terça-feira, 22 de junho de 2004

Pérolas do cotidiano

[atendo uma chamada e passo pra irmã, ébria de sono]
_ Não tá funcionando!
_ Quando você disser alô, vai funcionar!

[chega um atrasado]
_ Tudo pelo fundão!
[chega mais um atrasado]
_ Tudo pelo fundão! Não tem jeito: tem lugar bem mais prático de se sentar, mas insistem em se camulfar no fundão.

_ ...e tem aquela famosa história do me dá: dê-me ou me dá? eis a questão. Tem um conto do Oswald de Andrade que... (conta o célebre conto) e então...
_ Mas "me dá" está no imperativo, portanto correto.
_ Sim, mas teria de ser "me dá tu".
_ Tem aquela vinheta antiiiga dos tempos de primário:

Me dá, me dá, me dá/Me dá Danoninho, Danoninho dá/Me dá Danoninho, Danoninho dá/Cálcio e vitaminas pra gente brincar.
Lipídios, glicídios, protídios, ferro e fósforo pra gente brincar/Me dá saúde, mais inteligência/Me dá Danoninho, Danoninho dá

_ Comídia...

[Sersup fazendo cruzadinhas Coquetel]
_ Elemento da corola da flor, com seis letras.
_ Pétala.
_ ...
_ Essa você sabe!

quinta-feira, 17 de junho de 2004

Pipoca

Pipoca na panela, começa a arrebentar
Pipoca com sal, que sede que dá
Pipoca e guaraná, que programa legal
Só eu e você, e sem piruá, que tal


Ao som da antiga vinheta, lembro-me dos tempos de criança. Curioso como certas referências de outrora simplesmente pipocam nas idéias às vezes. Trocadilho barato. Passa-me às idéias de como as coisas se transformam radicalmente de uma hora para outra: de um desacreditado milhozinho no fundo daquela superície fria de teflon à súbita alvura. Cada grãozinho amarelado daqueles é como se fosse um pouco de nós: momentos difusos na panela da vida que a qualquer momento pipocam sem avisar. Assim metaforizando, todos temos piruás. Sobras que evidenciam o que fica pra trás. Sobras que nos condenam; a comer menos pipoca durante o filme, se nos perdermos na metáfora. Mas lembremo-nos dos grãos que fazem a diferença em nossas tigelas. Ao fim de todas elas, o que fica lá dentro são os piruás. Somente eles, roçando no metal da tigela, fazendo barulho, somente barulho, inconseqüente. Quem precisa do barulho, afinal? Mente vazia, moradia de coisas desnecessárias. Tigela vazia... hora de fazer mais pipoca!

Para não nos atermos apenas nessa metáfora manjada, abordemos a sagacidade da palavra pipoca: curioso alimento, esse. Uma das raras maneiras de fazer criança comer legumes. Palavra de tal apelo que chega a ganhar função de verbo. Um substantivo que cria seu próprio verbo para designar uma ação além do ato de fazer pipoca. Como a língua se apropria curiosamente de certas palavras, não? Como se não bastasse, o vocábulo cria empregos informais. O pipoqueiro na frente do bloco daqui do IL não me deixa mentir. Entretanto, etimologicamente falando, a pipoca não pipoca. Ou seja, a pipoca, aparentemente, não precisou pular de língua em língua até chegar à língua portuguesa. É uma palavra de personalidade dentro da língua, sem ter sido emprestada de ninguém, veja só. Tudo bem que a palavra é originária do tupi, mas nasceu daqui e fim de papo! Ao contrário de termos, de certo modo ególatras, como sadismo, marxista, a pipoca, como de hábito em relação a criações comestíveis, se viu livre de um criador oficial a lhe batizar com o próprio nome. Nenhum Marquês de Pipoca a oficializou a tempo de ficar na história. O Conde de Sandwich se apressou e conseguiu afamar sua "iguaria", precursora dos infames fast-foods. O Marquês de pipoca marcou bobeira.

E como se não bastasse, há também a pipoca como ícone de uma geração. A geração que cresceu vendo cinema. Geração essa que nem faz idéia das origens indígenas do milho rebentado ao calor do fogo, parafraseando definição do Aurélio. Afinal, cinema sem pipoca não é cinema! Nem que seja esparramada pelas poltronas, usada para guerrinhas durante o filme ou outras funções, por mim desconhecidas, no escurinho da sala de projeção. Bola remete a futebol, animais em geral remetem cada um a um respectivo time de futebol. Galo, peixe, urubu... A pipoca não fica atrás e garante seu lugar ao sol associando-se a cinema.

A modernidade tratou de dar nova roupagem à pipoca, com embalagens que ficam prontas com menos de cinco minutos ao microondas. Ainda não evoluíram o suficiente para extinguir os piruás, mas quem sabe ainda chegam lá. Todo pacote cheio tem seus piruás, olha só: um potencial provérbio que me passou pelas idéias agora. Eis o poder proverbial da pipoca, minha gente!


