclamões dominam cada vez mais a mídia? Pra corroborar isso, cito pessoas contratadas para agregar referências psíquicas e até fisicas, em relação à pior estirpe de reclamões da face da terra: os que se consideram lições de moral ambulantes! Gente ignorante como Faustão, Datena, Avalone... A Band é experto em contratar ídolos dos chatos e boçais. Precursores como o Bolinha corromperam gerações inteiras por causa da Band. Estes são como time de várzea da nobre arte de reclamar: só falam coisas gratuitas, sensacionalistamente passionais, desprovidos de argumentos. Enfim, a pior transmissão possível da nobre arte. Arte esta que não escolhe classe social, nem sexo, nem credos, só figuras de linguagem. Por outro lado, reclamar devia ter o mesmo status de mágica. Segredos de persuasão e dissimulação sigilosamente encerrados em grupos restritos, e ilusões esporádicas de ótica. Mas isso eu falo uma outra ocasião. Pensando bem, não; dá pra se imagina a situação...
Aceite um drinque para que eu possa remover seu fígado enquanto estiver inconsciente

Se o inferno fosse uma boate, os médicos seriam ou porteiros ou promoters. Só entra se o nome estiver na lista. Com cortesia pra quem tiver plano de saúde. Com consumação mínima pra quem não tiver. Eles representam o mecanismo social ao redor de tal casa noturna. Dão carona aos baladeiros mais devassos com a própria saúde por meio dum luxuoso veículo de luzes e sirene igualmente intermitentes. São Ph.D em furar e cortar os penetras, e sabem administrar drogas como ninguém. Também são bons em fingir que realmente têm algum domínio devido às aulas pra açougueiro que estudaram: por mais que esbanjem conhecimento com jargões e léxico tão cifrado quanto a letra de suas receitas, quase tudo o que falam pode ser lido facilmente na variedades de qualquer revista. Algo do tipo "pessoas que comem cereais reduzem em 15% as chances de desenvolver reumatismo." Discursos precariamente enganchados em pesquisas difusas. Até porque, depois de recalibrar a comissão de frente de metade da fila, ninguém quererá saber o que eles têm a dizer mesmo; o bisturi e suas pinceladas de superficialidade e esquizofrenia corporal já falaram por si só. Esses discursos, de puro academês destilado, só perde pro dos bacharéis frustrados e bonachões omissos,e studantes de Direito em geral. Estes se saem melhor como patrocinadores (quando não donos do lugar) do que como promoters. Seguidores de leis, cujos números não fazem o menor sentido, e cujos artigos são reciprocamente antitéticos com a prática do ofício. Perfeitos pra fingir perante as autoridades que menores não beberam, inalaram, muito menos treparam em seu estabelecimento. Útil também pra se ganhar tempo enquanto se despoja daquele corpo estendido no chão. Eles não perdem tempo com um comércio paralelo de compra e venda de almas, como se pode presumir. Preferem lidar com o insumo dela, o corpo. Afinal, não é a alma quem recebe doses homéricas de álcool, paliativos psíquicos generalizados por drogas, ou mesmo cultos recalcados como a felação e o entra-e-sai. Satisfazer a alma é coisa de wiccans, hippies e outras sobras da cultura new age: dá trabalho, e requer uma índole incompatível com um mundo cuja composição primária de carbono permite a evolução natural dos idiotas. De que adianta uma transcendência que sucateia certas dependências do "templo da alma"? Pros idiotas usarem terno, tomarem por usucapião coisas pra sustentarem sua punheta existencial, e justificar os meios por meio dos fins? Dos idiotas, só se pode esperar organização no inferno, mesmo. Onde se depreda o templo da alma e se esporra na cara da detentora da primeira língua detratora, contraditória e emocionalmente serpenteadora que aparecer. Mas chega de falar mal dos insumos da hipocrisia social, vulgo advogados. Uma hora cansa chutar cachorro morto. Não são só eles quem gerenciam o local mais hype da noite, mesmo...

E os números? Ah, é pra isso que contadores, empresários, engenheiros e administradores em geral servem. Pra abstrair as dimensões da consternação dos freqüentadores dessa badalada casa noturna. Porque as pernas pra quem você tenta pagar uma bebida são, meramente, templos de ode neurolingüístico, de adoração, em parte, às fronteiras do próprio ego. A parte restante é em penitência semiológica. E agora, garanhão? Suba na área privé do estabelecimento, abra a porta dos fundos (da moça) e dê aquela vistoria. Coloque só a cabeça e vislumbre. Mas, pensando bem, faça valer a promiscuidade ética à qual você já se submeteu. Promiscuidade essa denunciada não pelo vestido de oncinha da mundana, mas na oncinha que você acaba de colocar na alça da peça íntima dela. Faça como na Antigüidade Clássica: não se contente apenas em subjugar a sagacidade e a dignidade a quem o templo foi dedicado. Invada-o. Deprede-o. Não deixe nada nada em pé. Haja pregas. Haja demonstrações visuais que justifiquem alegoria tão patética quanto o inferno, a casa noturna mais freqüentada pela galera do mal. Pelo jeito, a gerência do local vai bem, como um todo. O caixa dois, a forma mais alienável de cometer um crime já provavelmente criada, é de vexar qualquer banco. Entre os freqüentadores, mesmo os não-recalcados entram às escondidas. É, se a faxina multiplamente egoísta dos médicos não é suficiente para homogeneizar a clientela do local, e a faxina (ou seria imundície?) ideológica dos advogados também não, talvez realmente, simplesmente o inferno seja os outros (é só uma casa noturna, mesmo...). Aplicado a outros alheios, lógico. Estamos falando duma franquia que superfatura e corrobora algumas de suas famas com estatísticas invejáveis. Enfim, bem-vindo ao inferno, venha fazer uma social num ambiente só de boas intenções, mas recheie sua carteira: nunca se sabe quando o porteiro quererá um agrado. Contente-se com as expensas salgadas do local: no céu, casa noturna do outro lado da cidade, a bebida é tão ruim que nem gim tônica tem, só vinho. Sem falar no ambiente único sem DJs (o outro local tem dez), só toca Aqua e couverts, e sem garotas rebeldes sem causa o suficiente para toparem o intercurso contigo. Pelo jeito a Vigilância Sanitária vai interditar o local: alguns rituais funerários praticados por certas tribos góticas desagrada o publico como um todo. A única vantagem do céu talvez seja, em verdade, ser gerida por idiotas inofensivos. Inofensivos no sentido de se promoverem por meio de eufemismos. A política politicamente correta deles impede que os seguranças espanquem os baderneiros, por exemplo. A equipe sádica do inferno é chegada em castigos reiterados. Mas como toda política, politicamente correto, às vezes, é só "politicamente". Alguns preferem a opressão gradual em troca de segurança. Não o negão te encarando a noite toda, louco pra expulsar você, baderneiro, mas o... bom, dependendo de como você goste de usar seu templo, talvez "o" segurança se trata do negão, mesmo. Realmente o céu e um saco, santa!...

Esse ano, andei provocando demais as historinhas criativas criadas pelos dogmas. Estaria eu ouvindo um chamado ao ateísmo? Não sei dizer, mesmo...
Só pra constar: a foto deste post é de um ambiente oferecido por uma casa nova-iorquina deste endereço: http://www.creamnyc.com/rooms/red.html

terça-feira, 8 de novembro de 2005

Filosofia bairrista

A juventude é existencialista. Compra o primeiro livro de bolso que encontra na banca e sai por aí espiando seu vazio, enchendo a boca pra tachar suas pseudoleituras de frustrados, decorando citações e pagando uma de cult entre amigos, quase sempre se despencando ingenuamente em direção ao abismo do marxismo embebido n'algumas linhas filosóficas do início do século XX. Se hoje em dia há idiotas com estampas do he em suas camisas, me condôo, com lágrimas de crocodilo, por Nietzche: esse ainda virará vítima da moda. Brincar de mudar o mundo é legal -- Raul e Che são como se fossem a Xuxa dos hippies da unviersidade pública -- enquanto o ser e o ente não se encontram e aquela angústia pseudo-heideggeriana é dissimulada pelas confusas esperanças de jovens jovens demais somente em idade: púberes fenomenologistas se iludindo em teorias que tiram o corpo fora, sem que percebam, de suas próprias realidades. Desconstruindo um estruturalismo que sequer concebem com segurança.

