quarta-feira, 20 de outubro de 2004

_ Diz alguma coisa, Sersup!
_ Pra quê?
_ O que você fez no dia xis?
_ As pessoas perguntam demais, não é mesmo?
_ Responda, porra!
_ Ei, ei, devagar aí. O que mais as pessoas buscam nas outras é atenção. Dou isso de sobra. Eu me acostumei apenas a buscar a desatenção de outrem. Sempre fui audiência para a solidão. Isso não se muda da noite para o dia.
_ Tenta em vão buscar minha desatenção. Quero agora que busque o antônimo disso!
_ Pra quê? Por educação?
_ Por consideração!
_ Considerando-se o quê?
_ Que... que... que...
_ Percebe? Sou desinteressante. Não consigo jorrar de uma vez só meu eu pra você. Mas posso fazê-lo aos poucos. Tudo a seu tempo.
_ Pra quê esperar?
_ Pra quê não esperar?
_ Nem tente me enrolar invertendo minha pergunta! Você tem algo que insiste em guardar?
_ Pergunta capciosa, não?
_ Desista. Não encontrarás desatenção em mim!
_ Não é somente isso que procuro nas pessoas, sabia?
_ Eu sei! Seu silêncio incomoda...
_ Muita coisa me incomoda. Tenho somente o silêncio para abrigá-las.
_ Não tens somente isso. E sabe disso!
_ Não tenho certeza disso...
_ Você tem, e está dizendo isso pra tentar me despistar. Vamos, o que há contigo?
_ Mais uma pergunta capciosa... tente descobrir isso com meus escritos. Não sou tão hábil pra falar quanto pra te enrolar escrevendo essas linhas.
_ Você vai mesmo se deter quanto a isso, não é mesmo?
_ Não há o que fazer.
_ Está recuando. Eu não sei porque, mas você sabe.
_ Recuando de quê?
_ Eu perguntei primeiro!
_ Estou tri...
_ Resposta mais objetiva, por favor.
_ Estou... estou... eu... contava com a possibilidade desde o início, mas... porquê comigo?
_ Como sempre, vago. Imagino seu enrubescer nesse momento...
_ Cara, isso soa tão egoísta. Porque tanta coisa suplicia apenas a mim? Quero evitar entrar no mérito do merecer, mas... vou continuar evitando!
_ ...
_ ...
_ Somente (a)ten(s)ção paira aqui.
_ Seria indiferente eu dizer mais.
_ Nesse caso, dizer mais não estragará nada!
_ Eu evito tanta coisa, ajo da maneira mais impecável possível, pra descobrir no final...
_ Descobrir o quê?
_ Descobrir... que, às vezes, pareço não perder nada me isolando hermeticamente como de praxe...
_ Queria ter algo a dizer, e não é seu jeito vago de falar que está me impedindo.
_ Isso é ridículo. Tipo um sucesso frustrado. Uma frustração de sucesso.
_ É melhor parar com as antíteses.* Só está aumentando minha confusão.
_ Dá a impressão de que sou propenso a decepções em certos quesitos. Algumas sensações de propensões até que já deixei pra trás. Mas outras...
_ Incrível! Chegamos até aqui pra você não ter falado uma vírgula que fosse do que está te acometendo!
_ Tem algo me acometendo?
_ Responda-me você.
_ Não, não tem.
_ A negação normalmente é a primeira fase do processo de se extirpar as contradições.
_ Extirpar as coisas... não sei se me faltam ou sobram contradições.
_ Se você não sabe, imagina eu.
_ Eu sou um projeto de gente. Meu desapego às coisas cresce perigosamente e pareço não fazer nada quanto a isso.
_ Você deve ter motivos para isso, mas nada que aja individualmente, talvez.
_ Estou cansado das pessoas. Elas parecem fazer questão de me enojar às vezes.
_ Te enoja ser um ser social?
_ Me enoja ser um subproduto dos boçais a meu redor.
_ É, isso me enoja também.
_ Vontade. Me falta muito isso. Mas não é só isso: me falta coragem também. Por mais que me esprema quanto a esta última, não é suficiente. Preciso de mais coragem pra ser eu mesmo. Mais coragem pra admitir a ignorância e a humanidade do que penso.
_ Não se preocupe. Isso falta a todos. Você pelo menos percebe isso em si.
_ Queria não perceber. Santa ignorância!...
_ Tente ao menos não ignorar seu modus essendi.
_ Tentar. Se minhas decisões fossem apostas, precisaria de mais fichas urgentemente!
_ Ainda não soltaste uma linha que fosse do que está acontecendo contigoooooo...
_ Tudo a seu tempo...
_ Pra quê esperar?
_ Pra quê não esperar?
_ Acha mesmo que cairei em círculos com teu papo-furado novamente?
_ Tô de saco cheio hoje, sabe? Dor de cabeça, aula em jejum, irritabilidade... me deixa, vai!
_ Mesmo que você não estivesse assim...
_ Quero que me es...
_ Quase, quase... desembucha!
_ Talvez um outro dia. Preciso de um tempo.
_ De quanto tempo mais?
_ Não é o tipo de tempo que costumamos medir com relógios, sabia?
_ Sersup, Sersup, que faço contigo, hein?
_ Mais fácil desfazer...
_ ...
_ Fico a me questionar, quando não a me limitar a observar, sobre como as coisas acontecem. Como elas deixam de acontecer. Como fico inerte a elas. Como tudo muda quando tento agir frente a uma suposta previsibilidade. Nem sempre são as pessoas quem me decepcionam, mas o que as traz ou deixa de trazê-las até mim. Quero ser mais simples e não consigo. Simples dificuldade.
_ Anda melancólico esses dias, não?
_ Eu quero passar por cima de tudo. Não no sentido de tirar vantagem, mas de me manter sereno frente a tantas fatores de desorientação. Consigo quanto a algumas coisas. Mas e se estiver errado? E se somente acreditar ter passado por cima? E se, mesmo tendo passado por cima, sentir ainda ter algo pendente e não poder voltar atrás?
_ Só saberá passando por tudo isso. Mas certezas antecipadas, não.
_ Não quero cometer o mesmo erro. Eu sei como pesa errar perante o mundo. Errar perante uma pessoa dói muito mais. Se omitir, se deter, se desvanecer perante todo um viver que poderia ter sido mas não foi.
_ Agora estamos chegando a algum lugar...
_ Porque me fazes remexer nessas coisas?
_ Ora, porque...
_ Bom, até a próxima. Tenho que ir agora.
_ Mas...


