domingo, 26 de dezembro de 2004

Domingo chuvoso. Vontade de sair às ruas correndo. Fazia isso quando menor, mas uma censura besta me impede de fazer isso nesse momento. Dias assim são tão raros. Em domingos, então, nem se fala. Muitos de relance nas janelas, poucos andando com o céu transpirando sobre suas cabeças. O que faltava antes sobra hoje e vice-versa. E viceverseando viceverso lembranças com esperanças. Embora não esteja de soslaio no parapeito divagando como os muitos. É só mais um Domingo, mas isso é suficiente para tornar um dia único: ser mais um. Ou ser menos um. Depende. Depender distingue. Independer assemelha? Dicotomias de uma necessidade de liberdade necessária a nós. Distinção por distinção, o diferente igual que pode funcionar como camuflagens do mais do mesmo sem que percebamos. Semelhança por semelhança, o igual diferente, distinguido pela dependência e assemelhado pela independência.

Chuvas remetem a ciclos. O vai e o volta*. O metafórico da natureza que chega até aos oceanos de cimento das cidades. Recados da natureza de que ela não existe apenas nos zoológicos. O que vier virá. Seja em gotas, seja em pedras. E aqui caberia uma figura de linguagem se quisesse usar como referências meus tempos de guri em que corria despreocupadamente pela rua de trás -- moro em esquina -- querendo aproveitar a duração do cair das águas. Aproveitar a duração. Eterno enquanto durar, no verso chave de ouro do Vinicius de Moraes. É só mais um Domingo, como disse. E só mais uma chuva. E só mais uma dicotomia. Tríades seriam bem-vindas pela noção de se ficar em cima do muro que um terceiro elemento poderia vir a trazer. Mas, ao advir de um terceiro, se desejaria um quarto com certeza. E o muro desabaria como sempre. Se dois é bom e três é demais, sempre quer-se mais. Sendo nada de mais ou não.


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* Vai e volta: nome de um brinquedo antigo da Estrela que consistia em um carrinho, nas cores vermelha ou azul, que, mediante propulsão para trás, andava alguns metros à frente e voltava esse mesmo trajeto de ré. Eu tinha um azul, lógico: detesto vermelho! Isso não tem nada a ver com o post, mas dias chuvosos colaboram para nostalgias...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2004

Na assistência técnica

[esta Terça, He-man e eu na assistência técnica do celular dele]
_ Ae, finalmente me chamaram!
_ Bom, o meu celular está com...
_ Nota fiscal, por favor.
_ De vez em quando ele...
_ Certificado de garantia, por favor.
_ E também ele...
_ (inserir nome de algum artifício burocrático), por favor.
_ Tá aqui!
_ Óquei, preciso agora dos documentos de alguém responsável por você, ô cabeça.
[He-man me chama]
_ Preciso de identidade e CPf, Tiago.

* Nota mental: porra, daonde essa cover de menina superpoderosa arrancou esse nome bizarro pra me confundir?


_ Taqui.
_ Certo. Vejamos o aparelho... caramba, filho! Você não tem cuidado com isso aqui, não?
_ É que ele caiu uma vez no...
_ Olha só o estrago! Tem danos aqui, aqui, aqui e aqui!
_ Bom, é que...
_ Ah, olha só: sua nota fiscal está rasurada, preenchida à mão! A empresa não aceita mais notas fiscais assim. Você terá de voltar à loja pedir outra.
[mostra em seguida um fax da empresa, "rasurado" por assim dizer -- escrito à mão -- informando a decisão dos executivos da empresa]
_ Muito conveniente isso: querem recusar notas com manuscritos mas emitem um informe sobre isso escrito a punho!
_ Disse alguma coisa, Tiago?
_ Eu mereço mesmo...
_ Bom, vambora Tiago. Amanhã voltamos.
As provações estão acabando?

As que me entendiam são opcionais?

Terei outra chance?

Aproveitarei essa próxima chance?

Sei que sim por ter me cansado há muito de fugas, mas o que é que sei de tudo isso?

De que respostas antigas, que antes acreditava, e novas, que agora acredito ter, se tratam essas perguntas?

O que concluir depois de olhar pra mim mesmo tantas vezes, em tantas oportunidades, e com diferentes julgamentos alheios?

Me despreocupo dos disfarces alheios, sem isso se tratar de um sinal de indiferença mas sim um sinal de imparcialidade, crendo ter me despreocupado de todo de meu próprio disfarce?

A calma da suposta maturidade se confunde com uma autobanalização?

É normal eu não entender o que escrevo face à posteriorodade, apesar de no momento em que o escrito é escrito as palavras fazerem perfeito sentido como se fossem emanadas de alguma fonte mental desconhecida?

Penso, contradigo-me ou ajo sem pensar sendo o pensar posterior resquícios de neuras das quais abri mão naquele momento: o que veio, vem ou virá primeiro?



Querem um texto especulando respostas? Vieram ao lugar errado... :/

domingo, 19 de dezembro de 2004

Balanço

Nota pessoal inútil:

Sabe aquelas épocas em que experimentar faz parte do
Zeitgeist de cada um? Apertando a tecla SAP, dessa vez sem germanismos: quando novidades ainda assim são e quer-se passar por boas redundâncias (vide post do mês passado, se não me engano). Pra quê adultamente desnecessário? O pólen de jovem continua a (me) atrair. Vinte anos com focinho de quinze: fico feliz por saber que, de vez em quando, realmente esqueço disso e tropeço em atitudes e sensações que ainda não esqueci no auge atolar dessa idade. Eis uma amostra do paradoxal em se sentir feliz...


Post mais inútil ainda:

Escrever sobre a felicidade não tem nada de interessante! O homem possui um apego por tragédias, dramas e tristezas em geral, o que está evidenciado nas mais importantes referências culturais de quaisquer sociedades. Alegrias não produzem mobilidades psíquicas tão visíveis como as tristezas, pelo jeito. Toda história possui um andamento introduzido em seus primeiros capítulos como uma referência a ser considerada estática, normal. Em seguida, temos uma complicação, esta obrigatoriamente uma tristeza, mesmo que proveniente de uma alegria. Por fim, tem-se um desfecho. Este é ambíguo por natureza: pode tanto ser triste como feliz, ou literalmente ambíguo. Ou seja, toda história é uma gangorra, simples assim. A cada uma se credita de uma maneira o lado que pesa, assim como se conceitua cada lado de uma maneira.

Eis o desagradável de escrever: sempre tem alguém de linhas célebres pra dizer que somente o sofrimento rende linhas relevantes. Ainda não descobriram como contestar isso, e olha que temos grupos de estudiosos de utilidade questionável como os teóricos da literatura. As palavras dizem muito, mas ninguém ainda aprendeu a ler o intrínseco e essencial produzido por esses tortuosos léxicos que inventamos ao longo de séculos. Ou seja, temos respostas a perguntas que não fazemos nos textos, mas não sabemos perguntar e sequer responder. Pensando assim, estudar correntes literárias parece não passar de uma perda de tempo fomentada por egos intelectualóides de quem se foi e de quem ainda vive pra realmente acreditar na transcendência do que escreve baseando-se em críticas de argumentos e processos há muito ultrapassados e carentes de algum método que faça sentido universal. Ufa! Isso sem falar na montanha -- diria cordilheira -- de referências desordenadas que se acumulam cada vez mais.

Eu sei lá, viu? No final das contas, não leio mais histórias me iludindo com a carapuça do enredo em si; perco mais tempo é com as ligações, simbolismos, tendências e coincidências que acabam tornando a história óbvia muito antes deu terminar de ler. Como se um livro fosse um quebra-cabeça, sabe? Não interessa a paisagem a se obter ao se juntar todas as peças, mas é a tarefa de se ordenar essas peças que é mais importante. E assim a tarefa de se escrever sobre a felicidade torna-se frustrante, facilmente rotulável de correntes: a felicidade já é algo montado. Poderiam me questionar citando algum texto consagrado cujas linhas falem da felicidade, mas me digam aonde esses textos chegam. Não passam de conselhos, bem-vindos, aliás. Tristezas são complicações, e sem complicações enredos não andam. Felicidades são estáticas e não acompanham o constante movimentar dessa história sem fim que insistimos em registrar em diários e blogs.