O século XX tornou a filosofia algo pop. Genealogia da moral se emperrando numa lógica capitalista sucedendo a homogeneização dos comportamentos. Viu como é fácil a procriação acéfala dos revolucionários natimortos hoje em dia? Eles ainda acreditam em duendes. Fidel e sua toca que o diga. Daqui pra frente, me mostro inteligível pros filósofos de banca de revista, cujo contato com pensadores se restringe às edições baratas de papel higiênico vendidas pela Escala. Caham! Intervenção humana para reorientar a trajetória histórica, tendo a tecnologia como álibi para um humanista otimismo? Quanta ingenuidade, Marcuse! O máxim que ocorre é a legitimização das efemérides sociais atuais, um proesso descartável de ideologia. Adorno histórico previsto por Adorno. Ele e Hockerheimer. Habermas e uma sugestiva simpatia pelos direitos humanos que negam a naureza do egoísmo humano (definições verbalmente consensuais de razão e verdade? Sei), mascarando incongruentemente sua crueldade patente. O que me faz perguntar pra que serve a sociologia, mas deixa pra lá. Se valores, por meio dum poder essencialmente criador, consagram interesses de forma diacrônica, Foucault acaba de abolir a noção de eficácia trazida por manifestações populares. Mas é uma pena que os jovens pedantes de hoje em dia, carregando sua filosofia pop na mochila, isso não percebam e ainda percam tempo com passeatas como meras desculpas pra matar aula. Definitivamente, não foi assim que falou Zaratustra, jovens dinamites. Não bastasse Derrida ter morrido ano passado, continuam o matando: logocentrismo desconstrutivista. Esse recalque com o pensamento menos individualista do Oriente ainda trará muita contradição...

Por um lado, gente como Marilena Chaui se mostram para mim como mera repetição do passado. Poderiam me listar a quantidade de pensadores do século XX que aderiram a regimes, de propostas revolucionariamente unilaterais, como o nazismo, o comunismo e o stalinismo? Creio que, no Brasil, o PT seja a versão disso. Porque brasileiro é acomodado demais pra sustentar regimes opressores que saem por aí dizimando etnias e classes sociais por causas absurdas. Brasileiro prefere sustentar ideologias insustentáveis enquanto esquemas envolvendo doleiros e empresários, muito mais bem-articulados do que as pueris diretrizes políticas dos petistas, continuam em pleno funcionamento. A esperança venceu o medo. O caixa dois do partido comprou essa esperança. Deve existir uma síndrome dos vinte e cinco anos. O inferno astral do PT ocorre em seus vinte e cinco anos. E nos regimes do início do século XX? Algum deles passou dos vinte e cinco anos sem serem maculados pela prática?

É preciso saber viver. Se perguntar porque isso é necessário, já que ninguém tem manual de instruções para isso, é tarefa de filosofia (devo ter extinta dezenas de categorias profissionais com isso), mediocrizada pela ciência e de proveito incerto pela próxima forma de conhecimento que sucederá a engradada ciência. Dogmas não são manuais de instruções, são mais como livros de auto-ajuda com enredo. E auto-ajuda? Seriam dogmas informais, sem enredo. Enredo? Seria, sinônimo de história, dogmas sem auto-ajuda, composta predominantemente de causos fabulescos dos dominadores sobre os dominados. Os do contra em relação a isso costumam se esconder na literatura. Os dominados historicamente, sendo coagidos e manobrados em geral, são privados da verdade. Como esta dói, e não a detêm, são masoquistamebte testados de outras formas, enquanto os dominadores, subjugadores e algozes por excelência, são dominados somente por seus próprios escrúpulos, acessório este opcional, sem direção hidráulica, com o menor porta-malas da categoria. A ética, realmente, é areia demais para qualquer caminhão. Esta, por sua vez, trata-se de ingênuas dissidências do caos e da lascívia, feita para, do alto de sua inflada integridade, pichar pecados capitais mundo afora. Estes sete, por sua vez, são argumentos de empresas (em todos os sentidos) para se isentarem de manter garantias para seus "produtos defeituosos". Empresas, por conseguinte, são institucionalizadoras (condicionamento que se trata de saída mais confortável para se afastar das divergências dos idiotas) da vida alheia, sejam estas no papel, sejam estas metafóricas. Com tudo isso exposto, os idiotas devem se tratar dos que jamais pensaram, nem que por momentos, em recorrer ao niilismo, quando os insumos da dignidade dos homens, há pouco citados, estão em falta. Se é que dignidade existe. Talvez essa resposta se trate dum acesso desnecessário de niilismo inconseqüente.

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

Acabou!

É pedir demais! Se revolucionar pra descobrir sincronicamente que nunca se muda é frustrante. Pra ter a impressão de que a metamorfose não serviu pra nada por causa dum revés que sucedeu vários outros momentos de sorte. Sempre achei que seria mais fácil, mas sempre soube da ingenuidade de minha expectativa. Como sempre. Pra variar. Dois chavões que ela não agüentava mais ouvir. Foi algo tão sumário, repentino, dum impulso. A perplexidade sequer se deu ao trabalho de se menifestar no ouvinte, se manifestou apenasmente em quem se manifestou. Ela já esperava ouvir aquilo de mim. Ensaiei por meses dizer. É que, na verdade, ao mesmo tempo em que sentia ser necessário aquilo dizer, sentia que estaria abrindo mão, sem um motivo claro, dum hábito feito há mais de quatro anos. E, ao me retirar de lá, fiquei lividamente sem palavras. Mudez opaca. Impressão e expressão idem. Não havia mais a se dizer. Deu um aperto condescendente no peito. De lá me dirigi a um outro local e voltei pra casa. Que é onde a ficha caiu, em meu quarto, deitado na cama, agora andando com as próprias pernas. Um cutucador pesar se faz presente. Não se soma tão degradantemente como a parafinada mágoa que já se encontrava lustrando essa prancha sem ondas. A partir de hoje, de certo modo, as coisas serão diferentes. "Sua vida mudará completamente". Acreditem, esta última frase é a mensagem com que fui recebido ao entrar no Orkut. Pouca sutil ironia do destino. Sutileza mordaz o suficiente pra garantir constância numa mente sem, há tempos, vislumbres autônomos. Mas disse que as coisas serão diferentes porque não terei mais meu "diálogo interno externado" (vide post de 3 de setembro e outro nesse mesmo período de 2003). Sim sim, eu disse. Por mais que ouvintes sejam limitados pelos acessos de loucura que evitamos proferir (já que os loucos se ausentam dos nós do mundo), é bom ser ouvido, especialmente quando a sintaxe lexical perde a importância para a sintaxe autônoma das estranhas emoções de sempre. Sei que, nos dizeres d'O louco de Gibran, "encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós". Talvez me tenha libertado duma escravidão. É que a liberdade traz hesitação. A liberdade é o limite da própria liberdade. Se Jorge Forbes, "separado no nascimento" de Bil Murray, chega a tal conclusão, tenho cá um indicativo de que, bem, Sersup se cansou. Ele tem esse direito. O incauto há tanto bolinado por ele, não. Este blogueiro catártico tem mais o que fazer, finalmente, do que refletir perante sua idiossincrasia, álibi há tempos desmascarado.


O título sensacionalista foi involuntário. O BR não está acabando; ainda terão de me aturar por um pouquinho mais... ¬¬
O pincel pincela palavras por essa palheta peculiar, a prosa


Aquarela noturna

O tapete de luz escarlate, rubro pastel que ganha espaço na noite. Relento temperado a molho rosé. Holofotes dum palco vazio. Todo um bastidor para se perder. Longe de aplausos, longe de olhos atentos vindo dos camarotes. Retido pela solidão coletiva, pelo beco que o luar não alumia. Pelos temperamentais pontinhos escarlates aprisionados pelo vidro translúcido da janela, favo da mesma luz amarelecida perecível que desverdeia a árvore na cançada à esquerda, conferindo-lhe tons desérticos de dunas pinceladas por suas folhas. Ao fim da rua, a praça vazia. Sob a iluminação de dois postes, sentinelas da brisa arterial injetada nos poucos incautos que ainda nesse horário vagam. Quando a barragem da energia urbana abre suas comportas e emerge os espíritos, solitários de gente, mas não de realidade. Nem de sentir, nem de ansear. E a noite permanece com suas cortinas abaixo, sob peculiar iluminação dum ensaio altamente boicotado, infelizmente.


Aquarela vespertina

Atmosfera nova no... Reformas simples, algumas portas retráteis abertas, chove raios de sol pelo verde do pátio que sobrevive diariamente ao chafurdar dos trajetos diários de centenas. Trotes diários. O pensamento egoísta: e se as aulas voltarem? Quero férias, quero paisagens novas. Não quero acompanhar os gatos em improvisações, à épocas ermas, feitas no cronograma. O máximo que quero é acompanhar o chegar do pôr-do-sol pela ampla janela da sala ao lado do saguão. Ver o sol de passagem. O mundo pegando sua passagem pelo expresso luar. O mesmo sol que cintila é o mesmo que passeará pela gota de suor, esfriando sua espinha e acalentando um dia tedioso. Mais do mesmo mais pulsante a seu redor.