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* Se não consigo nem parar com as reticências, que o diga parar com figuras de linguagem (vide post do mês passado: Parlent dans les doigts). Esqueça a razão de alguns dos posts do BR: a falta de razão talvez te diga mais do que uma carência de coerência. Enfim, é uma daquelas épocas em que posto desbragadamente por razões razoáveis apenas a mim. Sensação de que escrever é preciso. Mas também não exageremos. Como fiz dessa vez. Hora de me conter mais...

terça-feira, 19 de outubro de 2004

Drops

_ Aí eu digo que irei lá mas irei pra ali.
_ Mas isso não é uma mentira branca, tá mais pra marrom!
_ É, não preciso fazer isso...

_ Olha que menina prestativa: não me fez me deslocar à toa até lá pra buscá-la nesse calor...
_ Putz, nem me lembrei.
_ Agora fiquei mal-acostumado...

_ Mas eu não quero ser o Ranger branco!*
_ Lá vamos nós de novo...
_ O Ranger branco era o Tommy! Um mano! Tu é mina! Percebe a discrepância?
_ Pra quê relevar isso...?


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* Vide post do final do mês passado.
Decifra-me ou te devoro Sem decifrar-me já me devoras sem perceber


Me dilaceram por dentro e nunca percebem! Violam meu estado de espírito e nunca percebem!! Roubam minha liberdade de expressão no BR e, ainda bem, nunca percebem!!! Cerro os olhos, uso a coberta como trincheira, mas os ataques começaram muito antes d'eu tentar qualquer postura retaliativa. A manhã te expulsando da cama. O mundo descobriu seu esconderijo. A decepção deve ser camuflada a qualquer custo. A qualquer custo se quer se parecer invisível ao mundo, mas inventaram o Gps pra não te deixarem um minuto que seja em paz. E o irônico é que sequer precisam do aparelho pra te afrontarem: é uma onipresença coletiva da qual somos vítimas. De baixas constantes. Só me fodo em alguns quesitos, no sentido indecente da palavra mesmo.