Considerar vários prismas de uma mesma coisa é pensar demais, e isso é fatal por complicar o simples. Mas o simples parece complicado às vezes. Digo, o complicado parece simples. E a felicidade parece funcionar como fator de distração. E mais uma vez a questão entra pela dimensão paralela dos oxímoros: a tristeza também funciona como fonte de distração muitas vezes! Olhar para vários lados de forma observadora, não controladora: parece tarefa de ciclope fazer algo assim perante essa história doida que escrevemos todos os dias. Ciclopes de dois olhos: às vezes é hora de descobrir como funciona o segundo olho. Os engraçadinhos perguntariam sobre o funcionamento do terceiro, mas como o BR tem leitoras demais evitarei falar sobre possíveis insinuações à sodomia. Dois olhos enxergam dualidades em tudo mesmo sem se dar conta: visível e invisível, esquerdo e direito, felicidade e tristeza, alto e baixo, grande e pequeno... a menos que você seja caolho, mas apesar de os tempos dos piratas terem passado, muitas variedades urbanas humanas não precisam do cliché tapa-olhos para agirem da mesma forma sutil como os antigos bucaneiros...

A felicidade tem a fragilidade de ser facilmente embreguecível: vide jingles infantis. A tristeza também não escapa disso com os folhetins latino-americanos. Mas o que torna a felicidade aparentemente mais passível de embreguecimento? A relutância (ou falta desta?) das pessoas perante ela, enfim, as frustradas tentativas de infiderença perante ela. É por essas e outras que a autoria da maioria dos textos sobre felicidade são inundadas por trás da alcunha de "autor desconhecido". Mas espere, com a tristeza, o citado nas duas frases anteriores também acontece. Perceberam o andar das coisas? Falei, falei e falei sobre a felicidade sem me mover um centímetro que fosse quanto à questão. A felicidade é redundante (vide post do mês passado) por natureza, mas estática, também. A tristeza é semelhante à felicidade em muitas coisas, porém é móvel, leva àlgum lugar e parece acrescentar algo. Tal dualidade é um andar em círculos cheios de pedras no caminho pra nos fazer desviar para caminhos melhores que raramente percebemos. Como somos distraídos. E eu achando que era só comigo tal distração...


Nota que escrevera há meses atrás e que cá despacherei já que encontrei vaga referência:

Pra começo de conversa: a felicidade é interior ou exterior a nós? O ignorante pode relevar coisas demais que o dito inteligente já não releva mais. Nessa circunstância o ignorante poderia se encontrar mais à volta de cobranças desnecessárias, portanto mais infeliz, do que o dito inteligente. Existem felicidades egoístas, aquelas que buscamos só para nós, pelos mais diversos atos. Existem também as coletivas, que requerem um altruísmo, ou seja, uma atitude mais extrínseca quanto ao conceito de felicidade. Ainda assim intrínseca, porque a felicidade coletiva pode se manifestar egoísta para alguns que a produzem e para alguns que a recebem. É um conceito que se trunca facilmente face aos medos e julgamentos humanos. Como qualquer produção do pensamento, a felicidade se encontra entrelaçada a várias emoções e razões contraditórias. Isolar ou conjugar esse conjunto de produções mentais, qual a alternativa ideal? A resposta é extensamente variável e constantemente despistada por nossos temperamentos. É o tipo de resposta em que não se pode buscar certezas, deve-se buscar considerações. Nem tudo que a mente produz é passível da razão, não esqueçamo-nos disso.

terça-feira, 14 de dezembro de 2004

Drops

_ Cara, não sabes da maior: estou namorando.
_ Hum, safado! E ela é bonita?
_ Não: sou realista.

_ Oi, razão do meu sorriso!
_ Cala a boca, Batata!
_ Porquê, motivo do meu viver?
_ Porque sim! Cai fora!
_ Mas és meu oxigênio!
_ Asfixiar-me não parece uma idéia tão ruim em horas assim...

_ Sempre tem gente me espionando nos corredores insinuando algum romance que eu venha a estar tendo. Mas trarei até vocês algo que vi dia desses: não uma, mas várias vezes: este rapaz aqui, toda Terça, caminha calmamente com uma "amiiiga" descendo a rampa do bloco e conferindo alguns livros do sebo. Entenda por sebo uma mesa de madeira grande com vários títulos dum tiozão que fica o dia inteiro no patamar entre as rampas.
_ Mas ela é casada! É só uma "amiiiga" mesmo!
_ Não tente me enganar com tais churumelas; sei o que vi!
_ Exato: me viu voltando pra casa na companhia duma amiga.
_ E ainda por cima sob o leso pretexto de ter mais uma aula do outro lado do Campus...
_ Mas eu tinha aula do outro lado do Campus! E repito: ela é casada!
_ Você ainda não percebeu a abrangência de minha constatação, não é mesmo?
_ Como assim?
_ Estás andando com a "bodada" não para conquistá-la, mas para persuadí-la a falar bem de você para uma terceira "amiiiiga".
_ Não sou maquiavélico com questões desse tipo! [esgana o outro em seguida]

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

O que leva Sersup a continuar escrevendo suas sandices diárias? Esses insights, meras reflexões dos anos que passam. Como comentara no Sábado (não no BR, devo acrescentar), o tempo passa, passa, e continuamos aqui. Com esses textos, insistentemente teorizo sobre mim mesmo, o que traz um bom conhecimento de campo. Chega a ser curioso como tem todo um miniuniverso nesses posts: alcunhas absurdas, acontecimentos medíocres absurdamente dissertados, anseios absurdos (assim os devo considerar daqui há alguns anos, claro). Sigo sempre o impulso primeiro de escrever pra mim primeiro. O resultado é dos mais variáveis. As repercussões também, ainda bem. Às vezes um simples comentário já pulula ene idéias.

E as coisas continuam assim, a meio que perder a graça com o passar do tempo. Contento-me com o previsível, mas repudio a banalização. Formalidades podem até ser previsíveis, mas jamais banais. Elas consistem em simbolismos agradáveis a nossa necessidade de fugir do trivial, mesmo nos tornando forçosamente triviais. Pompa e circunstância para circunstâncias naturalmente sem pompa. A pompa flerta com a futilidade ou com a sagacidade? E é isso: simbolismos! O comum te dizer muitas coisas indica que você ainda não se tornou daquelas pessoas frias que se orgulham de dar as costas a tudo e todos. O incomum no comum. Os pequenos significados requerem grandes esforços. As sutilezas requerem brusquidões da alma. Nada requer tanto quanto pensamos, a gente é que releva de menos e irreleva de mais. E, sem cerimônias, ceremoniamos. Eis as agradáveis redundâncias de que comentara nos dias 22 e 24 de Novembro.

Cerimônias celebram uma noção de fuga do trivial. E encontro nessa frase um ponto-de-vista interessante e assemelhado ao escrever. Quantos diários de papel por aí celebram em escritos a punho a trivialidade desavergonhada de seus escritores? Isso nos faz perceber que as coisas continuam a não fazer sentido quando em palavras, mas que isso se torna opcional uma vez sob letras por se ver, ser e ter coisas palpáveis apenas verbalmente. O não-palpável está aí pra nos dar idéias fixas, ilusórias e entorpecentes como sempre fez. Passar a borracha nos escritos desagradáveis, como experiências pessoais demonstram, é besteira se não se tiver o que escrever no lugar: as palavras estão lá muito antes de se dar conta destas impressas. Elas não são somente criação, são reflexão.