Dois panoramas dum dia comum, o dia vinte do mês passado. Retratados pela metalingüística palheta prosaica que acaba de se manifestar.

domingo, 30 de outubro de 2005

Corruptelas cartesianas

Penso, logo existo.
Penso, logo não faço a menor questão que você continue existindo.
Penso, logo inexisto. Porque é pensando que se percebe a infimidade à qual temos de nos resignar.
Penso, logo há existência. Existir pessoalmente é outra história.
Existo, mas não penso. Pensar trata-se de mero insumo existencial.
Penso, mas existo.
Penso, logo existo. Para mim.
Penso, mas não o suficiente para existir. Para, no máximo, abstrair.
Penso? Logo existo? Dá pra fazer os dois ao mesmo tempo?
Pensar, logo existir: há uma relação de equivalência nisso?
Penso que existir é sensorialmente concebível.
Penso, existo, logo falta mais alguma coisa.
Penso que existo. Ou vice-versa.
Descascando batata quente?*

Odeio a perspectiva, mesmo que incipiente, de acabar tendo uma vida de perdições e falsa salvação. De falsas promessas de redenção em troca de se abrir mão de realidades estáticas. De excessos, de falta, de ambição, de descaso total. Descaso total com a obrigação moral de sair de casa e se obrigar a ser mais feliz. Fatos isolados culminam em mudanças caóticas em quantidades ainda mais caóticas de pessoas. Sequer temos o luxo de nos denegrirmos sem o efeito borboleta assumir uma forma adornada de condeção pra cima de você ou pra cima dos outros. Dizem que é preciso coragem para se satisfazer. Uma verdade que não é isolada. Não é porque, bem, porque não somos conseqüência. Somos "pura circunstância, e se não a salvo, não me salvo a mim". Maldito Ortega y Gasset. Compensar fatos ausentes e nulos com fatos difusos: do que é que se fala, afinal?

A interpretação fragmentada que temos de nosso viver nos faz ignorar que não há interpretação sem percepção. Limitamo-nos a contrastes? Remanejar a bagagem classificada por nossa percepção é algo automatista e conflitantemente acasificador**. E vista como sem fundamento quando se estagna, quando a vontade de ansear o futuro desaparece. Deixamos de ser futuriços em algum momento de nossas vidas? Convicto de ter a resposta para mim mesmo, eu não arrisco um palpite, seja em qual aspecto e âmbito se solicite. Posso dizer que, sabendo que nunca mudamos -- apenas, no máximo, se adapta ao que se deseja ser --, devo questionar o que pensar de destino. Que dependência e intumescência de experiência isso se trata? E não me vem com esse papo lugar-comum de Carpe diem; este é um estado de espírito, e não um objeto acessível. A mente é como código de barras: as instruções não mudam, muito menos o leitor. E chega de metáforas improváveis como essa. É como se só quem tivesse medo de ser feliz perdesse tempo escrevendo. E, quando não se tem tal medo, é como se fosse sinal de que se tem medo de deixar de ser feliz. Ah, tanto faz.

Odeio, mais do que essa greve de mim mesmo, perceber que léxico algum percorre tal vácuo. Que nada será diferente, apenas as situações é que serão. E que um círculo vicioso se insinua, em vez de se escancarar honestamente perante mim. Já fui chamado de mochileiro frustrado face àquela vontade latente de abandonar tudo e conhecer coisas novas por mais que se adore as velhas. É que as velhas farão com que continue o mesmo. As novas ainda dão uma sombra de esperança de que isso não seja verdade. Mas quando percebo que a mesmice não estudou geografia, e que o deslocamento reiterado não sai de perto, mais uma vez continuo o mesmo. Não quero mais viver assim, mas os caminhos se perdem facilmente; sempre há algo para dar nós cegos nos fios de Ariadne. Pra desfiar aos poucos. Pra trazer conclusões cretinas como a de que vincular o destino ao amor é uma burrada abissal.

Não devia reclamar tanto, embora reclamar seja uma das dádivas mais fáceis de se usufruir com as quais somos agraciados. Mas as dádivas que orgulhosamente tenho acabam sendo ofuscadas por vãos mesquinhos deixados pelas perspectivas. Sempre se quer mais, mas se contenta com menos, menos quando sequer menos há. Quero o que julgo dever ter por direito (nada mais, nada menos), mas como não há leis ditando o que cabe à nossa psiquê, ficamos à mercê dá máxima "na lacuna da lei usa-se o bom-senso". Como se observa hoje em dia, há mais lacunas que bom-senso. Sei que falamos mais porque ouvimos menos e que respondemos mais porque questionamos menos, mas que mundo é esse em que execram a sagacidade de espírito trazida pela ironia, apesar de a usarem ainda mais cruel e sagazmente do que execram? O que é que cai do céu, afinal? Tem que haver algo. Algo que dispense o profético e traga o indispensável. E que não desdenhe os apuros por que passamos com nós mesmos. Não é fácil nos agüentarmos.


______________

* Da série: eu não devia ter escrito hoje!
** Vide posts do ano passado.

Dica do dia: não perder tempo lendo este post e conferir o trabalho de Kurt H. Frederiksen. Acredite, você já viu algo feito por ele antes.

sábado, 29 de outubro de 2005

A televisão me deixou muito burro demais...

É impressão minha ou os noticiários da TV5 (podem ser vistos na Cultura após os Contos da meia-noite) são os mais sarcásticos e sexistas que eu já assisti? Admitamos que é muito legal o tom de deboche com que as estripulias infelizes dos americanos são noticiadas pela galerinha gálica, mas noticiários com repórteres femininos de trajes chamativos, quando com trajes, é demais? Bom, perto dos noticiáios-show que vemos por aqui, como o Ricardo Cabrini transformando seu estúdio num palco de programa de auditório, não deveria estar estranhando nada. Muito menos quando observo o Paulo Henrique Amorim e suas discretas bolsas oculares adaptando seu noticiário em um similar das Sonias Abrão da vida. Realmente, o jornalismo do início do século XIX é preocupante. Não tão preocupante quanto as inserções publicitárias cretinas da Grobo ou as nababescas instalações do departamento jornalístico da emissora do Senor, com mesas em que as pernas das apresentadoras aparecem, mas é. Se bem que, em vez da notícia-pastelão daqui do Brasil, preferiria a notícia-cinismo dos franceses. Sei lá, o Brasil precisa de mais filhas da puta. Como o Marcos Valério. Quem mais teria a moral de, durante a acareação de ontem, debochar dos idiotas a quem precisa depor? O constrangimento foi tanto que o taquígrafo foi solicitado para remover esta genial deixa (por curiosidade, vide diálogo do advogado Buratti que ouvi e publiquei meses atrás).
_ Ora, basta rastrear o dinheiro. É claro que haverá divergências entre o que eu e o Delúbio diremos. Querem que eu comece a ensinar investigação pra vocês?

Melhor que isso, só a ex-esposa do Valdemar Costa Neto bordando, na mesma acareação citada. Sem falar nas esquisitices experimentais duma fórmula impossível, praticada pelos folhetins, de contar uma história por meio de um capítulo por dia. Faroeste abrasileirado com temática armamentista em véspera de referendo? Personagens femininos psicóticos e improváveis relações de mais velhas com mais novos? Referências baratas, com um peão, ao mito do rio de Caronte, por exemplo? Hierarquias televisivas irrevogáveis como meretriz/participante de reality show que vira cantora que vira atriz e que vira adorno hormonal em celulose pra vender revista masculina. Sem falar que o quesito cretinamente aristocrático da mídia nacional atola a cultura numa mesmice corporativista entediante. Alguém aqui ainda acha aceitável a idéia de o quadragésimo nono filme do Renato Aragão estar sendo rodado neste momento? Nem Jim Belushi filma tanto filme assim gratuitamente. Ou mesmo ver tanta coisa velha dos gringos ser cá vendida como novidade? Retomando o linha de pensamento dos noiticários, do parágrafo anterior, diria que a panelinha cultural das mídias nacionais funciona mais ou menos como a ONU: na mais gritante conivência. É tanta conivência que chega a ofender a inteligência de quem ainda credita em livros de história ignorar o eficazmente camuflado fato de a neutralidade suíça não existir. É, quem guarda dinheiro do Maluf pode ser tachado de tudo, menos neutro. Realmente. Não dá pra malufar e dar a cara a tapa. Malufar, termo este criado pelos insolentes jornais francesses. Só pra constatar.

A foto acima pode ajudar a demonstrar o perfil imbecilizante produzido pelo tubo de raios catódicos, por meio do semblante de um dos imbecilizadores. Até colocaria uma foto de alguém do Sbt, mas essa é engraçada; rio toda vez que a olho, hehehe.
Mas, ao fim do post, podem perguntar:
_ Sersup, arranje algo melhor a fazer do que ver tevê!
_ Como o quê? O ócio trazido pela greve faz essas coisas comigo...
É, amiguinhos, poucas novidades por ora. Sábado irei pra chácara. Os shows do fim-de-semana foram cancelados por aqui, fazer o que. Justo dessa vez, que comprei minhas entradas com dias de antecedência...

domingo, 16 de outubro de 2005

Provocações


Orações são chantagens mundanas? Lógico que são! Reverenciar e temer um Deus autoritário: é praticamente como mexer com RH! Sendo assim, a Igreja se trataria meramente de uma companhia de despachos! Hierarquia de mortais para uma aristocracia -- dizem -- de imortais. Ideologias cármicas, técnicas behavioristas de reverência, tabuada da culpa: é o que orações são! Se messias não são como a equipes de futebol, então porque seus dogmas lotam estádios, criam torcidas rivais e sustentam cartolas? Deviam deixar a aristocracia de imortais em paz.