Sentirei falta dos tempos em que poderia vir até o BR, vomitar um monte de dores-de-cotovelo e ter a certeza de que ninguém ia ler mesmo. Cativar alguns leitores pingados tem sempre seu preço. Mas estou disposto a pagar certas coisas. Estou indisposto é tomar no esfíncter retal* por coisas em que não exerço influência alguma (ou assim penso). Causa e efeito cujo efeito só atinge a você. Mas já devia estar acostumado a isso, sempre repito aos meus botões. Poucas coisas me acompanham com fidelidade canina, sem nunca me decepcionar. Tenho dedos suficiente para enumerá-las, mas insuficientes pra contar as pedradas dos outros. Em suma, é como disse numa outra vez: sempre pago o preço por ser assim. Sempre!

Os apelos da minha imagem sempre me condenam. E, claro, sobra pra mim ser condenado pelas imagens alheias. Não estou em deserto pra ser enganado por miragens, mas a aridez das desapercebidas ingenuidades circunscritas a nós nos atolam em esperanças** que nunca existiram. E isso, para um nicho considerado extinto da sociedade, nicho este à qual me encontro incluso, dói. Não bastasse a dor da verdade, este nicho tem também de resistir às dores da imagem. São cenas, enfim, que quero apenas esquecer, mas que sei estar me enganando ao desejar isso. Antes de escolher com qual pé acordar, lá estavam elas, atuando como ingratos instrumentos de sadismo em meu patético imaginário. É como se... bom, agora me dêem licença que tenho mais o que fazer. Não combina comigo ficar me sentindo um nada e ficar cutucando isso como a um corpo na rua.


Talvez num outro post continue a escrever sobre isso. Ei, não precisa fazer essa cara de muxoxo do outro lado do monitor, eu disse talvez! :P


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* Aprendi essa com um amigo que faz Medicina...
** A medida de curiosidade, vide post sobre o esperar, do mês passado
Dinheiro é algo repulsivo. Com o meu, sempre tendo a esquecê-lo num canto, numa economia indireta, e a gastar apenas com o que lembro ainda ter. Porque não tenho com o quê ou com quem gastar. Nada se apega a mim. Não me apego a muita coisa. Sou lisíssimo. Minha discrição inata me impede de me apegar à muitas coisas. Sou meio distraído: tem vezes em que empresto alguma quantia e só me lembro de que o fiz quando recebo a quantia de volta. Até que me orgulho um bocado dessa minha indiferença quanto às nefastas cédulas coloridas. Modismos e futilidades solem passar despercebidos por mim. Gosto mesmo é de roupa velha, tênis surrado, objetos velhos, enfim, coisas às quais o tempo já tenha se encarregado de dar certa personalidade, certo simbolismo, certo status de ícone. Se ligasse pro cascalho, com certeza não estaria fazendo Letras. Mas com muita gente ocorre a ilusão de considerar o dinheiro como profilaxia para quaisquer percalços futuros. Há muita coisa que não encontrarei em vitrines para comprar. Há coisas pelas quais, indiretamente, posso obter essas primeiras coisas que não encontrarei em vitrines. Mas prefiro tentar encontrar as coisas de valor a meu redor. Quantificar agrados não é ético.

Dinheiro produz bolhas. Produz o evidenciar de várias insuficiências que levam aos atos mais mesquinhos. Ter muito dinheiro tem seu preço. E não me refiro a impostos. É um preço a se pagar intrinsecamente por quem o possui. Se quantificar agrados não é ético, isso não conota admiração por avaros da minha parte. Conota encarar um pedaço de papel pelo que ele é: um pedaço de papel. O caldeirão do que se está no papel e o que não está nos faz abstrair conceitos e a conceituar abstrações. Aonde vai chegar essa profusão ditatorial de letras impressas? Já não basta sermos números para empresas que nos tratam feito idiotas? Já não basta sermos questionados por perguntas incoerentes escritas por mãos presunçosas por trás duma folha? É preciso se bastar, a meu ver. Se considerar suficiente perante os egoísmos que insistem em trazer insuficiências. E é por isso que detesto supermercados e aquelas prateleiras meticulosamente dispostas de modo a te fazer gastar mais com coisas que ninguém precisa. Me preocupo demais com o essencial a ponto de ficar agoniado quando ao redor daquele monte de alimentos dispensáveis que brincam com sua auto-estima, se utilizando daquelas propagandas coloridas cheias de ideologias vazias.