É, enfim, mais um ano se passando. Experiências boas e ruins registradas, possibilidades trazidas pelos posts, presenças enfim. O BR continua aqui; eu e o mundo, nem sempre. Como já dissera, um simples comentário pulula ene idéias. Com esse post não foi diferente... :)

domingo, 5 de dezembro de 2004

As coisas mudam rápido demais pra nos percebermos presos numa órbita que, por mais que traga horizontes novos, sempre retorna ao mesmo lugar-comum. Queria postar sobre sacolas, mas não sei bem como articular alguma coisa sobre temática tão desinteressante. O que queria tentar escrever aqui é apenas que aquele medo de me magoar novamente está presente de novo. Como várias outras coisas compreendidas na órbita que acabo de citar. Não é fácil -- melhor, conveniente -- conviver com quem te considera uma coisa, enquanto a recíproca não é verdadeira e você a considera mais que essa coisa. E o mal-estar está lá: você a quer bem, temendo o mal que ela te traz juntamente ao bem que ela carrega consigo, pela simples razão de a falta de recíproca do bem querer produzir tristezas daninhas provenientes de alegrias da parte dela -- essa sim você fazendo questão de ser recíprocas --, das quais você não faz parte mas talvez faça, mas teme tanto um quanto o outro por faltar adivinha o quê? Não, sério, tente adivinhar: coisas assim só me deixam confuso e distraído de taxas saudáveis de egoísmo.

Nada deveria estragar esses momentos bons dos últimos dias. E de fato nada o está fazendo. Só Sersup se incumbe disso mesmo. É como vivo dizendo: quando se esquecem de me surpreender, as pessoas me entristecem, simples assim. Entre essas pessoas, me incluo por vezes. E já que não tenho nada pra concluir esse post, falemos sobre os últimos dias. Quinta e Sexta foram a missa e formatura do He-man, respectivamente. Nessa última, tinha aula pra dar às oito da manhã e só consegui sair do Hotel fazenda às três! Ninguém merece, viu? Naquele mesmo Sábado, à tarde, Capítulo. Fim de tarde, Pantanal. Liguei antes combinando de encontrar com ela, mas ela, tinha que ser ela, pra me incutir o mal-estar do parágrafo anterior. Estávamos na Praça de alimentação. Algo que ela disse? Com certeza. Algo que ela sabe ter dito? Claro que não. Fui salvo pelo gongo com ligação do He-man. Aí foi minha deixa: caio fora e saio pra comer alguma coisa. Minha família não nega a propensão italiana a comer, como se percebe. Depois, He-man recebe ligação e ganha cortesia pro camarote do show do Pagodinho pra tirar foto. Enfim, o tipo de coisa que nem de graça eu quero. Sendo o show pertinho de casa, o útil foi unido ao agradável. Eu, que não queria saber de barulho, fui dormir cedo aquele dia: estava cansado...

sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

Drops pra começar o post


_ Sabia que é regra de etiqueta a pessoa que ligar dar tchau?
_ É mesmo? Eu nunca faço isso quando ligo.
_ Pois comece a fazê-lo. É chato, constrangedor para a pessoa que recebe a ligação ter de fazê-lo.
[minutos depois, após desviarmos para vários assuntos]
_ Eu a encontrarei à noite...
_ É mesmo? Eu não sei de mais nada!
_ Cara, tô nervoso...



Cadê a Paranóia do gostar? O que aconteceu? O nervosismo de antes foi somente de véspera; no momento, tudo se foi. Nada restou. Um nada passeando por esse músculo tão metaforizado pelas pessoas. Como um saguão em fim de festa: nada, ninguém. Que vazio ridículo é esse que me parece inédito agora? É comum sentirmos vazios, mas este em particular não é um vazio de quando não vemos sentido nas coisas, é um vazio por como as coisas não repercutem tanto quanto antigamente. Como os planos de antes perdem razão de ser depois. Tanta coisa acontecendo parece ter ofuscado distrações que assim considerava: distrações. Me distraí pensando ser distrações coisas que não me distraíam por um minuto que fosse em certas épocas. A PG tem desses efeitos ardilosos que insisto em desconhecer, como me deixar em dúvida quanto a sua onipresença ou sua oniausência.

E a culpa, essa sim, a sensação desta, é onipresente. Poderia ter sido, mas não foi. Não foi, mas poderá ser em outras circunstâncias e outras pessoas. Culpa pelo 'se'. Culpa pelo 'foi'. Culpa pelo não saber o que esperar. Não estou condenado a nada, droga! Que mania besta essa a minha! O fluxo das coisas dispensa qualquer conta-gotas, prefere torneiras. Não creio ser desapego por eu simplesmente estar próximo desse eu que insiste em se esconder. Não me escondo mais como compulsivamente o fazia. Me revelo mesmo parecendo continuar a me esconder. Me aproximo perante uma visível mas meramente sensorial distância. Paradoxos e antíteses que não consigo evitar. Se é que preciso isso fazer. Se é que preciso dessa sopa de letras. Não, dessa última preciso sim. Preciso dizer a mim o que não preciso dizer a ninguém. Todos se calam pelo que talvez creiam que ninguém precisa ouvir, e assim caem em mais uma contradição.

Ler, ver e ser parte. O todo é quase sempre uma irrelevante tangente. E essa última frase, pretensiosamente, soa como um aforismo da PG que me acomete. PG que nos faz temer lembrar e ser lembrados, mas este verbo que acabo de utilizar na voz ativa e passiva pode ser substituído por vários outros, de acordo com a conveniência. A negação é a primeira parte do processo: várias ocasiões se aproveitam do chavão. E negações, no final das contas, parecem não passar de tentativas de confirmação frustradas (vide post de 17 de Novembro). Eis a PG que creio não me deixar mentir. Encerro o post sem saber se ainda estou o não com a PG, mas como comentara no primeiro parágro, isso já era esperado.


O que o Drops acima tem a ver com o post? É possível que esse preceda o que tinha a ver com o post...

terça-feira, 30 de novembro de 2004

Os anos sob minha ótica

2004: uma montanha de coisas novas acontecendo. Quando me sentia um tanto vacinado contra mil e uma coisas, mil e duas aparecem. Trazendo aprendizados.

2003: ano negro. Nem gosto de lembrar. Dificuldades, tragédias e perdas. Tudo parecia conspirar pra dar errado, e mesmo as poucas que conspiravam a dar certo nem davam tão certo assim

2002: ano de estabilidade. As coisas parecem ocorrer de forma uniforme, mas com certo presságio para tempos difíceis. Crenças e vontades que, neste momento, parecem inabaláveis e íntegras.

2001: ano de relativa tranqüilidade. As coisas acontecem, por assim dizer. Uma atrás da outra, como sempre. Mas num clima que, apesar de denso, parece não gerar alarmismos.

2000: mudanças, muitas mudanças. O início de novas sensações sob um ambiente inspirando certa decadência.

1999: as coisas acontecem, parecem se banalizar.

1998: ano com algumas mudanças. Por todo lado. Dedicação parece levar a bons caminhos, ou ao menos evitar os maus.

1997: ano de intensidade. Alguma intensidade que não saberia explicar. Assim como tudo que digitei até agora: não sei explicar. Sersup sente antes de postar. Postar é mero resultado dessa verbalização tresloucada da qual temos mania de produzir.

1996: a monotonia parece trazer desapegos. Ano de consolidações, talvez.

1995: metade da década mais efervescente do século. O espumar dessa mistura chega até aqui e não dá sinais de parar de se abranger.

1994: conquistas pequenas. Mudanças, decepções, contrastes, enfim.

1993: anos terminados em três não me trazem boas sensações. Como se fossem hiatos cósmicos. Tente lembrar de algo relevante e positivo que aconteceu em algum ano terminado em três.

1992: presságio de anos ainda mais loucos. As mudanças passeiam pelo cotidiano aprisionado da sociedade.

1991: as coisas pareciam mais simples aqui. Mas estamos só no começo nos anos 90, com direito a nostalgias não assim ainda consideradas. Tradições se confundindo com subprodutos.