Dogmas teimam em criar arquétipos sociais insustentáveis. Criando com isso recalques coletivos e choques orais infantilmente gerados pelo comichão do tabu. Há hierarquas éticas, arbitrárias e necessárias para se reger coletividades, assim como há dogmas para interpretá-los e subjugá-los de acordo com suas conveniências. Religiões se constituem como utopias e, sendo assim, deviam respeitar o ideal iluminista de separar-se do Estado. Ou, numa sugestão mais realista, de segregarem socialmente, como se fosse um estado civil. Por exemplo, sendo eu "casado" com o catolicismo, respeito determinadas leis, tendo determinados direitos, e acesso a serviços realizados por profissionais com meu mesmo "estado civil". Imagina o impacto disso em esferas do Poder, como o Judiciário, por exemplo. Ou seja, cada um, de acordo com seu "estado civil", se submeteria a diretrizes sociais adaptadas a seu dogma, sob os "arquétipos sociais impossíveis" que melhor lhe aprouver. Com algo assim, o que aconteceria aos ateus? É de se refletir.

Por natureza, o homem tem dificuldade em aceitar e querer defender certas coisas, como sua pátria, seus pais e seu time quase na zona de rebaixamento. E ainda por cima tem de viver sob a cobrança dum messias vítima, basicamente, de xenofobia? São crenças e depositários de correspondências de expectativas quem mantêm as pessoas com inspiração suficiente pra sair da cama todos os dias, certo? Precisamos de mais um? O que sei é que não precisamos de mais um depositário que nos cobre coisas. Para isso já temos família. Sei também que um grande exemplo não é para ser seguido ao pé da letra, mas sim para inspirar. Não precisamos da hierarquia de mortais querendo nos obrigar a seguirmos arquétipos impossíveis empregados pelos messias. Não é porque temos ídolos que somos obrigados a agirmos exatamente como eles. A autonomia é algo que poucos estão dispostos a pregar. Pregar o apego a algo em que se admire e confie é positivo, até o ponto em que este se intrometa em sua vida. Vide fãs de boybands, por exemplo: quer amostra mais clara de como a adoração obsessiva rouba as pessoas de seus caráteres, as submetendo às diretrizes do objeto adorado? Sábios são os persas, que nunca caíram na besteira de humanizar suas divindades e sempre mantiveram Zoroastro simbolizado de formas mais abrangentes e condizentes com coisas além da natureza dos homens.

O erro crasso dos dogmas é não tratar com naturalidade o que execram. Esse isolamento pretensamente auto-suficiente que eles insistem em fazer com suas próprias escrituras não é salutar. É um retrocesso, como sempre somos forçados a constatar. Certo e errado é uma visão bilateral que devíamos aprender a banir há tempos. Bem e mal é coisa de episódio dos Power Rangers. Adequado e não adequado a um dado ponto de vista seria mais cabível. É o absurdo de Camus vagando por aí. É a lascívia da condição humana rindo da cara de nós, supostos patrimônios genéticos superfaturados por Prometeu. É o fígado de que se regenera por mais que se o bique. A religião que aprender a abraçar o obscuro e o subversivo, ensinando a lição do egoísmo do individual de cada indivíduo, se perpetuará de fato. Assim será porque, ao se dar ao trabalho de interpretar as subversões e explicá-las aos diversos espíritos de seus fiéis, os estará inibindo e prevenindo de praticá-las por mera inconseqüência.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

Se o cenário musical brasileiro fosse um barzinho...

Ou, como diriam os Cassetas, "no núcleo pobre da novela, onde toca samba, pagode e rola barraco toda hora...", construamos tal hipotética situação. Em um impulso desenfreado de crueldade auditiva e afiadas discorrências, Sersup não perdoará ninguém no Brasil que ainda cai no erro de pegar em objetos fálicos como microfones pra tentar produzir sons passíveis de serem verisificados. Mesmo as bandas que Sersup gosta serão esfaqueadas pelos comentários do mesmo. Me poupem de fanatismos nos comentários: não faz diferença levar a sério este post ou não. Óquei, comecemos: se o cenãrio musical brasileiro fosse um barzinho...

_ Cássia Eller: viciada em videokê. couvert nas horas vagas. Daquelas que tocam por qualquer motivo: depois de perder uma aposta pro Nando Reis, depois duma cotinha dos amigos pro videokê, depois de incentivos etílicos, tudo isso enquanto junta playbacks pro seu acústico da MTV.
_ Maria Rita: filha da "dona" do estabelecimento. Tá sempre tocando no bar da mãe, mas nunca toca nas rádios, e haja marmanjo pra topar levar seus CDs pra casa, enquanto distraídos com sua beleza sonoramente infértil.
_ Loser Manos: ex-roqueiros de shopping, matando aula na faculdade, delineando cuidadosamente suas desgrenhadas barbas para se assemelharem ao perfil de seus pensadores (cujos nomes decoram com grande rigor fonético pra manter a pose de intelectualóide) e músicos preferidos, estendendo, com isso, sua pose de cult e intlectualóide à estética. Como estudantes de Humanas, as roupas boêmias, listradas e desbotadas, assim como uma mania de sexualizar seus ídolos revolucionários, como os Marx e Ches da vida, são patentes.
_ Tribalistas: Loser Manos sem barbas e com Arnaldo Antunes a tiracolo. Vivem fazendo saraus no local, sendo vaiados pelos freqüentadores que tentam se distrair sem serem incomodados pelas poesias declamadas aos berros.
_ Tim Maia: o síndico. Se respeitarem a ordem, nem perde tempo saindo de seu apartamento pra reclamar. Se desrespeitarem, o silêncio se compra com uma grade...
_ Legião urbana: precursor dos emos. Renato Russo dá aulas particulares de cifras e tablaturas atrás do palco. O que explica seus acordes paupérrimos de suas grudentas composições. Dizem as más línguas que Faroeste Caboclo diz respeito a um encrenqueiro que vinha toda semana à freguesia. Dizem também mais coisas entre ele e João de Santo Cristo, entre elas que João seria um pseudônimo pro Cazuza descrever suas estripulias lascivas, mas deixa pra lá.

_ Raimundos: roqueiros de shopping que compram pinga, depois de entrar escondido no cinema, pra agüentarem o descompassado barulho wannabe daquele festival de música alternativa que chegou na cidade. Ficam pouco tempo na fregüesia, apenas o suficiente para contaminar os aperitivos de algumas mesas com seus odores de semanas sem banho. Eles dão um trabalho fenomenal à Vigilância Sanitária, e jamais negam a influência nordestina em seu som...
_ Kid Abelha: daquele tipo de banda cuja vocalista devia fazer voz e violão como couvert, enquanto o resto da banda serve os clientes com aquela gelada esperta. "Ô comandante, amigão, tio, bróder, camarada, chefia, amigão, desce mais uma rodada..." Enfim, com sua caixa de violão aberta, Paula Toller renderia fortunas de gorjeta. Mais do que o resto da banda junto, servindo as mesas.
_ Pato fu: idem do Kid Abelha, mas causaria tumultos. Não pelos atributos calipígios que a Fernanda Takai, frustrada wannabe da Björk, teima em esconder, mas pelo indigesto som. Quem toparia pagar tal couvert? Estaria assim explicado o tumulto na saída do estabelecimento, principalmente entre os pinguços chatos que adoram criar barraco por causa dos 10%...
_ CPM22: emos por excelência, prefeririam ficar sentados na sarjeta, curtindo aquela fossa aos goles de tequila. E pensar que vendidos como João Gordo já puseram a mão no fogo por bandas assim, ao a indicar em seu talk-show...
_ Inimigos da HP: grupo que incentivaria o policiamento ostensivo na região em que o bar se localiza. Maior concentração de playboys já vista num grupo de pagode, atrairia rixas por grupinhos rivais, mulheres e rachas nas madrugadas.
_ Lulu Santos: é como aqueles couverts que só sabem tocar Raul. As letras nunca mudam, mas sempre tem um chato pedindo pra tocar.