Percebe-se que dinheiro bloqueia as pessoas em certos aspectos. Quem nunca comprou alguma coisa levado por algum impulso acéfalo proveniente de uma vontade inexplicável de obter tal produto desnecessário? Não, não sou um cofrinho ambulante. Mas me bate uma culpa ver que aquelas notas em minha carteira são responsáveis por toda uma cobiça viciosa da parte dos outros. Números parecem ter como função latente nos deixar na lama. Nos demonstrar como menos ou mais. Como se se fosse parte de uma fria equação do segundo grau: um mero número incógnito, um mero subproduto de uma grande abstração de resquícios feudais. Algo que parece preceder vários outros preconceitos: antes dos étnicos, dos etários, dos de opção sexual, dos ideológicos... todos estes preconceitos estão contidos nas pessoas, mas o preconceito monetário está impresso em papel, assim como o valor com que as pessoas nele impregnam. Não é à toa que, entre outras razões, a última coisa do mundo com que me preocupo no momento é em relação a dinheiro. Hum, ia concluir esse post com uma frase de efeito, mas como esqueci do que se tratava a frase, fico por aqui mesmo.

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Antíteses

Tristes felicidades conseqüentes. Belas feias atitudes. Pequenas grandes coisas.

Rápidas lentas transformações. Boas más notícias. Indeferimentos deferidas na moita.

Dependências independentes do alheio. Ignóbil pensar sentido. Tudo nada...


Antíteses se limitam a ser um quesito estético na escrita? Queria que somente isso fosse, às vezes. Exclamações ora interrogadas. Escritos deléveis ao que já foi escrito. Gostar desgostando, perguntar respondendo, consertar estragando, resistir cedendo, desentendimentos entendidos.

quarta-feira, 13 de outubro de 2004

Estatísticas...

_ 100% das principais leitoras do BR são leoninas.
_ 75% de meus CDs são piratas.
_ 70% do tempo que dispendio usando computador, atualmente, é sem mouse. É nisso que dá usar uma banheira velha pra navegar na web: ter de se virar com o teclado pra alcançar os links, ter que constatar que a placa de som parou de funcionar há menos de duas semanas, e ter de se contentar com o buffer insuficiente para os emuladores. Só não dou tchibum na banheira porque nenhuma das outras banheiras do escritório têm placa de vídeo funcionando.
_ 55% de meus pertences remetem à nostalgias.
_ 50%, pelo menos, do que digo é redundante, desnecessário e totalmente inútil, mas assim sou forçado a proceder no cotidiano. As pessoas subestimam o poder da auto-sugestão e dos silêncios.
_ 40% das pessoas daqui de casa são aquarianas. Inversamente proporcional a isso, pelo menos 60% do que elas falam se inicia com uma pergunta. Cara, isso me tira do sério um tanto...
_ 39,2% dos posts que digito requerem cuidados especiais: volta e meia tem algum olho gordo aqui em casa tentando ler clandestinamente os posts do BR. Preciso estar sempre alerta.
_ 1/3 de meus dias passo dormindo, como todo mundo. Em termos, pois pelo menos 1/3 desse 1/3 fico inquieto e pensando em coisas necessárias para proporcionar cansaço mental o suficiente para eu desistir de ficar acordado e finalmente dormir. Dos 2/3 restantes disso, 1/4 é eventualmente desperdiçado com a tentativa de ignorar os ruídos externos.
_ 22,5% de meu tempo dedico a fazer algo, o que quer que seja, totalmente sozinho. Nem que seja pra não fazer nada. Mas às vezes prefiro fazer nada de forma egoísta, e me porto sozinho nesses momentos. É que penso demais em 77,5% do restante do tempo. Os 22,5% são necessários pra evitar perguntas alheias, pra auto-esclarecimentos ou tentativas de obtê-los, e pra evitar posts desmedidos no BR.
_ 21,25% de meu tempo dedico a tentar não pensar em nada e ninguém. Apenas em mim. Esvaziar essa mente entulhada que é a minha. Nem sempre dá certo. Mas é preciso tentar. As coisas me preocupam demais. Mas a tendência é isso diminuir.
_ 17,5% apenas dos textos que digitei nas últimas duas semanas viraram post no BR.
_ 12,5% das pessoas a meu redor são toleráveis. As outras 87,5% perdem tempo demais com seus umbiguismos, superficialidades e panelinhas.
_ 10% pra cima do que digito é apagado sem dó, sem sequer ser postado no BR.
_ 23,3% desses números são fictícios.
Coisas na língua portuguesa que ouço e que sempre fazem renovar minha surpresa por essa linguazinha de tantas facetas