É só até aqui que digitarei. Não me pergunte porque parei aqui: talvea algum bloqueio que eu desconheça...

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

Drops

[Batata mais uma vez rendendo momentos inusitados pra constar nos Drops. Essa foi na Quarta-feira, indo embora do apê do Dilsinho]
_ Que bom te ver. O senhor vai me deixar em casa, não vai?
[segundos depois]
_ Hum, vou me esconder aqui no corredor do xarope do Batata.
[pouco depois, espero o irmão se despedir do povo e caio fora. No portão de baixo, ele e os Los hombres se despedem. Quando de repente, enquanto eu e o irmão nos dirigimos ao carro...]
_ Ei, irmãos, não me deixem aqui!
_ Corre, cara, corre!
_ Droga, ele alcançou a gente!
_ Ah, vamos, me deixem em casa! Não moro tão longe...
_ A quem você quer enganar?
[senta no banco e diz]
_ Ah, é? Pois também não saio daqui enquanto não estiver em casa!
[eu e o irmão o ignoramos e voltamos pro apê, largando o tubérculo sozinho na sarjeta]
_ (vocabulário vulgar que dispensa comentários)
[enfim, o tipo de Drops qe só tem graça quando presenciado...]

[assistindo tevê]
_ Cara, a cena do assassinato é mais classe! Há quanto tempo não a vejo...
[bang!]
_ Caraca, a mão dele virou farelo!
_ Pudera. Um policial com um nome desses... o cara é um monumento cinematográfico à lei. Encarar uma gangue inteira sozinho: quer algo mais Murphy que isso?
[tava assistindo Robocop...]

[Quarta, antes de ir pro apê do Dilsinho]
_ É que nós somos opostos opostos demais. Você e ela, não. Ainda é algo conciliável...
_ Não viaja!
_ Tô dizendo...

[Quinta, aula de português. A atividade consistia em, a partir de duas gravuras no quadro, escrever um texto. Divinha quem fica na frente da lousa, perambulando enquanto analisa as gravuras?]
_ Hum, qual a relação entre as três "figuras"? [percebam o sarcasmo]
_ Você quer ficar só com a terceira, né?
_ Nem um pio, Tigrão!
[conseguiram me deixar sem-graça como cada vez mais raramente fiquei da última vez]

quarta-feira, 24 de novembro de 2004

Inspirado por dois posts de findos de Julho


Quero minhas certezas de volta! Certezas de épocas em que pensávamos menos e sentíamos mais. Ou vice-versa? Vejam o tamanho de minha incerteza! (...) Há quanto tempo estou assim? Nem faria sentido me desesperar, pois nem sei se o que ocorre comigo é tão simples ou tão complicado assim para isso justificar. Ao andar pelas ruas, não vejo adultos: vejo crianças travestidas de tantas coisas ruins! Até sair na rua me entristece às vezes: observar as pessoas em suas prisões só me faz querer ficar em casa naqueles fins-de-semana iguais (...).


Experimentar: prioridade prioritariamente influenciada (...). Coisas que ninguém precisa experimentar são experimentadas por causa de opiniões alheias. São idades em que muitos não se conformam de serem proibidos de fazer certas coisas. Ignorantes que não percebem que são dissipações desnecessárias certas coisas (...), mas que experimentam assim mesmo (...)



Me lembrei imediatamente desses posts após a noite de Segunda. Lembrei nada: mandei procurar no Google. ;P


Lapsos à parte, era uma noite como várias outras: futilidades passeando, vícios trabalhando, eus alheios serpenteando. Escravos das simbologias, das sensações, de mais uma noite em que se encontram presentes só por causa de certas pessoas. Um oceano de insights manufaturados. E a lua piscando pra mim, sentado em cima da mesa de mármore. Perguntas existenciais insolícitas e não solicitadas. É nessas raras horas em que percebo a utilidade do artigo definido. Eis. A presença de mãos dadas com a redundância de que tanto sou escaldado. Presença que não vem. Ausência presente. Centenas de ausentes em frente ao palco ora à minha frente, ora atrás de mim. Nada de mais, nada de menos. Ainda estou pra entender o que leva tanta gente a perder tempo com noites de Segunda. O que entendo é que ninguém me entende, essa multidão irreconhecível de sempre. Mas, como disse, foi só uma noite de Segunda: não há o que se concluir. Do corredor vim, ao corredor voltei. Após ser revistado, fazer o que. Hora de inverter a questão, Shakespeare. Digo, inverter a tradução: estar ou não estar?

Mais uma vez, a última vez, somente a primeira? Essa é a vantagem-mor dos cometas: eles têm hora pra ser, acontecer. Uma certeza do universo. Certeza de períodos que compreendem décadas, aindassim certezas. Na ausência de cometas, teorias de reconhecimento abaixo do mensurável. Tese sobre o volátil. Hipótese sobre o visivelmente estático. O caos pra expulsar momentaneamente a calmaria. E pra acasificar outrem. Desacasificar é preciso*? É preciso se acostumar com a ignorância do acaso e desacasificá-la. Paradoxal, mas fato, por assim dizer. Redundâncias parecem desacasificar ao mesmo tempo em que acasificam em escalas maiores, menores, que, enfim, dificultem considerações imparciais. Bagunçando mais uma vez a tradicional tradução shakespeariana: ser ou não estar? Estar ou não ser? Responda essa, Hamlet! Se bem que eu sequer sei responder mais a relação entre os dois posts de Julho a partir de agora... :P


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* Neologismos: acasificar [acaso+i+ficar]; desacasificar [des+acaso+i+ficar]

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

Coisas que deveria ter dito há mais tempo. Respostas que teria ouvido há mais tempo. Acusações:

_ Não se faça de vítima! Você sabe que deveria ter...
_ Eu não estou te reconhecendo! É como se só ele tivesse essas (pseudo)cobranças...


E assim passamos os dias, irreconhecíveis. Não é à toa que, quando se encontra alguém que não se vê há anos, a fatídica frase é proferida:

_ Nossa, você está irreconhecível!

Valeu a pena ter dito aquilo? Falar de coisas que já foram quase sempre são perda de tempo. Esclarecimentos, orgulhos, impulsos, presenças... o que ao certo nos faz dizer tais coisas? Como se percebe, detesto redundâncias. Mas muitas delas parecem fazer bem às pessoas. A vida se constitui de 90% de elementos de redundância, mas mesmo assim fazemos questão, mesmo que não admitamos, de participarmos destas. Eu, teimoso, orgulhoso e caprichoso que sou, tenho a arrogância de tentar seguir meus dias obedecendo à lei do menor esforço. Obviamente, não chego nem perto de ter sucesso. Dá a impressão de que ninguém tem medo de redundâncias e lugares-comuns, e que só eu temo tais coisas. Mas aí caio na real e tento evitar o umbiguismo generalizado.

Em compensação, há coisas que estou deixando de lado. Mas mais de uma pessoa já me disse ser sem graça eu ficar, assim, inerte, parado. Mas já estava me esquecendo de como me parece bom ficar assim: sem ninguém se mostrando um peso em sua cabeça é maravilhoso! Espero não estar me enganando, mas quero continuar assim por um bom tempo. As atitudes das pessoas batem de frente com as minhas de vez em quando. Para quem insiste em idealizar as coisas como eu, isso pesa. Elas sempre me decepcionam sem perceber. Hum, já escrevi essa frase antes. É por isso que não preciso e nem posso ter pressa quanto ao próximo. Esperanças me entorpecem perigosamente. É como disse agora há pouco: tenho a arrogância de tentar seguir meus dias obedecendo à lei do menor esforço. Sim, percebi minha redundância. E percebi também que, em meio a tanta coisa que volta e meia me encontro me permitindo, tem coisas de que só me darei conta quando, voluntariamente ou não, abrir mão da lei do menor esforço.