_ Claudinho e Buchecha: funkeiros, soul music, pseudopop ou só bregas? Não interessa: suas letras se mostram um contra-senso tão grande que até heresias como Adriana Calcanhoto e Kid abelha fazer cover deles já aconteceu. Heresia para a extinta dupla ou para as bandas que cometeram tal despautério? Tanto faz, no final das contas.
_ Gabriel o Pensador: o do contra do hip-hop. Eminem que, felizmente, não deu certo. É tipo aqueles garis e pedintes bem-humorados, dublês de Jatobá, que a Grobo passa no Fantástico pra endeusar a índole carioca, com uma diferença: apesar das rimas, e de não precisar das ruas pra maltratar ouvidos alheios, ninguém o ouve. Tipo o Seu Jorge ou o Tom Zé que, apesar de ambos com pinta de garis, têm lá seu respeito no barzinho da música brasileira (ainda estou pra ouvir porque quem tem faculdade de Música insiste em se fantasiar de indigente...). Inclusive nas freguesias européias, apesar de vernissage não combinar com cachaça. Sem falar que o cara é mestre em alianças bizarras, como as com Lulu Santos, Fernanda Abreu, Fundo de Quintal e Bezerra da Silva. Ele deve ter sido VJ da MTV em encarnações passadas...
_ Simoninha: típico loser que sempre viverá à sombra do pai. Ninguém sabe o som que ele produz. Sempre bate ponto no barzinho, sempre enche a cara, mas ninguém nunca o vê se arriscando ao microfone.
_ Otto: difícil saber o que esperar dum cara assim. Facilmente confundido com o manobrista do recinto, é outro que só sabe bater ponto e voltar carregado pra casa, depois de umas. Faz barulho pra caramba depois do pileque, mas ninguém ouve. Em franco ocaso, topou até fazer um acústico MTV. O fundo do poço.
_ Supla: mais famoso pelas arruaças do que pelo som propriamente dito. Versão brasileira e masculina da Courtney Love. Só suas arruaças o mantém, sofridamente, na mídia. Namorico em reality show, vender CDs em bancas, o filho da ex-prefeita de São Paulo fará de tudo pra não sumir de vez. Assim como o estorvo televisivo que o promoveu, aquele VJ barbudo.
_ Capital Inicial: você percebe a mediocridade de uma banda quando esta precisa de uma escusa estratégica de marketing, como a realização de um acústico, para voltar à cena rock nacional, achando que mero empurrão mercadológico os torna semideuses intocáveis da música brasileira. Praticamente o Oasis brasileiro: ego lá em cima, som lááááá onde ninguém se lembrará no futuro...

_ Engenheiros do Hawaii: dividem os recantos obscuros da universidade com posseiros, de chimarrão à mão e muita besteira a cantar durante as festinhas de calouros. Costumam, de passagem, ir ao barzinho pra comprar caixas de cerveja. O supra-sumo dos intelectualóides. Mais uma banda desesperada a ponto de lançar um acústico...
_ Skank: Samuel Rosa deve ser empresário de gravadora fora dos palcos: o som de sua banda vive mudando, volta e meia tem singles estrategicamente produzidos pra tocar em novelas das sete, só lançam álbuns quando exploram todas as formas de vender seu som (muitas vezes, mais do mesmo)... não é à toa que pode ser visto no barzinho, com seus companheiros de música, tomando umas sempre de acordo com o marketing por cima do álbum: fase reggae, caipirinha; fase latina, tequila; fase pop, cerveja; fase britpop, whisky. A mesa onde a banda se senta sempre é reserva do outro lado do bar, longe da mesa onde os goianos ficam.
_ Titãs: uma espécie de Biguebródio musical. Quanto tempo cada integrante agüenta ficar compondo letras idiotas antes de sair da banda? Até que o Nando Reis agüentou bastante. Assim como o Capital inicial, o ego se endeusou por fazerem sucesso nos anos 80, por fazerem acústico, e por a esposa do guitarrista ser atriz global e sempre estar providenciando os jabás necessários para que a banda não desapareça de vez.
_ Pitty: é facilmente confundida com os incautos que cantam no videokê, mas os fãs juram de pés juntos que ela é uma grande cantora, revelação do rock nacional. Realmente, o mal-gosto sempre tem revelações chocantes... de andrajos de rockeira de shopping, não raro lhe é negada uma biritinha por acharem ser menor de idade.
_ Jota quest: assim como o Kid abelha, bandinha ótima pros solteirões investirem nas menininhas. É só aquele seu amigo trazer aquela amigona da namorada dele, tocar Flausino enchendo seus ouvidos de glicose, e pronto! Depois de uns copos, pode ser até que ela tope algum ato cafaegste seu, sem te achar um porco chauvinista. Sem falar que o couvert deles é gratuito: a empresa de refrigerantes que os patrocina deixou por conta da casa o serviço.
_ O Rappa: o vocalista namora uma protagonista de novela das oito. Se isso não é sinal de decadência para uma banda, não sei mais o que é. Alguém avisa pro Falcão que eles são só uma banda, e nao um diretório político. Aproveita e avisa o Yuka também.

_ Caetano Veloso: baiano chato que deve andar quase se arrastando no chão de tanto ter o saco puxado pelos outros. Todo mundo o conhece no bar, sempre tira onda com o barman, batendo aquele papo esperto com ministro Gil e sua dicção pantagruélica.
_ Planet Hemp: quando vender rebeldia deixou de dar lucro, foi a vez do filhão de Marcelo D2 vender um som de maior apelo infantil. Xuxa, tremei! O paizão raramente aparece na freguesia, e quando o faz, é acompanhado da patroa e dos filhos. Só pra fazer a moral de bom marido e garantir certos privilégios em casa... se a maconha é um desses privilégios, isso não faz mais diferença hoje em dia. Francamente. Depois de o filho dele começar a cantar, então... Não soaria tão absurdo o Fernando Gabeira legalizar a cannabis nos shows do cara. Pra agüentar um som daqueles...
_ Martinho da Vila: como todo boêmio carioca que faz samba, sempre tem seu lugar cativo à mesa, junto com a ala geriátrica do barzinho, mas é bem provável que só volte a ser lembrado por seu som quando bater as botas, e aparecer todo aquele asilo em volta do caixão, se lamuriando por um som que ninguém ouve mais.
_ Charlie Brown Jr.: produto que a MTV e todo mundo descartou há tempos. Menos a Grobo, qur mantém a música deles como trilha sonora de seu programazinho imbecilizador por mais de sete anos! Novela alguma faria pior com uma trilha sonora.
_ Cadeiras na calçada: é onde as bandas independentes de nomes idiotas ficam. Na sarjeta, à mercê do tempo. Nomes idiotas de wannabes constrangedores como cachorro Grande, Carbona, Comunidade Ninjitsu, Rumbora, O Surto, Autoramas...
_ VJs da MTV que tentam tocar em bandas: ultimamente eles servem mais como apresentadores da noite paulista, patrocinados por empresas de teelfones celulares, do que para o ofício ao qual foram designados, que é tentar separar o joio do trigo e apresentar clipes.

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

"Cara, desce do pedestal"*

_ Eu sei o que vou fazer, eu sei o que vou ver, eu sei o que vou ouvir. Não há surpresas!
_ Enquanto você abortar as oportunidades de fazer alguma cisão nisso, será assim.
_ Ao contrário de sua matéfora com cirurgias plásticas, não é com estética que poderei fazr alguma coisa.
_ Tenha fé.
_ A fé distrai.
_ É mesmo? Mera referência freudiana, isso.
_ Isso é anti-humanista, algo muito anterior ao médico austríaco. Se tivesse começado com ele, já teríamos suicidado doidos varridos como Marx e Jung,,,
_ Sei...
_ Perceba o seguinte: vou ter fé no quê? Ainda acredito, mas não usarei a crença como um elixir entorpecente. É preciso se distrair de se ter fé para tentar agüentar esses dias de concentrado enfado.
_ Saia do lugar. Dê o primeiro passo.
_ Primeiro passo para onde?
_ Não sei, mas dê. O começo é que é importante.
_ Me poupa, vai.
_ Ah, mas há algo diferente em você. Antes, buscando mudar, você não se contentava mais a dar um passo de cada vez: contentou-se apenas com a maratona que se mostrou os vários progressos que você conquistou. De repente, parou tudo, estagnou.
_ É, me estabaquei feio.
_ E agora, vai ficar aí, parado? Não é auto-compaoxião, isso?
_ Não, definitivamente não. Eu só preciso de tempo. Entenda isso.
_ Tempo. Mas de quanto tempo?
_ Não sei. Mas é muuuito tempo. Demoro pra me reerguer.
_ Só não esqueça de que o tempo vai passar.
_ Não se preocupe, isso já está acontecendo. A conta-gotas, na minha testa, enquanto imobilizado numa mesa. Assim, sadicamente, o tempo me tem visitado.
_ Você tem boas pessoas a seu redor. Não as desperdice. Não as deprecie tanto.
_ Ai, socorro! Eu conheço os caipiras com quem convivo! E acredite: eu os aturo bem, passo certo tempo com eles... não abusa!
_ Cara, desce do pedestal. Você também não cede, insiste em vangloriar os defeitos.
_ Pô, reclamar é uma virtude muito mais valiosa do que elogiar. Por exemplo, os amigos de meu irmão parecem integrantes dos Inimigos da HP, e as amigas da minha irmã parecem ter saído dum episódio dos Ursinhos carinhosos. Disso você já tira uma noção da quantidade de idiotas que aparecem em meu caminho. Mas só uma noção.
_ É, você seria um perigo para o cinema nacional se fosse crítico...
_ Perceba que tá tudo muito tedioso.
_ Claro, você não faz nada pra mudar isso.
_ Isso não é verdade. É tão difícil você aceitar que essa maré de tédio que me assola deve ser uma mera fase?
_ Conta outra! Esse hiato por tempo indeterminado vai te deixar mal-acostumado ao ócio, vai te isolar do mundo!
_ O que me deixou mal-acostumado foi me interligar ao mundo. Não sentia falta disso antes porque não tinha isso.
_ Exato. Mas foi só alguém te proporcionar isso, e em seguida você ter se amargurado com essa mesma pessoa que te roubou todo o cultivar duma existência mais interessante, com alguma imbecilidade verbal incentivada por medos passionais e irracionais, que te devastou!
_ Precisamente.
_ Reerga-se! Não se desapegue aos a seu redor. Não se distancie de tudo.
_ Não estou fazendo isso. Ainda sinto falta de falar besteira com algumas pessoas. Eu simplesmente estou voltando a me acostumar à minha habitual letargia, da qual me distraí quando coisas externas começaram a me fazer feliz e me fizeram desprezar a neutralidade com a qual já me habituara.
_ Tal neutralidade lhe era um porto seguro?
_ Lógico! Não me agregava, não me envolvia, não me afetava com nada!
_ Gente, que retrocesso absurdo este o seu, que se prostra à minha frente!


