sexta-feira, 21 de maio de 2004

Filtro solar e janelas

Use filtro solar! Todo lugar que vou, tem uma gravação dessa paradinha. Dia desses fui treinar e vi no notebook do kung-fu man a tal da mensagem do filtro solar pela primeira vez. No original em inglês. Nessa vez, fiquei sabendo que se tratava d'um discurso, um juramento, de um formando de Administração duma faculdade americana estadunidense. Mas porque cargas d'água um orador começaria a proferir um juramento com os dizeres "use filtro solar"? Simples: ele morreu precocemente de câncer de pele. Mas, como dissera há pouco, todo lugar que vou me encontro com a tal mensagem. É nisso que dá criar-se um texto legal e não ter tempo de patentear: todo mundo tira uma casquinha! Volto pra casa, vizinho ouve no rádio a tal da mensagem; vou pegar irmão no colégio, lá está o Pedro Bial lendo a mensagem na rádio de novo; zapeio na Tv, encontro um Dj desocupado que não perdeu tempo e fez seu remix da mensagem. A propósito: eis um link para a mensagem, fácil de encontrar em sites de busca.


Janelas! Windows! Fenster! Fenêtres! Ventanas! Descobri há certo tempo que detesto ambientes sem janelas! Descoberta essa fomentada pela epoca em que fora induzido a fazer cursinho. Me sentia terrível naquelas salas gigantescas, de janelas translúcidas pintadas de cinza e portas de ferro pouco convidativas. Estava a comentar com a L. dia desses (maldição! Estou começando a me corromper. Controle-se, Sersup, controle-se...) sobre isso, sobre como me sinto à vontade numa sala devidamente iluminada pelo dito espaço retangular. "Tem vezes que você não tá com o menor saco pra prestar atenção naquele professor nariguro à frente. É nessas horas que uma janela vem a calhar: você olha um pouco pro mundo lá fora, fita o sol, ou o sereno dependendo do horário, e já se revigora sutilmente.", afirmei. Enfim, dei sorte com minha sala: é tanta janela que dá a impressão de se estar tipo naquelas cúpulas de jardineiro, aquelas redomas cheias de vidro, sabe? Mais: janelas são importantes porque não devemos esquecer de que não temos um tipo só de visão: temos visões variadas, como a comum, a periférica e a não-visual, por assim dizer. Se uma ou outra encontra-se obstruída, sufocada por um ambiente que te força a prestar atenção em algo, acabamos nos fatigando mais rapidamente, talvez. Isso tá parecendo papo de praticante do Feng shui, mas é sério: se os olhos são a janela da alma, de que adianta ter janelas com uma péssima paisagem?

domingo, 9 de maio de 2004

Quadrinhos alternativos

Já pararam pra reparar no engessado marasmo do mundo dos quadrinhos (pelo menos no Brasil) de hoje? Não há mais revistas em quadrinhos novas no mercado, vendas despencaram vertiginosamente em pouco mais de cinco anos, qualidade das publicações que tentam sobreviver ao asficiante mercado editorial brasileiro está triastemente questionável... estenda esse quadro a várias (ou a grande maioria) da vanguarda doa quadrinhos. Por experiência própria, constato: há uns quinze anos atrás, coisa mais fácil era encontrar uma banca sortida com seus quadrinhos favoritos. O prestígio dessas revistas era tão grande que algumas delas se davam ao luxo de terem assinatura própria provida por suas editoras, várias edições especiais de 400, 500 páginas, de papéis especiais... uma realidade estupidamente distante do que observo nos dias de hoje: as bancas perderam muita competitividade, a qualidade das revistas desabou, os quadrinhos em particular se reduziram a publicações de quinta categoria, chegando a ser mais baratas que cruzadinhas da Coquetel e livros de piadinhas do Costinha.

Lembro-me que, em meados de 92 ou 93, não me recordo ao certo, a competitividade entre os quadrinhos era tal, que algumas editoras adotaram um sistema de preços tabelados: cada revista levava um código na capa, que era consultado pelo jornaleiro, possivelmente com o intuito de padronizar os preços. Será que na época rolava cartéis por parte das bancas? Sei lá; era pequeno demais pra conceber tal contexto no mercado. A resposta do mercado editorial quanto ao esfriamento do consumo, infelizmente, seguiu a tendência estagnadora dos outros mercados de consumo: em vez de se encarar o problema de frente, com investimentos em novos autores, novas possibilidades, preferiu-se tomar uma acovardada decisão de se reduzir o número de publicações, numa redução de custos que beirou o ostracismo absoluto do gênero revistas em quadrinhos. Essa realidade, aterradora para os fãs, mantém-se até hoje: os preços aumentaram abusivamente, a qualidade caiu igualmente. E os leitores seguem, já há anos, calados quanto a isso.