Aiai, tenho livro pra terminar de ler, bomba de Teoria pra pegar à noite e trabalho que requer texto que não tenho em mãos. Há! E por pouco o Blogger me faz perder esse post. Por pouco...

sábado, 20 de novembro de 2004

Esquecer de tudo. Lembrar do que estava esquecido. Centrar. As coisas são multilaterais e dificultam centralizações. Descentralizar é mais eficaz. Para o todo. Para o eu, não digo o mesmo. É lendo o que desapercebemos que percebemos o que lemos. Em meio a tantas leituras, ler é só mais uma leitura. Centrifugada nesse fluxo doido que as coisas tomam ao redor. Ao redor de prioridades que nem sempre priorizamos. A priori, tende-se a resignar-se demais. A prioridades não priorizadas. Priorize o 'a' que inicia a última frase: não é um artigo definido!

sexta-feira, 19 de novembro de 2004

Drops

_ Cara, se você perder essa partida, te recomendo seriamente desistir do carteado!
[o cara estava tão convencido da merda de jogo que tinha em mãos que fez questão de terminar o jogo fora da sala para minimizar a repercusão de sua acachapante derrota]

_ Sersup, que raio de filme é esse? Desde quando alguém perde tempo na poeira das prateleiras de VHS alugando Maça elétrica?
_ É laranja mecânica, ô cabeça!
[mais uma vez meu irmão com suas idiotices risíveis...]

_ Bora jogar uma partida?
_ Pega o baralho!
[trinta segundos depois]
_ Ei, ei, ei! Podem guardar isso aí! Ainda estamos na minha aula! Depois vocês jogam truco!
_ Ela disse truco?

[eu devolvendo os filmes]
_ Porque você pegou VHS desse aqui? Estamos fazendo versões em DVD dos clássicos...
_ DVD? Hmm... chegou essa semana?
_ Não, semana passada.
_ Eu mereço mesmo! Levei pra casa esse tijolo de látex e ninguém me avisa de que podia encontrar versão digitalizada do mesmo filme... perdi extras!
[depois de receber potencial cantada da atendente, vou pra aula]

quarta-feira, 17 de novembro de 2004

É uma noite silente e receptiva. Termino de assistir a um dos filmes que alugara para antes do feriado, como alguns cereais com leite e, sentado à cadeira, a calmaria de uma casa dormindo passeia por entre os cômodos, por vezes trombando na madeira estalando no vizinho ou na cômoda do quarto. Lembro-me dalgumasanotações dentro da apostila e começo a postar, sentindo algo passível de consideração formigar por entre os dedos. Lá vai, então.


Antes não via sentido em explanar. Mas, no estágio atual em que me encontro --- mais ao controle e conseqüentemente mais indesejadamente a par das coisas --- , uma tentativa de flashback se faz necessária. Com um diferencial: não sei quando terei outra chance, se vier a tê-la. Segundas chances são ordinais, mas não precisam ser: não há ordem na ordem natural das coisas. Não tenha a pretensão de acreditar que o equilíbrio relativo a ti pode rapidamente se basear em meras listas. Como eu disse, não há ordem na ordem natural das coisas. Boa parte de nossas vaidades e orgulhos de fado são álibis perfeitos. Nem tudo é perfeito, e sempre faltam álibis perfeitos pra crimes perfeitos. Nunca dizer nunca é o estandarte dos otimistas. Sempre dizer sempre deve ser tomado como estandarte dos pessimistas? Nunca dizer sempre ou sempre dizer nunca? A primeira diz alguma coisa para você?

Já se está condenado quando se penitencia a pensar sobre ene possibilidades fictícias de chances desperdiçadas. Mas o que garante que a oportunidade se tratou de uma chance propriamente dita? Temos uma visão de mundo sob rédeas e esquecemos de aplicar a amplitude sobre as concepções. E pensar que a amplitude explicita um ser que pensa demais e que já se encontra acometido por seu excessivo pensar. É como fitar um horizonte: pode se ter milhares de quilômetros quadrados bem em frente a seus olhos, mas que fração dessa área seus olhos conseguem reter? Em todo caso, alerte-se e perceba-se sempre retido no horizonte de outros. Seja lá o que você venha a representar no horizonte alheio, não negue essa criação ilusória conjunta de cinco sentidos que, ilogicamente, faz sentido ao próximo. Não se negue, se integre. Sei lá ao que você vai se integrar; não sou integral pra te responder isso! Mas, integralmente, respondo que perguntas e respostas são ambos, muitas vezes, perda de tempo! Peguntas e respostas contêm e estão contidos mutuamente, sendo parte e todo de uma unidade que creio não ser pergunta nem resposta. Ou seja, esse binômio presume ações e reações que quase nunca precisamos presumir. A curiosidade parece --- eu disse parece --- se impôr como uma rara exceção à última frase.

Somos muita coisa sem sabermos: podemos ser, mas somos o que podemos ser sem sabermos, enquanto somos o que deixamos de ser sem nos admitirmos preparados para esse suposto súbito ceder. Sendo assim, sucedemos antes de obtermos os sucessos. É como se viver fosse uma confirmação. Certa vez ouvi que, quando pedimos uma opinião, o que queremos, inconscientemente, não é a opinião do outro, mas sim uma mera confirmação. Tememos únicas chances podendo estas, na verdade, se tratar de mera confirmação? Cara, como somos desprezíveis: tudo possui seu comando, esperando um OK? Círculo vicioso ou integração implícita? Num outro momento, ouvi também que filósofos não passam de oportunistas. Ouvi isso após me contarem sobre uma lenda em que o sábio e o ignorante estavam andando juntos numa mesma estrada. Como me falham os detalhes, já se justifica aqui qualquer furo na história. Pois é, os dois andavam juntos pela estrada, até que se viram perante uma bifurcação. O ignorante escolheu o caminho da esquerda de pronto, sem pensar duas vezes. O sábio o alerta que o caminho escolhido será seu calvário, e que o ignorante deve evitá-lo. O ignorante, não vendo o porquê de o sábio saber do porque o caminho não ser recomendado, ignora o conselho deste e percorre o caminho que escolhera. Ele perece em sua escolha e não consege voltar. Após isso, o sábio prossegue são e salvo pelo caminho da direita, como que esperando pela confirmação. Prefiro não tomar partido quanto à frase sobre os filósofos que ouvi; contudo, isso me faz lembrar de uma coisa que o pai sempre falava quando ele verificava que eu me esforçava em vão em alguma tarefa: a lei do menor esforço (Lei esta que orienta toda as línguas). Não se esforçar para realizar alguma coisa enquanto o momento mais propício para esta não chegar. Frase muito cabível para quando eu era incumbido de carregar objetos pesados, por exemplo. Frase bem conhecida dos astronautas, aliás.

Limitar-se ao esforço minimamente necessário ou se exceder? Depende da abrangência de seu egoísmo. Sim, você é egoísta. Eu sou, todos nós somos. Bando de imprestáveis a gente, não!? Não, não adianta negar: você tem um ego, não tem? Portanto teu egoísmo está lá! Quais as intenções de seu egoísmo enrustido: benignas, malignas, indiferentes? Descubra-as antes que se veja tentado a descobrir uma desejosa (!) ausência do mesmo egoísmo. Menos é mais e mais é menos? Menos é mais ou mais é menos? Mais e menos e mais ou menos? Mais ou menos ou mais e menos? Dosar, dosar, dosar: o mínimo é exagero e o exagero é o mínimo a se fazer às vezes. Antônimos de mãos dadas. Sinônimos separados. Essa realmente é a hora de opostos se atraírem? Ou seria hora de isso acontecer com os iguais? Com essa porrada de perguntas que não levam a lugar algum, parece até que eu estou reforçando a idéia de que filósofos realmente são oportunistas...