* Preocupante, preocupante. Ouvir isso do mundo todo é esperado, mas ouvir dela... nossa, doeu! E reiteradamente...

terça-feira, 11 de outubro de 2005

Sensibilidade: item de série com funcionamento opcional

O problema da sensibilidade é que ela, basicamente, se divide em duas: a sensibilidade gratuita e a sensibilidade verdadeira. A primeira, largamente utilizada pelo sexo feminino, diz respeito, habitualmente, a coisas que elas sempre querem ouvir, mas que não precisam tão freqüentemente ouvir. Da mesma forma que a gratuidade disso também serve como paliativo face a uma personalidade desanimadoramente forte ou indiferente, por exemplo. Serve também como artifício manipulador nas mãos das índoles mais ardilosas. A vulnerabilidade sugerida pela gratuidade desperta a compaixão alheia, que, por incrível que pareça, como tudo nessa vida besta, em excesso faz mal. Faz mal porque precisamos de certa crueldade para nos adaptarmos às faltas a nosso redor. Não precisava ser assim, e os dotados tanto da sensibilidade gratuita como da verdadeira sabem bem disso. A rispidez não é necessária. Talvez a austeridade, mas não a rispidez. Esta é uma sensibilidade verdadeira por demonstrar a capacidade de se indignar, indignada de estar tão gratuitamente visível por causa de sensibilidades gratuitas. Já a segunda sensibilidade, a verdadeira, não obedece a sinais e gestos. Obedece apenas à nobreza do porque tais atos são dispensados a outrem. Por a nobreza facilmente se confundir com mera honraria, esta sim uma sensibilidade gratuita, é de se utilizar de cautela ao se salientar que a nobreza, escudeira da sensibilidade verdadeira, pode tanto estar dentro como fora do front. O front fortifica o indivíduo, o que fica entre o esconderijo consciência e o esconderijo conseqüência. Se acontecer de o front estar cercado por um fosso... tente tirar alguma conclusão.

Se achar o pior é se achar o melhor numa perspectiva mais pessimista, outrossim mais acessível e aceitável para resignação. É tão difícil viver que resignação sequer é resignação: é mera adaptação a uma perspectiva mais acessível. Isso que acabo de dizer se trata de uma sensibilidade gratuita ou verdadeira? Tcharã, comece desde já a tentar distinguir uma da outra, sempre que puder. você, ser pensante e contraditório que usa calcinhas, talvez tenha mais facilidade para reconhecer um do outro, já que costumazmente deve usar, para com seus amados, a gratuita quando a verdadeira não funcionar, isso quando finge que a gratuita é verdadeira pra não invalidar a verdadeira por vir. Já os seres pensantes e estóicos, usuários de samba-canções, tendem a abatrair a sensibilidade como algo uniforme, e como último recurso para regiões em que a razão não alcança. Basicamente, um age pelas sensibilidades, e o outro age por uma supostamente una sensibilidade, e mesmo assim em constante negação. Seria possível se viver num mundo exclusivo da razão? Ou mesmo exclusivo de sensibilidade? Considerando a possibilidade desta última opção, poderíamos começar dizendo que a sensibilidade se origina primariamente da razão, sendo ambos indissociáveis? Talvez não. Se a sensibilidade gratuita perigosamente incita a verdadeira, e vice-versa, uma seria dotada de mais razão que a outra para que isso acontecesse? Isso validaria dizermos que sim, razão e sensibilidade são a mesma coisa com objetivos diferentes, mas aindassim seríamos vagos. Se somente a contradição sobrevive unicamente por sua própria concepção, por sua própria existência, seria ela fotossintética a ponto de as metas de ambas sensibilidades serem atingidas apenas pela eterna contradição? Saciadas as exigentes sensibilidades dum mundo que despreza a razão, como ficariam os outros departamentos humanos que precisam da razão para proporciona um mínimo de funcionamento social? O saciar pleno das sensibilidades nos faria abrir mão dos desafios da razão, estes também sustentados e perpetuados apenas pela eterna descoberta de eternas contradições nos descaminhos do saber? O progresso a que chegamos diz que não, ao que tudo indica. Mas essa jamais será uma resposta definitiva: se o saciar de ambas sensibilidaes trouxese contentamento, essa seria mais uma forma de resignação, que por si só não é resignação, como dito no início do parágrafo. Ou seja, a sensibilidade nos convida ao simples, às limitações. E chega a me irritar ter escrito tanto pruma conclusão tão ridícula.

O bom das sensibilidades é que elas não dizem, integralmente, respeito a patéticas carências inerentes aos homens. Assim, deviámos ter alguma forma de controle cármico. Ou mesmo mais convenções sociais para evitar tantos desencontros proporcionados por um mundo grande demais, com integração demais, por vezes. Por exemplo, idiotas, como propus numa outra ocasião, deviam ter uma forma única de se identificarem, assim como os sensíveis demais (sim, sei que os emos são causa perdida, mas deixa pra lá), os sensíveis de menos, os indiferentes, os laissez-faire de cabeça, os que sempre procuram se adaptar a índoles alheias... Mesmo que houvesse quem a isso interpretasse como segregação, não sou ingênuo e retruco: só as segregações nos tornam suportáveis em muitas ocasiões. Até as sensibilidades segregam. Quem não o faz, muitas vezes, são os que preferem ignorar ambas sensibilidades, simples assim. Somos seletivos, e a sensibilidade é uma forma sutil e bela de se fazer isso. É assim porque prefere sugerir a declarar, em muitos casos, e, assim como a contradição, sensibilidades só se reciclam a si mesmas: ignorar o que lhes é desconhecido para lhes talharem ao que lhes aprouver segregarem. Mas lembrem-se: sensibilidades não se reciclam por critério de exclusividade (gratuitas por gratuitas e verdadeiras por verdadeiras), mas é por exclusividade que se rebelam. Só se pode se tornar inimigo de um semelhante. Não se detesta jamais o que se desconhece. No mãximo, se teme. Meio Rousseau, isso, mas não está mais aqui quem falou.

Depois dos dois posts-fiasco do início desse mês, volto, depois de uma semana, tentando escrever algo menos blasé e descartável como os dois últimos posts. Espero que gostem...

terça-feira, 4 de outubro de 2005

Tudo bem?

Adoro pessoas serelepes. Tudo bem que elas acabam entediando se nos submetermos a longos períodos convivendo com elas. Mas elas sabem como ninguém como não se levar a sério. Como jamais se arrepender do que fizeram. Como encarar tudo na vida como páginas viradas dum livro de literatura de banca: meros contratempos funcionando como forma de se ganhar tempo enquanto os finais felizes não chegam. A vida parece simples quando se aprende a brincar de Forrest Gump. Olhar pra trás é uma mera formalidade totalmente dispensável por pessoas assim. Como se já houvesse olhos nas costas e não percebêssemos. Andei com o astral irregularmente mais leve ultimamente. Às vezes insisto em me convencer que apenas uma serelepe vai me arrancar desse poço de chatice que é minha vidinha besta. A filosofia do tudo bem parece transcender quaisquer vedas. Pra quê raspar a cabeça e buscar um vazio por meio da meditação, como a galerinha tibetana curte fazer? A mente é gravidade zero. O que não flutua e se espatifa por entre os neurônios é que nos maltrata. Se há coisas na cabeça que se espatifam, preocupações são procedem assim. Elas parecem chuva de granizo. E isso em gravidade zero, imagina. Tento me manter mais tranqüilo, de mãozinha dada com o descompromisso. Voltei a começar a me acostumar ao que sempre tive. Os hábitos que dispensam as carências, ao se desfazerem, deixam a carência outrora dispensada. E aí? Tempo sempre está fazendo hábitos. É uma fábrica incansável de rotinas. Como numa linguagem de programação: enquanto alguns preferem o loop, outros preferem o if, outros o goto. Mas tudo bem. Tudo está tão bem que ainda temos capacidade de reclamar, de nos indignarmos. Uma vaga referência a Voltaire e seu Cândido me veio à cabeça agora, mas deixa pra lá.