É de se perguntar o que fez as revistas em quadrinhos levarem tal rasteira histórica. Seria somente as dificuldades crescentes do mercado? Acredito que esse fator isolado não explica esse fenômeno, pois a ascensão contínua dos quadrinhos orientais não me deixam mentir. Desconsiderando-se poucas exceções, todos os quadrinhos que chegam ao Brasil são importados. Tem-se por vezes a sensação de que brasileiro não sabe desenhar, e que os poucos que sabem são absorvidos pelas editoras dos gringos. Isso é mentira. Mas também é verdade que a maioria dos desenhistas brasileiros possuem um estilo de trabalho incompatível com o fato de o suposto grande filão consumidor de quadrinhos ser de crianças. Tem-se também uma dificuldade, no tocante aos quadrinhos que, a meu ver, dificulta a consolidação do gênero nos dias de hoje: histórias em quadrinhos, como toda história, têm de acabar um dia. Quadrinhos de heróis americanos e orientais são um exemplo. Façamos um paralelo entre esses dois: normalmente, quadrinhos orientais possuem uma história definida, com seus pormenores coerentemente estabelecidos, e às vezes coerentemente não explanados para se justificar um flashback no futuro ou uma edição nova. Já nos quadrinhos americanos, a única coisa definida na história são as origens do super-herói. Repare que quadrinhos americanos não têm um fim definido. Por exemplo, a saga de Batman, ou a do Super-homem, tem um fim? Mesmo que tenha, normalmente chega tarde demais. O super-homem que o diga: precisou os editores cometerem o ridículo de matar o herói e ressuscitá-lo com um uniforme (usando de más-línguas, homossexual), para que os leitores se desinteressassem pela saga do Homem de aço. Isso porque não mencionei o ridículo da saga do Homem-aranha e o tal do Aranha-escarlate. Ops, mencionei!

Parece que esse fenômeno que mingua as histórias em quadrinhos ocorreria mais cedo ou mais tarde. Revistas se caracterizam por serem produções descartáveis. Não são como livros que podem sempre ressurgir com uma reedição: são um meio de comunicação que ainda sofrem preconceito por sua volaticidade. Certos quadrinhos se destacam nas livrarias como trabalhos de arte, mas ainda são poucos comparados com o que se poderia fazer: gibitecas, lojas especializadas, entre tantas outras opções facilmente concebíveis (mentalmente, claro). Olhando por um prisma mais atual: estariam os quadrinhos virtuais (que acessamos facilmente pela web) massacrando os quadrinhos em papel? Sob uma analogia, seria mais ou menos o dilema de se expremer centenas de páginas de enciclopédias em um único CD, que questiona a utilidade e praticidade dessas publicações. Temos de admitir que o cenário estático dos quadrinhos atuais favorece imensamente a proliferação de artistas alternativos web afora. Face ao absoluto desânimo da editoras quanto às novas mentes do mundo dos quadrinhos, a web mostra-se um oásis bem no meio do deserto que sobrou dos quadrinhos nos dias de hoje. Reparem que estou postando esse monte de coisa sob a ótica brasileira: talvez esse texto perca o sentido se tentarmos nos inserir no contexto editorial de outros países.

É tanta coisa a levar-se em consideração para tentarmos compreender um fato assim que tenho certeza de que estou sendo parcial. Mas outra coisa que dificulta uma variedade de quadrinhos nas bancas são o oligopólio editorial nas mãos de uma ou duas editoras apenas. O resultado disso é uma concorrência desleal e uma variedade paupérrima, que não precisa se encorajar a inovar seu acervo, em sua maioria importado dos gringos. Resumo da ópera: falta apoio a nossos quadrinistas e falta seriedade das editoras em lidar com os quadrinhos. Pelo jeito, só mesmo o tempo para que uma concorrência, acirrada o suficiente para revelar nossos artistas desconhecidos, desponte nas prateleiras das bancas.



Algumas sugestões de quadrinhos alternativos do Sersup:

Keenspot: portal de quadrinhos alternativos. Alternativo demais, às vezes, mas ainda assim vale uma olhada. Mais de trinta opções de quadrinhos, para todos os gostos e tamanhos. Pessoalmente, entre as opções oferecidas, recomendo Sinfest e You damn kid.

Malvados: quadrinhos nacionais rústicos, mas de humor acurado e ácido. O que se perde em visual compensa-se em críticas sociais propostas pelos dois deturpados protagonistas.

Cybercomix: portal brasileiro de quadrinhos velho de guerra, está no ar há mais de cinco anos. Vários cartunistas famosos passam por lá.

Allan Sieber: mente doentia que desenha para várias publicaçoes alternativas, tanto em papel quanto na web. De humor atemporal e sem papas na língua, sem medo do incedente.

Megatokyo: traços bem trabalhados, mas de humor acessível apenas para gamemaníacos e aspirantes a nerd. Eu gostei, mas considero alternativo o suficiente para agradar a poucos.


Essas estão longe de ser as melhores sugestões. Vão cavucar a web em busca de algo mais ao gosto de vocês que vocês ganharão mais! Esses são alguns de meus favoritos, mas tem muitos que eu, obviamente, cometi a heresia de não colocar.