Oui, oui, c'est tard... bonne nuit!

sábado, 13 de novembro de 2004

Meninas, nem percam tempo lendo esse post. Inacessível a leigas... :)

Coisas que só mesmo no Orkut eu encontro... na noite passada estava falando com Tigrão sobre videogames. Mais de hora só com os dois marmanjões falando de Snes e outros monumentos tombados dos tempos do videogame-arte. Coisa linda. Já ouvi de tudo em minha carreira gamemaníaca: combo infinito no KOF, Luigi no SM64, Guile sacando metralhadora em SF2... mas nunca tive acesso à gambiarra de se fazer fichas caseiras. Agora posso afirmar veementemente: já vi de tudo nessa vida gamemaníca!


STREET FIGHTER DE RODOVIÁRIA (923 members)

Topic: Fichas FALSAS! E outros jeitos de jogar gratex


Quem ja nao fez fichas falsas ou teve vontade de fazer? Pqp.. eu era mestre em jogar gratex...

Roubava os chumbinhos das rodas de carro (as 2 da manhã quando a rua era sossegada), e no outro dia fazia fichas falsificadas:

Existem basicamente 2 metodos:

1 - Amassar o chumbinho com martelo e recortar em circulo. Essa ficha fininha as vezes entalava no sensor e dava creditos infinitos huahaHAUahaueIAE

2 - Esse processo eh mais complicado, mas fica perfeito. Pega o chumbinho, derrete (no fogao mesmo) e jogar o chumbo derretido no molde (que ate hoje eu tenho). No auge, eu ia pro shopping com umas 150 fichas e ficava o dia inteiro HIAhueOAIehaiA


Ah.. eu ainda tenho uma chave das maquinas de shopping que abre 90% das maquinas! Uma vez abri a maquina, peguei uma porrada de fichas e fui vender na fila HiahuaIAHEUa



Como sabia que nenhuma de vocês resistiria a uma lida... tá, reconheço minha presunção, mas pelo menos agora tá confirmado que vocês não agüentariam de curiosidade. Titulos como o que usei acima sempre funcionam como psicologia reversa. Sim, Sersup será pra sempre essa criança que atrofia os globos oculares perante uma tevê emitindo imagens de jogos. Podem rir à vontade, meninas: Sersup não liga! Esse blog é tipo programas do Silvio Santos: tem o "auditório mais feminino do País". Só calcinha comenta por cá... :P

quarta-feira, 3 de novembro de 2004

Textos que não precisava ter postado e que só não apaguei por sorte (ou azar, faça a sua escolha)


Tentando voltar ao normal. Tentando buscar a paz de espírito de antes. Se é que ainda sei o que seja isso. Distancio-me, mas dessa vez não é por me sentir limitado, mas sim pra não perder tempo com algumas coisas intrigantes. Insistem em me dizer que (não) é perda de tempo. Mas meu orgulho diz que sim. Minha esperança é quem diz que não. Em meio ao fogo cruzado, me isolo na certeza de que as coisas parecem se tornar desnecessárias quando elas se tornam uma idéia fixa cuja constância só te agoniza e te corrói por dentro. Carecemos de mais cumplicidade e de menos álibis.

Tem tanta coisa pela qual passei por cima para obter tantas outras que anseio ansiosamente, que chega um momento em que é de se perguntar aonde isso vai parar. Estamos constantemente passando por cima de coisas que gostaríamos de evitar sempre, mas essas coisas se acabam. Muitas coisas são finitas, e as provações hão de ser uma delas. Me deixarei barrar perante uma delas? Não é hora, digo a meus botões. Estás recuando, ouço de resposta. E aqui chego à conclusão de que idéias fixas nos fazem muito mal: tudo no cotidiano se desenrola normalmente, com poucas coisas pra me frustrar, mas basta uma idéia fixa pra te distrair e te fazer ignorar toda a beleza da pequeneza do restante. Eu quero é voltar a me engrenar no mecânico cotidiano sem efeitos colaterais: sem saudades, culpas, arrependimentos, aflições... tudo isso o cotidiano nos traz vez ou outra, mas quando isso é proveniente de um lugar só, de uma idéia fixa apenas, percebe-se como a erva daninha age cobrindo o resto da paisagem.

Cansei de distrações. Cansei de pensar demais nas pessoas. A companhia de algumas delas me está causando estranheza, uma vez que ambiguidades, ou algo que talvez desconheça, sempre me deixam desconfiado. Meu desapego devia mitas vezes se estender a elas, e não a coisas diversas. Mas não é o que acontece, e me contorço à toa, como sempre. Tudo que faço agora é me afastar das parasitas imagens correndo pelos tubos catódicos de tola imaginação. Sinto estar melhor assim, enfim. Vá saber...



Tentei digitar esse troço por umas três semanas ou mais, mas não serviu. Ficou nada a ver, horrível! Fora o post sobre atualidades que acabei de destruir. Bom, pros próximos dias devo ficar sem colocar coisas novas. Felizmente, eu sei. Uma bomba me espera na prova de Segunda, precedida por um seminário a qual ninguém prestará atenção no que quer que eu vá falar. Fora a reunião de Sábado (F.H. vai tentar, cara; tinha certeza disso. Eu já sabia, como diriam os linguarudos), os livros que tenho de ler pra prova e os dias mornos que prometem vir...

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

Estatísticas bloguísticas

_ 100% de quem tem blogs não fala coisa com coisa. Quer dizer, essa é a impressão que muitas vezes passam quando caem na besteira de falar em vez de postar.
_ 92% são dramáticos. Hipérboles são palavra de ordem
_ 75% dos que criam blogs o deletam em menos de seis meses. Esses 75% são os mesmos que facilmente burlam qualquer uma dessas estatísticas.
_ 69% são sarcásticos em diferentes níveis
_ 58% têm graus de introspecção acima da média
_ 58% camuflam suas introspecções com atitudes contraditórias, quase sempre evidenciadas em seus posts. Quando não evidenciadas, omitidas.
_ 50% são nostálgicos.
_ 5% deles, como estou fazendo agora, gostam assumidamente de rotular de vez em quando. Inversamente proporcional a isso, 95% não admitem gostar de estereotipar de vez em quando.


Estatísticas demográficas

Como saber se alguém mora em Vg

_ 100% têm gatos e lêem Bukowski. Com direito a perfil no Orkut dedicados aos gatos, óbvio. :P
_ 75% ouvem Loser manos.
_ 72,1% gostam de montar bandas alternativas, de garagem
_ 70,25% do que os blogueiros de lá escrevem não faz o menor sentido. Bom, pensando bem, talvez isso não seja algo característico apenas dos blogueiros de lá. ;)
_ 63,32% são chegados em produtos culturais alternativos, como filmes de diretores iranianos e bandas inglesas que ninguém conhece.
_ 50% gostam de contar lendas urbanas, como vacas andando pelas ruas, por exemplo.
_ 35% deles se perdem esporadicamente ao tentar achar o caminho de casa.
_ 25% de quem se perde na malha urbana de Cba, invariavelmente, vai misteriosamente parar em Vg. Aconteceu comigo ano passado (vide post): quase fui parar na BR! acredite se quiser!