"Uma conversa longa, curta e grossa." (ouvi hoje do Lorão)
"A Holanda é o primeiro país a oficializar o casamento de homossexuais do mesmo sexo" (ouvi na Tv)
"Vou lavar as mães" (ouvi bastante essa aqui em casa)
"Navio brasileiro entrava navio inglês"
"Vou primeiro que você" (dá pra ser mais primeiro do que o primeiro supracitado? Eis uma das frases batidas da língua portuguesa que mais me encucam)
"É brincanagem comigo!"
"É um sujeito ideiota" (leitores mais antigos do BR perceberão que já postei essa antes)
"Do que eu mais gosto de comer? Sou um ser tudívoro: traço tudo!" (onívoro foi devidamente aportuguesada através do neologismo dessa frase)
"Mas tem uma coisa que apenasmente eu tenho: é chalme" (também ouvi na tv)

terça-feira, 12 de outubro de 2004

BR também é cultura (inútil?)


O grupo O Cavaleiro Azul -- Der Blaue Reiter, nome vindo de uma pintura de Kandinsky -- sucede A Ponte (Die Brücke) em 1911, levando consigo alguns de seus integrantes, como Karl Schmidt-Rottluff. Enquanto que A Ponte é um núcleo de jovens que tem a apresentação de seus trabalhos em torno de uma idéia, O Cavaleiro Azul é mais intelectual, composto por alemães, pelo suíço Paul Klee, o austríaco Alfred Kubin e o russo Wassily Kandinsky, entre outros. Escreve Kandinsky na revista alemã Kunstblatt, em 1930: "O nome, nós o achamos quando estávamos sentados numa mesa de um café de Sindelsdorf; ambos amávamos o azul, Marc os cavalos e eu os cavaleiros. Assim o nome veio por si."

Entre os participantes do Blaue Reiter temos Kubin, Kandinsky e Klee. O grupo caracterizou-se pelo internacionalismo, não se preocupando em fundar um programa artístico específico. O denominador comum foi a expressão subjetiva. Kandinsky comenta, na primeira exposição do grupo: "Nesta pequena exibição, nós não tentamos propagar um preciso e particular estilo pictórico; nós, melhor do que isso, tentamos mostrar, pela variedade de formas representadas, a multiplicidade de caminhos nos quais os artistas manifestam seu desejo interior".

Apesar da curta duração - dissolveu-se na Primeira Guerra Mundial - o grupo, que se concentrava bastante na condição espiritual do homem, foi bastante influente. Franz Marc concentrava-se principalmente na representação de animais, seguindo as distorções expressionistas. É de se destacar seus estudos de cavalos vermelhos e azuis. O artista morreu na Primeira Guerra Mundial. O russo Kandinsky, além de suas obras artísticas, como as pinturas, sem preocupações com a objetividade e sim com a expressividade e espontaneidade, é considerado um dos mais importantes artistas do século. Seus escritos sobre arte também exerceram grande influência sobre os artistas contemporâneos.


A pintura ao lado é a obra de Kandinsky cujo nome o blogueiro tomou, da forma mais propositadamente acidental possível, para batizar este blog falido.

sábado, 9 de outubro de 2004

Tenho um problema: muito texto pra postar, pouca coisa relevante em meio a esse texto. Enquanto não me decido pelo destino dos outros textos, poderia comentar sobre meu estranho magnetismo. Tanto poderia como vou.


Quem é tímido sabe: as pessoas parecem ter um sexto sentido pra te deixar sem-graça. Qualquer coisa me deixava assim há uns tempos atrás: ter de falar a sós com alguém, ter de ouvir especulações sobre meus affairs, ter de conter o enrubescer perto daquela menina que senta a seu lado. Não fico assim há um bom tempo, e como previa, não estou sentindo tanta falta assim. Passei a coroa de acanhado para outro (é a sensação que tenho, pois o que me pegava antes agora pega outro). Uma hora a gente cansa desse acanhamento involuntário, começa a deixar coisas pequenas passar despercebidas, fazendo por conseguinte com que essas mesmas coisas não surtam mais efeitos tão intimidadores como antes. Atingi esse estado, mas volta e meia me vejo rendido por alguma coisa. Uma vez, saindo com irmão, Dilsinho e Cind no shopping, enquanto subia a escada rolante, recebi uma cantada duma moça loira aparentando ter seus trinta pra cima. Flerte seguido dum sorriso bobo e frase de efeito que não me recordo agora. Claro que fiquei estático: já acostumei às ardilosas táticas usada pelas meninas de minha idade, como perguntas-chave ou frases provocantes, mas quando esse arsenal é usado por uma mulher mais velha, aí não há quem fique indiferente. Eu pelo menos não fico.