Sabe quando a qualidade do momento não importa? Quando não há porque se cobrar pelo ridículo que se proporciona a si mesmo? Eu quero que as coisas tomem rumos mais contraditórios, embora isso já tenha me feito estabacar feio por aí. Esse roteiro em que todo mundo improvisa urgia por improvisações minhas há tempos. Mas tudo bem, depois de seis meses de tortura e lembranças, começo a melhorar. Começo a me despreocupar, começo a tantofazer perante minha condição, começo a acasificar. Chega de sinais, eles estavam me deixando louco! Chega de banco: mastiguem a porra do meue extrato feito chiclete e finjam que não existo! Entremeem com alguns humores que é preu não levar a sério demais o tudo bem bem até demais de agora. Ah, e não tornem as honrarias maiores do que os honrados. Não quero fabricar alferes como do conto d'o Espelho, do Machado. Dêem lápis e papel a Sersup e deixem-o esquecido em seu universo engenhado por palavras de multilaterais sensações. Mas se ele estiver dormindo, saiam de fininho que é pra não deixá-lo acordado por mais tempo que o necessário. Não é fácil viver sem sonhar. Mas mais difícil ainda é o sonho não se acabar após o acordar: a teoria do absurdo (alguém falou em Camus?) que rege os sonhos só é interessante porque os sonhos são o universo do absurdo. Se tudo em excesso enjoa, os sonhos e o Fausto não me deixam mentir. O surrealismo sucede o realismo, mas só é estético porque idealiza anseios. No nosso mundinho tedioso, absurdo é se manter acordado. Mais absurdo ainda é colecionar absurdos. Aliás, cadê a jibóia d'o pequeno príncipe, hein? Se o absurdo é a porta para o inferno, sendo os outros o inferno, começo a me preocupar com a gerência do local, por assim dizer.

Hora de arranjar mais uma receita azul... =)

domingo, 2 de outubro de 2005

Crepúsculo

Não é estranho como os crepúsculos trazem uma súbita tristeza? É como se o purpurear, sendo expulso pelo anunciar da aurora pelo gracejar dos pássaros, fosse uma valiosa parte de nossa vida se esvaindo. Quase como uma aura expandente a olhos vistos tendo sua aquarela providenciada por gases que sequer vemos, mas que sabemos da importância de suas pinceladas celestiais a nossos olhos. Uma sublimação se fazendo presente a olhos fatigados por mais uma noite infantil e etílica. Se a noite é uma criança, que o amanhecer não seja puberdade. E, na sacada do prédio, lá estava Sersup, de colarzinho havaiano à testa, e seu boné. Não, não estava no baile do hawaii (que houvera no mesmo dia), mas curiosamente, a temática tropical do lugar em que estava lembrava bastante isso. Remetia também a certa passividade: me regozijava de não estar com a cabeça dormente de tanto ser incomodado por lembranças de pessoas que, na completude de suas lembranças, nos incompletam com sua porção de vida que nos roubam, sendo que o que não deu tempo de roubar, deu tempo de destruir. Erguer-se de escombros assim é custoso justamente por se odiar, na mesmíssima medida em que se ama, o autor do atentado. Se a língua é a melhor e a pior coisa do mundo, tenhamos certeza de que esta é um bode expiatório, sempre. Aqueles olhos, aqueles cabelos chanel, aquele busto, nada disso me deixa mentir depois dessa noite. Percebam o ambiente de surtada boemia que encontrei naquela noite.

O roxo cujo êxodo é testemunhado pelas nuvens e sua eterna melancolia de feições algodoeiras que quase soam como a alegorias de nossas esvoaçantes arbitrariedades, aos poucos me remetem a um exercício forçado de rever os dias que passam sem que eu por eles perpasse. Constato que, aos poucos, as pessoas adquirem uma solidez social/individual cujo processo para tal só aprendi a cultivar muito tardiamente. Jamais tarei tal solidez, isso é um fato. E as nuvens, tao cúmplices de minha passividade perante o êxodo do púrpura da madrugada, isso e tudo testemunham. O gradiente celestial que colore o céu como se dissolvesse aos poucos o que queríamos com o que podemos, visualmente, grosso modo, observando. É como se, a partir de algum momento, nossas vidas não passassem de uma simplória contagem regressiva, tendo nossa cara estrela-anã como ponto de partida referencial. Aquela desprovimento de outrora das noções numéricas de tempo eram mais salutares do que se imaginava. Há algo a se fazer, mas não há mais estrelas para esconder as pessoas que tanto nos bloqueiam.

Além do horizonte existe algo que não é somente o crepúsculo quem esconde. Queria ter olhos peregrinos o suficiente para chegar lá. Mas se sequer conseguimos alcançar a mera distância dum olhar ao outro, isso é pedir demais. Queria ser nuvem não para atingir esse lugar somente, mas para abranger, para pairar paulatinamente, independente do que haja debaixo de si. Para estar. Para não me limitar a momentos. Para brincar de onipresença. Talvez sejamos nuvens e não saibamos. O arroxear precede as manhãs roubando nossas estrelas. Não é fácil viver num mundo sem estrelas. Seja pelo brilho, pelo ponto cardeal, pela irrelevante distância que apresentam. O ruim é que vivemos nos ofuscando com o brilho de tantas. Chega a ser engraçado ao nos lembrarmos de nossa infância nesse quesito: pessoalmente, a hora de dormir era algo dotado de um mistério que eu só topava desvendar forçado pelas fadigas do corpo e da mente. Eu tinha medo de nunca conseguir acordar. Não é possível que apenas eu, quando guri, tenha tido tal carma ao dormir. E a trágica verdade é que nunca dormimos, depois que desaprendemos a ser simples. Mas queria saber quando acordamos, por mais estranho que possa parecer eu isso indagar.

Não soa irônico como os pores-do-sol são aguardados com muito mais alegria do que o nascer do sol? É como se tivéssemos um medo arraigado de começos. Isso eu tenho inegavelmente. Talvez os pores-do-sol representem uma revisita às estrelas das quais tivemos de nos despedir ao acordarmos. A sensação de se estar dentro de um ciclo é necessária para suportarmos uma sucessão atemporal e não nos enforcarmos no tédio de nosso infundado destino. Pores-do-sol propõem uma pausa. Com o impassivo breu nos descaminhando de algumas convenções, é, assim, como se o amanhecer consistisse na quebra desse universo paralelo cujo breu não representa trevas, representam uma pausa para reflexão, só isso. Talvez com isso certa melancolia se justifique. A noite dá um tempo abissal para nossa individualidade. Quase se lê pensamentos à noite. Os ruídos, a vida pulsante, várias dissipações descansam. Você não. Como se o cintilar das estrelas nos reensinasse uma noção de tempo. Se o dia é para as formigas, a noite é para quem, então?

Inicialmente, pensei em escolher uma foto que melhor retratasse a amálgama de cores do referido dia. Mas como não queria escolher uma mera aproximação e não fazer jus àquilo que vi, preferi esta foto aqui. Mais emblemática. E que não incute na tentativa de reproduzir o que olhos reticentes viram no dia...

Fonte da foto: blog Podiam ser mais; autoria de Noah Grey

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Quem nunca se passou por idiota atire a primeira pedra. No primeiro idiota que passar, é claro.



As pessoas só ouvem o que querem. Tão-somente falam o que não querem. E nesse roteiro de tamanho descompasso tragicômico permanecem. Mas não é sobre o batido assunto do lugar-comum e sua desertificante propensão à mesmice que venho cá falar. Tragamos à tona o Deus de Espinoza: é possível se superar tal contradição vastamente individual de que se trata o mundo? A indução ao erro e à repetição, constante redundância e providencial desperdício, são contornos duma integralidade imperceptível por ora? Se os erros naturalmente nos guiam aos acertos, vice-versa acontece mais freqüentemente do que se presume, pode-se concluir; estática é como acaso: caprichos vernaculares pouco condizentes com o real estado das coisas. Até ao usarmos a língua não conseguimos usá-la como queremos. A menos que você ache que as palavras sempre terão o mesmo contexto diacrônico. Talvez se possa inferir uma coisa por ora: deviam proibir religiões e outros credos do pensamento humano de profanar as línguas com seus termos que exigem minúcias com os quais as nuances etimológicas nem sempre estarão dispostas a conciliar. Uma segregação lingüística, por assim dizer. Isso só não funcionou com o latim culto e o vulgar porque ambos... ei, espere, talvez tenha funcionado. Ou não...