Como saber se alguém mora em Cba

_ 90% dos veículos possuem alguma avaria grave, como eixos entortados ou peitos de aço soltos. Quem se gaba de participar de Rally é porque nunca andou no Centro da cidade...
_ 42% estão incluídos em tribos urbanas, como clubbers, góticos, fãs do Tolkien e outros aglomerados de manés jovens de curta duração cujo habitat costumam ser shoppings.
_ 35% deles, ao voltar pra casa, perdem mais tempo tentando entrar no próprio bairro do que todo o resto do caminho até este.
_ 6,875/m2: taxa de acidentes de carro nas ruas. Parece número de país em guerra, mas esse é o cottidiano.
_ 125/m2: eis a concentração de manés que cultivam mullets em colégios salesianos da cidade. Haja cabeleireiro
_ 225/m2: concentração de tênis All-star em colégios particulares.
_ 32,758/m2: concentração de gente anormalmente feia nas ruas do Centro
_ 53,55/m2 e subindo: concentração de idiotas e medíocres em geral


Como saber se alguém nunca pisou em uma das duas cidades supracitadas

_ 99,95726341% perguntarão se tem muitos índios andando pelas ruas, e o que o Centro de Controle de Zoonoses faz a respeito dos crocodilos perambulando pelas presumidamente pantanosas ruas.
_ 99,998765436831% perguntarão se aqui faz muito calor. Espere esse tipo de pergunta até de quem é nativo do Saara.
_ 99,1273532608% perguntarão se falamos algum dialeto xingu, coxiponés, tupi-guarani ou guaicuru.
_ 86,54% ainda acham que o Estado nunca foi dividido. Igual porcentagem pode ser atribuída aos idiotas, que insistem na divisão do Estado, que nunca na vida pisaram nesta terra de extremos.
_ 82,12% perguntarão se você é filho de fazendeiro. Sabe como é, agronegócio e tal...
_ 79,37% perguntarão se o povo daqui é muito boçal. Esses obviamente nunca pisaram em Rondonópolis. Nem em São Paulo, pelo que se vê...
_ 73,46% falarão contigo apenas por linha fixa, já que presumem que celulares aqui não possuem cobertura. Mentalidade de metrópole para com colônia, sabe como é o estereótipo feito pelos outros, né...
_ 72,125% perderão tempo fazendo a capciosa pergunta: como é a vida noturna cuiabana? É preciso cuidado com a resposta... uma vez que metade das festas legais os promoters sequer perdem tempo tentando realizar aqui, preferindo locais interioranos como Chapada.


Recenseamento. Realmente tá me faltando o que postar... :/

quarta-feira, 20 de outubro de 2004

_ Diz alguma coisa, Sersup!
_ Pra quê?
_ O que você fez no dia xis?
_ As pessoas perguntam demais, não é mesmo?
_ Responda, porra!
_ Ei, ei, devagar aí. O que mais as pessoas buscam nas outras é atenção. Dou isso de sobra. Eu me acostumei apenas a buscar a desatenção de outrem. Sempre fui audiência para a solidão. Isso não se muda da noite para o dia.
_ Tenta em vão buscar minha desatenção. Quero agora que busque o antônimo disso!
_ Pra quê? Por educação?
_ Por consideração!
_ Considerando-se o quê?
_ Que... que... que...
_ Percebe? Sou desinteressante. Não consigo jorrar de uma vez só meu eu pra você. Mas posso fazê-lo aos poucos. Tudo a seu tempo.
_ Pra quê esperar?
_ Pra quê não esperar?
_ Nem tente me enrolar invertendo minha pergunta! Você tem algo que insiste em guardar?
_ Pergunta capciosa, não?
_ Desista. Não encontrarás desatenção em mim!
_ Não é somente isso que procuro nas pessoas, sabia?
_ Eu sei! Seu silêncio incomoda...
_ Muita coisa me incomoda. Tenho somente o silêncio para abrigá-las.
_ Não tens somente isso. E sabe disso!
_ Não tenho certeza disso...
_ Você tem, e está dizendo isso pra tentar me despistar. Vamos, o que há contigo?
_ Mais uma pergunta capciosa... tente descobrir isso com meus escritos. Não sou tão hábil pra falar quanto pra te enrolar escrevendo essas linhas.
_ Você vai mesmo se deter quanto a isso, não é mesmo?
_ Não há o que fazer.
_ Está recuando. Eu não sei porque, mas você sabe.
_ Recuando de quê?
_ Eu perguntei primeiro!
_ Estou tri...
_ Resposta mais objetiva, por favor.
_ Estou... estou... eu... contava com a possibilidade desde o início, mas... porquê comigo?
_ Como sempre, vago. Imagino seu enrubescer nesse momento...
_ Cara, isso soa tão egoísta. Porque tanta coisa suplicia apenas a mim? Quero evitar entrar no mérito do merecer, mas... vou continuar evitando!
_ ...
_ ...
_ Somente (a)ten(s)ção paira aqui.
_ Seria indiferente eu dizer mais.
_ Nesse caso, dizer mais não estragará nada!
_ Eu evito tanta coisa, ajo da maneira mais impecável possível, pra descobrir no final...
_ Descobrir o quê?
_ Descobrir... que, às vezes, pareço não perder nada me isolando hermeticamente como de praxe...
_ Queria ter algo a dizer, e não é seu jeito vago de falar que está me impedindo.
_ Isso é ridículo. Tipo um sucesso frustrado. Uma frustração de sucesso.
_ É melhor parar com as antíteses.* Só está aumentando minha confusão.
_ Dá a impressão de que sou propenso a decepções em certos quesitos. Algumas sensações de propensões até que já deixei pra trás. Mas outras...
_ Incrível! Chegamos até aqui pra você não ter falado uma vírgula que fosse do que está te acometendo!
_ Tem algo me acometendo?
_ Responda-me você.
_ Não, não tem.
_ A negação normalmente é a primeira fase do processo de se extirpar as contradições.
_ Extirpar as coisas... não sei se me faltam ou sobram contradições.
_ Se você não sabe, imagina eu.
_ Eu sou um projeto de gente. Meu desapego às coisas cresce perigosamente e pareço não fazer nada quanto a isso.
_ Você deve ter motivos para isso, mas nada que aja individualmente, talvez.
_ Estou cansado das pessoas. Elas parecem fazer questão de me enojar às vezes.
_ Te enoja ser um ser social?
_ Me enoja ser um subproduto dos boçais a meu redor.
_ É, isso me enoja também.
_ Vontade. Me falta muito isso. Mas não é só isso: me falta coragem também. Por mais que me esprema quanto a esta última, não é suficiente. Preciso de mais coragem pra ser eu mesmo. Mais coragem pra admitir a ignorância e a humanidade do que penso.
_ Não se preocupe. Isso falta a todos. Você pelo menos percebe isso em si.
_ Queria não perceber. Santa ignorância!...
_ Tente ao menos não ignorar seu modus essendi.
_ Tentar. Se minhas decisões fossem apostas, precisaria de mais fichas urgentemente!
_ Ainda não soltaste uma linha que fosse do que está acontecendo contigoooooo...
_ Tudo a seu tempo...
_ Pra quê esperar?
_ Pra quê não esperar?
_ Acha mesmo que cairei em círculos com teu papo-furado novamente?
_ Tô de saco cheio hoje, sabe? Dor de cabeça, aula em jejum, irritabilidade... me deixa, vai!
_ Mesmo que você não estivesse assim...
_ Quero que me es...
_ Quase, quase... desembucha!
_ Talvez um outro dia. Preciso de um tempo.
_ De quanto tempo mais?
_ Não é o tipo de tempo que costumamos medir com relógios, sabia?
_ Sersup, Sersup, que faço contigo, hein?
_ Mais fácil desfazer...
_ ...
_ Fico a me questionar, quando não a me limitar a observar, sobre como as coisas acontecem. Como elas deixam de acontecer. Como fico inerte a elas. Como tudo muda quando tento agir frente a uma suposta previsibilidade. Nem sempre são as pessoas quem me decepcionam, mas o que as traz ou deixa de trazê-las até mim. Quero ser mais simples e não consigo. Simples dificuldade.
_ Anda melancólico esses dias, não?
_ Eu quero passar por cima de tudo. Não no sentido de tirar vantagem, mas de me manter sereno frente a tantas fatores de desorientação. Consigo quanto a algumas coisas. Mas e se estiver errado? E se somente acreditar ter passado por cima? E se, mesmo tendo passado por cima, sentir ainda ter algo pendente e não poder voltar atrás?
_ Só saberá passando por tudo isso. Mas certezas antecipadas, não.
_ Não quero cometer o mesmo erro. Eu sei como pesa errar perante o mundo. Errar perante uma pessoa dói muito mais. Se omitir, se deter, se desvanecer perante todo um viver que poderia ter sido mas não foi.
_ Agora estamos chegando a algum lugar...
_ Porque me fazes remexer nessas coisas?
_ Ora, porque...
_ Bom, até a próxima. Tenho que ir agora.
_ Mas...