Atentem para o detalhe de que, pra variar, a escada não estava funcionando naquele dia. Agora faz mais sentido o que aconteceu, não é mesmo? Eu estava subindo, ela descendo. Quando isso acontece com alguém de minha idade, camuflo minha surpresa facilmente com alguma frase desconexa, com alguma coisa que reparei nela, ou com alguma lorota hiperbólica. Eu sou assim, odeio extremos: nem nova nem velha demais. Prefiro igualdade etária. Se bem que a Baixinha, apesar de ter a mesma idade que eu, usava manequim de garotas de doze anos, sem exageros. Mas era uma exceção visual, como eu e minhas roupas surradas. Mas chega de falar dela. Hoje à tarde, irmão estava comentando sobre a menina da semana passada: aquela do olhar que funcionava como a buraco negro de tão repelente e atraente ao mesmo tempo. A do cabelo crespo. Citei-a na DD de domingo, em Paranóia do gostar. Ele está tentando arquitetar algo entre eu e ela, mas é só moagem dele. Sempre é. Me preocuparia, eu acho, se não fosse. Querer algo com alguém que seu irmão conhece? Percebo agora que minha paranóia nem sempre se limita ao tal do gostar. Mas paranóia é uma palavra forte demais, que estou usando sem me preocupar com o devido embasamento psicológico. Dá vontade de encontrar mais embasamento nas coisas, mas muitas vezes a questão é que sequer sabemos no que nos basear pra obter tal embasamento. Base móvel. Básico. Basicamente relativo.


Pronto. E com esse post mais descontraído, volto a postar no BR. Tudo está se saindo bem, até melhor que o previsto. Provavelmente irei pra lá no fim-de-tarde; ainda não a vi. Será que eu deixo registrado aqui que me decepcionei com... não, deixa pra lá! Nada de perder tempo com indiferenças.


Nota mental: escrever posts sobre coisas que considero proibitivas em qualquer pessoa. Mas pra quê eu escreveria um post sobre isso? Sei lá: se rolar uma idéia legal, será devidamente impressa por cá. Não se preocupem, tomarei cuidado pra evitar os argumentos batidos. Mas não esperem milagres...

domingo, 3 de outubro de 2004

Já que estou há um tempo sem postar, farei um flashback rápido dos últimos dias. Na Sexta o dia foi Não, deixa pra lá: dessa vez Sersup poupará os leitores daqueles momentos-diarinho. Eu vou é colocar duas DDs. A menos que prefiram ler sobre minha emocionante manhã de mais de uma hora na fila pra votar*. Foi o que pensei... :P


Divagações diversas

Paranóia do gostar

Olhando pro teto quadriculado de rosa e amarelo do restaurante, começo como de praxe a pensar demais enquanto espero o rodízio trazer uma pizza de bacon. A menina de cabelo cacheado já fora embora, que pena. Mas que olhar intrigante o dela: parecia hipnose! Umas pupilas assustadoramente dilatadas que me fascinaram como raramente alguém faz, usando apenas os olhos. A súbita ausência dela me remete àquelas teorias pessoais que todos fazemos quanto a nossos tendenciosos destinos mensurados por temperamentos. E, do nada, supus cair uma ficha: é como se, desde aqueles fatídicos anos, depois daquele primeiro olhar, nada mais tivesse sido como antes. Tivesse? O uso do subjuntivo soa como eufemismo aqui. Não olhei para mais ninguém da mesma maneira. O suor frio daquelas manhãs começou a se fazer presente em noites como essa, em que me encontrava na presença da menina do olhar que acabo de citar. A cabeça se curva inquietamente às vezes. As mãos precisam ser contidas. As perguntas, oriundas de razãos diversas, respondidas. Os gestos, camuflados. (É)ra como se fazer uma escultura: qualquer cravada na pedra bruta parece indicar uma falha sua. A tensão perante o mármore. Perante o que está perante o mármore. Perante o que está nem perante o mármore, nem perante o que está perante o mármore. Diante de muitas coisas que conduzem a poucas e vice-versa. Metáforas funcionam como a agulhas trabalhando na colcha de retalhos. Cores, imagens, formas entrelaçadas, pezinhos numa ponta, braços no outro... peraí, o que estão fazendo com a minha colcha?



