terça-feira, 28 de setembro de 2004

Bomba-relógio

Maniqueísmo contrasta fortemente com minha espontânea sinceridade
Não consigo perceber algo tão grandioso assim que tenha a perder
Chega de atrasos oriundos de medos. Encarar de frente, eis a palavra de ordem
A mesma parcialidade que nos poupa de respostas algumas pode nos sujeitar à mesma coisa
A incondicionalidade não coa certas coisas como gostaríamos
Os quatro ventos dos ânimos, soprando incessantemente, pregam peças à luz do nada
Todo o tempo do mundo parece estar acabando em meio a novos tempos ignorados
Desarme súbito. Teor inflamável. Apreensão pelo que poderia ter ido pelos ares. Ou pelo que já foi?
O ponteirinho parece uma lâmina descascando as incrédulas paciências e pincelando os números ao redor
Os números... ah, os números! Abstrações de frustrações, medições de retroações


Não esperem rimas: só consigo escrever versos assim, soltos, sem sofisticações.

quarta-feira, 22 de setembro de 2004

Tem dias em que minhas divagações parecem uma jukebox: não importa o que venha a pensar, o que virá à mente não se utilizará de imagens, mas sim de músicas. A variedade do acervo surpreende por vezes. Não é porque você está se lembrando daquele boçal da faculdade que você detesta que necessariamente venha a surgir na memória alguma variedade do metal. Não é porque você encontrou na rua aquela menina que você conheceu na balada que signifique que tenha de tocar a mesma música que estava tocando no dia. Não é porque estás pensando demais em certas coisas que venha a surgir músicas que você goste, ou ao menos conheça. A jukebox mental tem dessas coisas: não é o que gostes de ouvir que toca sempre, mas o que tenha uma mínima possibilidade de ter algo a ver com o que se sucede dentro dessa cabeça aí. Quer queiramos ou não. Como se a mente criasse um eu lírico que falasse contigo somente através de refrões, tipo aquelas cartas anônimas escritas com recortes de revistas e jornais, sabe? Eu sei, e quando estou nesses dias musicais, não tem jeito: tudo que acontecer comigo durante o dia será suficiente para algum refrão percorrer os meandros desconhecidos da minha cabeça oca.

sábado, 18 de setembro de 2004

Drops

[Cheiroso liga]
_ Oi, ele está?
_ Não, ele deu uma saída mas volta logo.
_ Ah, certo. A senhora poderia...
_ O quê? Senhora? Tá me chamando de velha, é?
[desliga]
[dia seguinte]
_ Eu avisei que tua voz ao telefone é robótica.
_ Não é robótica, é sexy!
_ Talvez ele tenha tido dificuldades em especular tua idade por causa disso...
_ Quantos anos o cara tem?
_ 21.
_ Aquele... hum! E ainda por cima é mais novo que eu!

[ambiente de tensão na sala. Prova de Teoria. Tempo depois, ela termina a prova]
[volta depois de quinze segundos]
_ Ai, profe, eu esqueci de fazer a primeira questão!

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

Esperar. Não direi o quê. Especificar limita interpretações. Em verdade, há momentos em que esperamos com culpa. Em outro momento esperamos com invasiva e inesperada serenidade. Quem gosta de esperar pelas coisas? Tanta coisa nos faz esperar o que nem sempre anseamos esperar. Quer-se esperar pelo que se tem certeza de vir a acontecer, a ser, a estar, dependendo da espera em questão. Eu queria saber ao menos até quando. Ou pelo quê ao certo. Uma uniformidade que aparenta ser um vácuo caracteriza muitas esperas. Uniformidade de quê? Do que se trata essa atenuada avidez? Queremos que as esperas tenham resultados, mas a verdade é que os resultados têm uma espera. Se é que algumas têm, o que nem sempre se percebe. Abstrações e sensações nos acabam encurralando no esperar. Há o que se esperar? Há de se esperar?

Muitas coisas não esperam, como momentos*. Mas, sem esperar, certas esperas, até então desconhecidas dos próprios esperançosos, têm resultados. Como nos aforismos produzidos pelos saberes das massas, as coisas são e acontecem quando menos se espera. Há coisas em que somos todos obrigados a esperar que dispensam menções, e outras em que somos convencidos a sermos obrigados a esperar. E assim vivendo, esperando de mais, esperando de menos, esperando retidos em nossas ignorâncias e dissipações. Esperas que alegram, esperas que contentam, esperas que entristecem, esperas que confundem. O que esperar de quê? Que contradições, fissões, confusões** entremeam as esperas?