E aquelas pessoas que parecem ter nascido com uma forma de raiocínio radicalmente díspare? Aquelas que não entendem nada do que você fala por apreender, e externar o que apreende, de uma forma mais inusitada e catártica. Devíamos parar de perder tempo criando línguas de apelo universal, de sinais acessíveis ou artifícios mais maleáveis, para criar a linguagem da elipse. Um conceito, que pudesse ser aplicado a quaisquer formas de comunicação, que impedisse -- com isso reduzindo massivamente a quantidade de dizeres que falam por si só com muito menos unidades de significação do que acontece hoje em dia -- a possibilidade de se manifestar informações já implícitas, redundantes e desnecessárias. Não sei se uma atitude dessas ajudaria a silenciar os idiotas, ou se isso ajudaria a proliferar as asneiras que estes têm a dizer, mas seria uma atitude interessante de se pôr em prática. Como mencionado no parágrafo anterior, poderíamos também afastar os credos ideológicos e religiosos de porem as mãos em tal artifício. Se eles já conseguem nos enganar com artifícios tão primários quanto o repetitivo léxico gramatizado que utilizamos, imagine o que aconteceria com uma forma de comunicação onde o implícito reinasse. Deve ser por isso que as línguas mortas despertam interesse até hoje: os anagramas, os recursos de rima, devem haver algo do gênero que tenha já sido usado nesse sentido. Ou isso, ou a forma como estas tenham sido gramatizadas tenha sido arquitetado para, de propósito, impedir o acesso fácil dos idiotas aos dizeres restritos da época.



Se bem que negar a compreensão acessível de um discurso aos idiotas nao requer muito trabalho. Mas lacrá-lo em definitivo com suas próprias ignorâncias, sim. As ideologias que o digam, legitimizando ideários utópicos. Mas poderiam me indagar que a redundância é intrínseca a tudo e todos, necessária e às vezes paliativa a uma retidão ditatorial. Bom, difícil é encontrar uma medida certa. Mas, como medidas tentativas, poderíamos cogitar a cota para a idiotice. Pra quê perder tempo criando cotas para negros e pobres? A idiotice não escolhe raça ou credo -- se esquivando de elementos cutucadores de preconceitos --, e merece ser restrita! De que adianta se obter inteligência se há idiotas demais para se repassar apropriadamente as diretrizes necessárias ao bom dandamento das coisas ao redor do não tão idiota que precisa lidar com os idiotas convictos? De que adianta se vangloriar e se julgar pelo material se isso não garante sucessões e resignações pessoais recomendadas? Reparem: o idiota não consegue se resginar a sua infimidade, nunca! É por isso que digo que devemos segregar os idiotas, obrigando-os a usar tatuagens, roupas ou um outra forma de simbolismo, que nos ajudasse a identifiá-los mais facilmente ainda, evitando assim que tarefas complexas não caíssem em tais mãos erradas.



A vida é egocêntrica. E uso tal argumento para atenuar o absurdo do que proponho. Operação abafa em cima dos idiotas já! Poderiam também indagar que a idiotice às vezes é momentânea nos não-tão-idiotas assim. Por exemplo, atitudes ridículas que afloram devido a um raciocínio acidental. E nesses casos, o que fazemos, ó Sersup que tenta não ser leviano com tal post inútil? Eu respondo: emitamos um alerta social! Façamos o acudido pelo bacilo da idiotice momentânea utilizar em seu corpo algum sinalizador de sua pulsante ignorância. Só que, ao contrário dos idiotas mesmo, façamos o não-tão-idiota acudido por esse perigoso mal utilizar o alerta social por um período de tempo determinado. Se a pessoa não quiser passar por constrangimentos ao se utilizar de suas vestes, poderia optar por penas opcionais, como pintar o portão de casa com algum sinal indicativo do apavorante estorvo mental que lhe acomete, ou mesmo restrições dos direitos políticos do sujeito. Talvez iso viesse a colaborar em cheio com nossa combalida Câmara dos Deputados. E se o caça às bruxas proposto por tais medidas viesse a gerar mais um preconceito desnecessário? Preconceito surge por meio de diferenças, e os idiotas e não-tão-idiotas não são diferentes. São iguais de oportunidades e oportunismos diferentes. Esse negócio de politicamente correto é papo de defensores de direitos humanos, que insistem em ignorar o egocentrismo da vida, que mencionei há pouco.



Com esse post, percebam a quantas meu humor andou esse fim-de-semana...

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

Raão e emoção: tântricos demais

Não existe razão nas coisas feitas pelo coração (?)*


Orgulho e feridas narcísicas são coisas antitéticas? A responsabilidade afetiva existe ou é mera transferência psíquica? Arquiteta-se uma relação ou o outro? Sublima-se demais o foie gras cultural de sempre, sempre direciona(n)do a uma diretriz comportamental favorável a um dado modelo social, por sua vez favorável a outras diretrizes mais mesquinhas, como as de âmbito pecuniário. Levamos sempre o triunfo de levarmos algo de alguém, por mais que desejemos acreditar que tudo isso seja deletério. É um mérito porque nos aprimora e preenche lacunas que conferem singularidades. Muitos buscam conforto social evitando expor suas singularidades, conferindo a si mesmos rédeas por demais detratoras. Se estandariza, deprecia-se o livre-arbítrio.

Relações sempre cutucam em nossos caprichos de personalidade. Não é para menos. Algo assim, adsorvente. Idealizações que condenam as pessoas a temer ser felizes, ou mesmo que as façam questionar tal conceito de felicidade por causa de oscilações das fruições tanto individuais quanto mútuas. A culpa pelo método de obtenção da felicidade, a inveja pelo que conduz o outro (ou como um precedente sinuoso nisso influi) à felicidade, ou alguma forma de obtenção de prazer sádico de se oferecer uma felicidade para initar no outro um corroedor desmerecimento.

Odiar-se na mesma medida em que se ama. Uma das sádicas injustiças da índole dos homens. Mentalidades e Zeitgeists que põem a máscara de ódio a amores que (talvez?) apenas mudaram de espécie. Quanto à afeição, não há medidas compensatórias, mas sim conversoras. Tanto é que perdões verdadeiros e íntegros não vêm de compensações. Talvez o perdão em si se trate de uma conversão.


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* Usar citação de Renato Russo como título para um post? Nossa, que decadência arrebatadora!... Bom, no mais, pensei em escrever mais, mas, face à acurácia ridícula dos parágrafos desproporcionais acima escritos, é melhor deixar pra lá. Fiquem com o que saiu com desejável fluência desses dedos...

sexta-feira, 16 de setembro de 2005

De fidelitas homini

[Ainda vou apanhar por escrever coisas assim...]

A índole dos homens para com as mulheres impressiona. Talvez tanto quanto vice-versa, diria. Enquanto há algo no âmago do ser masculino, que justifica com naturalidade a poligamia, há algo no âmago do ser feminino que justifica o companheirismo -- e a interpretação de (e quanto à) reciprocidade (d)nisso --, sob os mais degradantes e instigantes prismas. Mas não me aterei às índoles balzaquianas; me aterei às dos cuecas. Cá cabendo um adendo desnecessário: a inspiração para o post veio das cada vez mais cabeludas e intrigantes histórias de amigos -- e malas do ambiente de trabalho -- sobre a prática masculina de se "aliviar" a pressão requerida pela união matrimonial, em que o declínio de estética e de atração da cônjuge injetam aos poucos amostras dos inúmeros paradoxos do amor.

A "traição" é vista como mero extravasar hormonal pelos homens, aos quais a cruel imposição social do compromisso jamais permitirá que tal conciliação seja aberta. "Traição", aliás, é um dos substantivos que manifestam o repúdio social pela queda de seu arquétipo há muito consolidado. Arquétipos mudam, mas nossa tendência de nos confortarmos com certas garantias que os arquétipos nos proporcionam, nos inclina a repudiar mudança. O que é natural nos mais variados âmbitos. Questão é que a carência humana não se satisfaz com uma pessoa só: vivemos pouco, nos arrependemos muito, e acabamos nos perdendo em meio à afeição e à fruição dissipada. O que se conclui disso? Meras aventuras não dissipam verdadeiro compromisso recíproco. As angústias são necessárias.

Nesse ínterim, seria a fraqueza carnal, pendendo para a quebra do arquétipo social da fidelidade, uma mera quebra de um recalque sustentado pelo arquétipo? Seria justificado o silêncio que muitos homens adotam quando sujeitos ao adultério? Se silenciar perante o rompimento do recalque é o primeiro passo para a naturalização de tal rompimento? Tudo bem que nunca vi, por exemplo, preconceitos serem rompidos por meio de silêncios, mas que estes tornam-se mártires, mais cedo ou mais tarde, isso não se nega. Mas a quebra do recalque requereria a quebra de outro recalque, o impulsionado pela insustentável carência humana, aquela que independe da quantidade de parceiros, e que tem exclusivamente a ver com a constante necessidade de saciação de angústias. Lacaniano é dizer isso, mas inevitável, talvez. O cessar de angústias anularia por completo qualquer relação afeitva verdadeira. Ou seja, a mais absurda, hipotética e completa maturidade perante os motivos que levam quaisquer dos cônjuges às vias de fato com outra pessoa anularia a relação. Não há muito a se fazer, realmente.


Nota mental: apesar de não ter havido muitas oportunidades para o exercício da fidelidade, jamais traí. E não pretende começar! Tive nesse momento a sensação de que valia a pena isso salientar...
Nota mental 2: seria injusto tachar este post de machista. Consiste o machismo em se exacerbar megalomaniacamente a índole masculina? Ou em se degradar mais megalomaniacamente ainda a índole feminina? As pessoas precisam adotar mais ferrenhamente o anti-humanismo...