Sem respostas, mas com palpites

Assim sigo os dias, aparentemente sem propósito. Comentarei sobre coincidências, que pensamos assim ser, porque de coincidências só mesmo nossa teimosia de coincidir as coisas. Ontem fiquei o dia inteiro fora de casa; só voltei às quatro da tarde e novamente saí às nove. No período da tarde, um antigo amigo do pai aparece de surpresa lá em casa. Ele ficou de aparecer lá em casa há anos. Sempre adiava por motivos de pouca importância. Até que aconteceu**. Bom, ontem foi esse dia. A razão da visita era o filho dele, que acabara de ser empossado juiz. O irmão me contou, intrigado, que ele e o pai possuíam uma amizade intrigantemente semelhante a que ele tecia com Dilsinho. Black and white. 'nuff said. O cara até tinha um apelido especial pra se referir ao pai. Algo de se chamar a atenção, porque ninguém, mas ninguém mesmo, deixava de chamar o velho por seu nome de guerra. Definitivamente ninguém. Nem minha mãe o fazia. Só minha avó (mãe é mãe, certo?) e ele, como acabo de descobrir. Dilsinho se mudará da cidade no final do ano. Não vai ser fácil pro irmão: os dois são inseparáveis. Tentaram até distanciar esses dois no colégio, trocando os dois de sala, mas nem isso adiantou. Chega a ser engraçado como a aproximação entre o irmão e Dilsinho se manifesta em enlaces quase femininos de amizade. Ciuminhos, códigos mútos que só eles entendem, recíproco desconforto das mães quanto à convivência de ambos, roupas combinadas. E eu pensando que só a irmã fazia esse último com as amigas. Ultimamente ando até quebrando o galho do irmão, me metendo em costumazes furadas só para ele poder passar mais tempo com o estimado amigo antes que este se distancie. Como ontem.



Quanto a mim, até que encontro certas semelhanças entre eu e o carinha que considero melhor amigo. Mas nada tão próximo quanto observo no irmão. Sou distante por natureza. F.H. mais ainda. Eu e F.H. temos segredos reciprocamente confiados, de periculosidade tal que nem pelo BR passam, para se ter uma idéia. Quanta coisa, que só mesmo ele pra entender, quando conto? Nunca ouço coisas conclusivas, mas sempre saio com a certeza de estar sem respostas, mas com palpites. Ou seja, eu complico demais, mas me vejo sempre com alguma simplificação nas mãos. O irmão e Dilsinho, possivelmente, se separarão de forma que a aproximação de antes nunca mais seja a mesma. O que percebo, há relativamente pouco tempo, ter acontecido comigo também. Se tem algo que me instaura certo temor é isso: as pessoas vão e vêm. Não há garantias de que possamos contar com suas presenças como gostaríamos. Lembranças constantemente rotas por conseqüências diversas. Condutores de descaminhos. E o estranho é que a sensação de desorientação que porventura descrevo não vem exclusivamente disso. Quer dizer, nem vinha disso. Vinha desencadeado por outras coisas, evidenciando, trazendo isso junto. E isso é um dos fardos de se ser morgado: tudo vem antes pra você! Enquanto você ainda tenta digerir algumas coisas que já aconteceram a ti (ou que ainda não aconteceram, vá saber), você vê o mesmo acontecendo aos tapados que moram contigo e não pode fazer nada. Embora tenha a sensação de inversão de papéis nesse quesito, mas isso é assunto para um outro post que provavelmente jamais perderei tempo digitando.


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* Ao chegar em casa após o moroso fato, a mãe traz até mim alguns panfletos sugerindo alguns lugares para as férias. Ela ainda não digeriu o fato de eu ter que ficar por cá em Janeiro. Ela pediu pra eu escolher um lugar entre as cinco opções do panfleto, optei Porto Seguro. Não pelas praias, mas pela importância histórica do local. Porque, numa boa, viajar dois mil quilômetros pra se ver numa terra cercado de baiano não tá me animando muito....

** Não o fato de ele vir pra cá; outra coisa aconteceu; quem é atento aos posts do Sersup percebeu o que quis dizer.