A razão de se esperar inibe a ponto de se evitá-lo. Não a razão, mas o esperar. Coisas que nem pela metade são deixadas por causa de especulações precipitadas, antecipadas. Em linhas gerais, esperar é um complemento inevitável e indispensável a um destino cheio de esperas às vezes infrutíferas, às vezes frívolas, às vezes frutíferas, que bom. Não que esperar seja bom à inquieta paciência humana; somente as esperas frutíferas o são. Somente elas? Há um lamentável desdém, por parte da maioria das pessoas, pelo caráter empírico das esperas. E esperar, como deve-se reiterar, é um complemento. A espera não faz o trabalho sujo de viver por nós, veja só. Espera só pra ver onde pararás contando somente com ela...


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* Vide post de meados do ano com títlo homônimo
** Trecho duma música do Skank que lembrei agora.

terça-feira, 14 de setembro de 2004

Sou vago. Isso dá margem à maioria dos que me conhecem a se verem a frente de uma miragem ambulante. Se perco ou ganho por ser assim, não tenho a resposta. E se acredito ter, perco por acreditar. É o constante desafio da incondicionalidade*. Faz diferença sequer sentir-se ou não sentir-se por ela desafiado? O que sei é que ser vago acaba por nos conceber como tal às vezes. Seja a nós mesmos, seja a certas coisas isoladas. Quantas oportunidades de abertura e de descontração perdidas por ser vago! Vacância esta que muitas vezes camufla impressões não tão vagas assim. Uma reduzida condição humana suprimida por várias camadas depositadas por incondicionalidades que sequer sabemos se isso são, que nos fazem desconhecer a causa de vários atos nossos. As causas são um tanto que estatisticamente estudadas por teorias, mas certas causas desafiam os mais renomados teóricos. A causa pelo efeito ou o efeito pela causa? A causa pela causa ou o efeito pelo efeito? Vacância pelo quê?**


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* Vide post do mês passado
** Perguntas retóricas: convites à reflexão quanto ao que ignoro. Se bem que esse post todo é quanto ao que ignoro, desconheço...

segunda-feira, 13 de setembro de 2004

Mendigos que já passaram nas salas em que estudei e as respostas providenciadas por amigos e professores


[aula de Lingüística]
_ Oi, eu vim do Maranhão e não conheço ninguém. Vocês poderiam me ajudar com qualquer quantia?
_ Ah, gênio, você vem pedir isso num bloco de Letras, cheio de professores? Só tem pobre aqui, meu filho. Gente consciente de que vai pra cova na miséria. Vai pro bloco de Direito aqui do lado que você ganha mais!

[no bar]
_ Oi, vocês poderiam me ajudar com um dinheirinho? Eu poderia estar matando, roubando, cheirando, tropeçando, mas estou aqui, pedindo, com dignidade.
_ Moço, já ouviu falar da instituição assistencial xis? Lá eles ajudam indigentes como você. Vai procurar ajuda lá e cai fora da minha mesa, seu fedorento!

[aula de Práticas]
_ Oi, vocês poderiam me ajudar? Eu não tenho isso, nem aquilo, minha filha isso, minha filha aquilo... por favor...
[a pedinte sai da sala após recolher certa quantia]
_ E onde estão os assistentes sociais quando mais precisamos? De decoração nas planilhas de pagamento da Prefeitura, só pode.

domingo, 12 de setembro de 2004

Quem nunca teve a sensação de indiferença da parte dos outros? Aquela situação de via unilateral a qual, por mais que se tente estar próximo de quem se estima, por mais que se goste da presença, do contato da pessoa, é algo que não se percebe da parte do outro? Eu nunca tive. Ou ao menos tenho essa sensação agora. O que me deixa preocupado é que, sem perceber, posso ter passado uma imagem de espessa indiferença para dezenas de pessoas que cruzaram meu caminho, e nunca ter me dado conta disso antes. Mas isso é só uma especulação. A se considerar, claro.

Tenhamos um mínimo de auto-crítica e admitamos que todos nós somos pessoas insuportáveis e ególatras demais para se aperceber disso a maior parte do tempo. Mas porque só agora, ao que parece, pareço me dar conta disso? Pareço me dar conta de que a constante tentativa de imparcialidade da parte das pessoas e suas máscaras é algo tão... tão... tão incisivo e hipócrita? Sim, o mundo tá cheio de gente boçal. Mas quem se acostuma a isso de todo? Cuidado com essa pergunta, retórica.