O que me leva a escrever sobre pipoca? Uma redação proposta na aula de hoje. Eis as cositas que Serusp conseguiu ruminar pra entregar até terça. Quando dei uma lida geral no texto, nem parecia redação: parecia só mais um post tresloucado do BR! Ê mundinho torto que dá voltas...

quarta-feira, 9 de junho de 2004

Momentos

Um sujeito, da qual o Sersup não se lembra por ora, certa vez disse que a vida é feita de momentos. Afirmação coerente, notemos isso. Uma vez isso em nota, acredito ter percebido que momentos são feitos de pessoas. Sim, acontece de você e mais alguém num mesmo canto, numa situação interessante. Não estou me atendo a sitacões em particular. Nem a o que possivelmente podem estar concluindo ao terem lido a antepenúltima frase.

Tendemos a fragmentar os momentos. Não podemos fragmentar as pessoas, decerto. Particularidades trazidas por falta ou abundância de tempo, por linhas tortas do cotidiano, ou por pessoalidades, fragmentam os momentos. Momentos chegam um atrás do outro para todos. Estamos em um, passando para um e saindo de outro sem sabermos. Delimitações produzidas por nossas abstrações. Mas lembrem-se de que não podemos fragmentar as pessoas! Uma pessoa, num dado momento, é algo definido apenas ali, portanto única. Se encontramos uma pessoa numa situação -- ou melhor, num momento -- agradável para nós, porque dispensar sua companhia por causa de efemérides diversas? E é aqui onde quero chegar: se momentos são únicos, as pessoas nele também são. A mesma pessoa em momentos diferentes não é a mesma. Aproveitemos pois os melhores momentos das pessoas. Não estaremos lidando com a mesma pessoa num outro momento. Porquê? Porque momentos são transitórios. Por mais que tentem evitar, as pessoas também são assim.

Momentos são atemporais. É por isso que se chamam momentos. É por isso que não recebem nome de alguma unidade de tempo mensurável. É por isso que momento é momento, e não segundos, minutos, horas, anos. É momento por si só, indiferente e auto-suficiente ao lado das nossas medidas de tempo. Isso explica porque tantos momentos passados ecoam por segundos, minutos, horas, ou mesmo anos, por nós. Momentos não estão nos ponteiros do relógio, estão em parte em nós. Faz sentido tratar bem de cada momento sob essa perspectiva. Viva cada momento como se fosse o último, um outro sujeito da qual o Sersup também não se lembra, disse.


Pareço estar desenvolvendo um involuntário talento pra correntes de e-mail. Aquelas com mensagens pretensiosamente edificantes. Hummm...

terça-feira, 8 de junho de 2004

Internas

_ Eliane, precisamos terminar. Acabou. Não dá mais. Nada pessoal. [ele termina com ela]
_ O quê? [ela passa mal, quase desmaia, e ele tem de levá-la pra casa]
_ Que aconteceu, filho?
_ Ela teve um troço quando tentei terminar com ela.
_ Certo. Saia de casa e volte daqui a uma hora.
[dias depois]
_ E aí, gente? Como vão as coisas?
_ E aí, mala?
_ Ei, não fala mais comigo, não?
_ Cuidado, ela vai infartar! Olha a pressão!


_ Cara, às vezes tenho medo de dirigir contigo.
_ Teria mais medo de dirigir com pessoas que deixam o carro morrer no meio do caminho. Isso é perigoso. Imagina ficar largado no meio d'uma avenida por causa d'alguém que não sabe passar marchas?
_ Cara, pelo menos eu consigo dar a partida!
_ Você está tomando por referência um Tempra 86! Fica queto!


_ Ops, deixei seus óculos caírem no lago.
_ Problema seu. Nada e pega! Não tenha pressa: é um Armani baratinho!
_ Ele bóia ou afunda?
_ Hum, tá parecendo quadro do Domingo chato.
_ Taqui seus óculos à lá Hermes e Renato!
_ Não, não vou pegar! Guarda pra mim!
_ Tenho cara de guarda-volumes? Pega logo, cacete!


_ O que está acontecendo com essa toalha? Já é a terceira vez essa semana que a encontro no chão!
_ Estão usando-a como tapete no banheiro.
_ Sério? Dia desses a usei para me enxugar.
_ Ai Senhor, dai-me forças...


[durante aula]
_ Sabe como gaúcho pede pão em sua terra? Eles pedem assim: "me vê dez cacetinhos". Quando fui lá, uma menina no balcão não parava de rir da gente. Dizia achar nosso sotaque muito esquisito. Depois do cacetinho, nós é que o achamos...

quinta-feira, 3 de junho de 2004

Fazem a mesma novela há 40 anos. E fazem as mesmas histórias em quadrinhos há 40 anos. Descobri isso na sala de espera: após anos sem folhear um gibi da Mônica e sua turma, descubro que nada do que li outrora mudou: as histórias são as mesmas, desfechos idem; seleções feitas pelos almanaques, então, nem se fala. Tenho pena de quem é colecionador. Ver seus personagens favoritos sendo sucateados como a episódios de Chaves eternamente reprisados. Definitivamente os quadrinhos no Brasil precisam ter seus conceitos revistos. O medo de ousar nas histórias irrita até mesmo leitores esporádicos como eu. Quanto às duas frases acima que iniciam o post, não é coincidência que eu esteja me referindo a dois ramos da comunicação abrangidos pelo mesmo conglomerado.