Me vejo numa época em que descubro que a indiferença é pior do que inimizade. Inimizade é mero antônimo. E indiferença? É antônimo de quê? Homônimo de quê? Sinônimo de quê? Por si só, a descrição de indiferença é um tanto indiferente. Que não é bom nem mau, para o Aurélio. Um nada escrito com onze letras em vez de quatro! Uma lacuna onde se acredita ter algo a preenchendo. Indiferença é algo realmente traiçoeiro, pois sua subjetividade e aparente neutralidade machucam sem se desferir golpes, cortam sem se manejar lâminas, derrubam sem acertar.

quarta-feira, 1 de setembro de 2004

Fórum: perguntas pertinentes com respostas impertinentes


* A verdade dói. E a mentira?
_ Pela lógica, a mentira não deveria doer. Mas esta mente até pra si mesma.
_ Então a mentira também dói!
_ Portanto, não faz diferença se utilizar da mentira ou a verdade. Ambos doem!
_ Já que ambos dão no mesmo, o que seria mais coerente? Usar a verdade entortando um pouco para a mentira?
_ Verdade verdadeiramente mentirosa?
_ Mentira mentirosamente verdadeira?
_ Mentira!
_ Verdade!
_ Mentira!
_ Verdade!
_ Verdade!
_ Mentira!
_ Mentiroso!
_ Arranhe um altruísta e veja um hipócrita sangrar.*
_ Alfinetar a verdade produz mentiras?
_ De que outro jeito?
_ Bom, inicialmente temos a dualidade, e esperava-se desta que se opusessem, mas às vezes se complementam.
_ Bom, isso é não só uma lei da Física como um flerte com o misticismo.
_ Não é porque se complementam que deixarão de se oporem, eu acho.
_ Mas não é porque se repelem às vezes que deixarão de se atraírem.
_ Sim, sim, estamos dando volta em círculos. Presos a dois pólos incondicionais.
_ Mas o incondicional é bom ou mal? Nobre ou vil? Metódico ou inocente?**
_ Se uma imagem mascara a incondicionalidade, esta última existe?
_ A imagem ou a incondicionalidade?
_ Pergunta perigosa. Arrisquemos a incondicionalidade.
_ Se existe, imporia condições para várias coisas inexistirem neste momento.
_ O que inexiste não alimentaria uma possível incondicionalidade?
_ Esse círculo vicioso poderia nos fazer supor que tem muita coisa que é e não é ao mesmo tempo.
_ Só se mentira for mentira e verdade ao mesmo tempo...
_ ...o que é muito, mas muito freqüente.
_ Mas peraí, verdade é verdade e mentira ao mesmo tempo?
_ Desmorona aqui a incondicionalidade. Resta a imagem, que foi deixada de lado há pouco.
_ É mesmo.
_ Verdade e mentira são simplesmente imagens?
_ Imagens, plural, ou imagem, singular?
_ Plural?
_ Singular.
_ Mentiras plurais...
_ Verdades singulares.
_ Devagar aí: verdade singular, ambos no singular.
_ Já parou para pensar que, às vezes, não é a ausência de palavras que impede conclusões impressionantes, mas sim as mentes metódicas que se distraem com essa metodicidade dada às palavras?
_ Está culpando os gramáticos agora?
_ Devia sugerir aos filósofos a escreverem em sânscrito...
_ Eis a questão: mentiras plurais para verdade singular ou mentira singular para verdades plurais?
_ Precisamos criar um novo tipo de desinência: temos o singular e o plural. E se criássemos uma que não fosse nem um nem outro, que fosse ambos, ou que fosse esses dois anteriores ao mesmo tempo?
_ Precisamos de uma desinência nova para isso?
_ Acredito precisarmos criar vários mecanismos para sermos capazes de explicarmos certas coisas.
_ Vou tentar: usarei como desinência para, nem singular, nem plural, -n. Para singular e plural ao mesmo tempo, -x. Para os dois anteriores, -nx. Repetindo a frase: mentiran pluran para verdaden singulan, mentirax plurax para verdadex singulax ou mentiranx pluranx para verdadenx singulanx?
_ Caramba...


Droga, esse post ia ficar muito legal. Tive uma idéia muito tresloucada sobre a questão acima, que daria um desfecho sensacional, mas dá GPF no computador justo enquanto digitava este post. O que consegui recuperar e complementar é o que vocês acabam de ler. Deve ser manifestação divina. Se nem o filho do Homem respondeu à pergunta enquanto em terra, talvez ele não queira que mais ninguém conspire em cima de suas questões. Como quem leva desaforo pra casa, este aí não deve querer ninguém roubando sua resposta. Ah, e respondendo à possível pergunta: não, (não) estou sob efeitos etílicos ou herbais! E não, não estou blefando quanto ao pau do computador!


Nota mental: atenção redobrada aos duplos sentidos e ambiguidades!


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* essa frase foi um dos primeiros posts que li da Andreia. Quem diria que a usaria para um post próprio um dia...
** vide post de 24 de agosto