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* Se não consigo nem parar com as reticências, que o diga parar com figuras de linguagem (vide post do mês passado: Parlent dans les doigts). Esqueça a razão de alguns dos posts do BR: a falta de razão talvez te diga mais do que uma carência de coerência. Enfim, é uma daquelas épocas em que posto desbragadamente por razões razoáveis apenas a mim. Sensação de que escrever é preciso. Mas também não exageremos. Como fiz dessa vez. Hora de me conter mais...

terça-feira, 19 de outubro de 2004

Drops

_ Aí eu digo que irei lá mas irei pra ali.
_ Mas isso não é uma mentira branca, tá mais pra marrom!
_ É, não preciso fazer isso...

_ Olha que menina prestativa: não me fez me deslocar à toa até lá pra buscá-la nesse calor...
_ Putz, nem me lembrei.
_ Agora fiquei mal-acostumado...

_ Mas eu não quero ser o Ranger branco!*
_ Lá vamos nós de novo...
_ O Ranger branco era o Tommy! Um mano! Tu é mina! Percebe a discrepância?
_ Pra quê relevar isso...?


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* Vide post do final do mês passado.
Decifra-me ou te devoro Sem decifrar-me já me devoras sem perceber


Me dilaceram por dentro e nunca percebem! Violam meu estado de espírito e nunca percebem!! Roubam minha liberdade de expressão no BR e, ainda bem, nunca percebem!!! Cerro os olhos, uso a coberta como trincheira, mas os ataques começaram muito antes d'eu tentar qualquer postura retaliativa. A manhã te expulsando da cama. O mundo descobriu seu esconderijo. A decepção deve ser camuflada a qualquer custo. A qualquer custo se quer se parecer invisível ao mundo, mas inventaram o Gps pra não te deixarem um minuto que seja em paz. E o irônico é que sequer precisam do aparelho pra te afrontarem: é uma onipresença coletiva da qual somos vítimas. De baixas constantes. Só me fodo em alguns quesitos, no sentido indecente da palavra mesmo.

Sentirei falta dos tempos em que poderia vir até o BR, vomitar um monte de dores-de-cotovelo e ter a certeza de que ninguém ia ler mesmo. Cativar alguns leitores pingados tem sempre seu preço. Mas estou disposto a pagar certas coisas. Estou indisposto é tomar no esfíncter retal* por coisas em que não exerço influência alguma (ou assim penso). Causa e efeito cujo efeito só atinge a você. Mas já devia estar acostumado a isso, sempre repito aos meus botões. Poucas coisas me acompanham com fidelidade canina, sem nunca me decepcionar. Tenho dedos suficiente para enumerá-las, mas insuficientes pra contar as pedradas dos outros. Em suma, é como disse numa outra vez: sempre pago o preço por ser assim. Sempre!

Os apelos da minha imagem sempre me condenam. E, claro, sobra pra mim ser condenado pelas imagens alheias. Não estou em deserto pra ser enganado por miragens, mas a aridez das desapercebidas ingenuidades circunscritas a nós nos atolam em esperanças** que nunca existiram. E isso, para um nicho considerado extinto da sociedade, nicho este à qual me encontro incluso, dói. Não bastasse a dor da verdade, este nicho tem também de resistir às dores da imagem. São cenas, enfim, que quero apenas esquecer, mas que sei estar me enganando ao desejar isso. Antes de escolher com qual pé acordar, lá estavam elas, atuando como ingratos instrumentos de sadismo em meu patético imaginário. É como se... bom, agora me dêem licença que tenho mais o que fazer. Não combina comigo ficar me sentindo um nada e ficar cutucando isso como a um corpo na rua.


Talvez num outro post continue a escrever sobre isso. Ei, não precisa fazer essa cara de muxoxo do outro lado do monitor, eu disse talvez! :P


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* Aprendi essa com um amigo que faz Medicina...
** A medida de curiosidade, vide post sobre o esperar, do mês passado
Dinheiro é algo repulsivo. Com o meu, sempre tendo a esquecê-lo num canto, numa economia indireta, e a gastar apenas com o que lembro ainda ter. Porque não tenho com o quê ou com quem gastar. Nada se apega a mim. Não me apego a muita coisa. Sou lisíssimo. Minha discrição inata me impede de me apegar à muitas coisas. Sou meio distraído: tem vezes em que empresto alguma quantia e só me lembro de que o fiz quando recebo a quantia de volta. Até que me orgulho um bocado dessa minha indiferença quanto às nefastas cédulas coloridas. Modismos e futilidades solem passar despercebidos por mim. Gosto mesmo é de roupa velha, tênis surrado, objetos velhos, enfim, coisas às quais o tempo já tenha se encarregado de dar certa personalidade, certo simbolismo, certo status de ícone. Se ligasse pro cascalho, com certeza não estaria fazendo Letras. Mas com muita gente ocorre a ilusão de considerar o dinheiro como profilaxia para quaisquer percalços futuros. Há muita coisa que não encontrarei em vitrines para comprar. Há coisas pelas quais, indiretamente, posso obter essas primeiras coisas que não encontrarei em vitrines. Mas prefiro tentar encontrar as coisas de valor a meu redor. Quantificar agrados não é ético.

Dinheiro produz bolhas. Produz o evidenciar de várias insuficiências que levam aos atos mais mesquinhos. Ter muito dinheiro tem seu preço. E não me refiro a impostos. É um preço a se pagar intrinsecamente por quem o possui. Se quantificar agrados não é ético, isso não conota admiração por avaros da minha parte. Conota encarar um pedaço de papel pelo que ele é: um pedaço de papel. O caldeirão do que se está no papel e o que não está nos faz abstrair conceitos e a conceituar abstrações. Aonde vai chegar essa profusão ditatorial de letras impressas? Já não basta sermos números para empresas que nos tratam feito idiotas? Já não basta sermos questionados por perguntas incoerentes escritas por mãos presunçosas por trás duma folha? É preciso se bastar, a meu ver. Se considerar suficiente perante os egoísmos que insistem em trazer insuficiências. E é por isso que detesto supermercados e aquelas prateleiras meticulosamente dispostas de modo a te fazer gastar mais com coisas que ninguém precisa. Me preocupo demais com o essencial a ponto de ficar agoniado quando ao redor daquele monte de alimentos dispensáveis que brincam com sua auto-estima, se utilizando daquelas propagandas coloridas cheias de ideologias vazias.

Percebe-se que dinheiro bloqueia as pessoas em certos aspectos. Quem nunca comprou alguma coisa levado por algum impulso acéfalo proveniente de uma vontade inexplicável de obter tal produto desnecessário? Não, não sou um cofrinho ambulante. Mas me bate uma culpa ver que aquelas notas em minha carteira são responsáveis por toda uma cobiça viciosa da parte dos outros. Números parecem ter como função latente nos deixar na lama. Nos demonstrar como menos ou mais. Como se se fosse parte de uma fria equação do segundo grau: um mero número incógnito, um mero subproduto de uma grande abstração de resquícios feudais. Algo que parece preceder vários outros preconceitos: antes dos étnicos, dos etários, dos de opção sexual, dos ideológicos... todos estes preconceitos estão contidos nas pessoas, mas o preconceito monetário está impresso em papel, assim como o valor com que as pessoas nele impregnam. Não é à toa que, entre outras razões, a última coisa do mundo com que me preocupo no momento é em relação a dinheiro. Hum, ia concluir esse post com uma frase de efeito, mas como esqueci do que se tratava a frase, fico por aqui mesmo.

segunda-feira, 18 de outubro de 2004

Antíteses

Tristes felicidades conseqüentes. Belas feias atitudes. Pequenas grandes coisas.

Rápidas lentas transformações. Boas más notícias. Indeferimentos deferidas na moita.

Dependências independentes do alheio. Ignóbil pensar sentido. Tudo nada...


Antíteses se limitam a ser um quesito estético na escrita? Queria que somente isso fosse, às vezes. Exclamações ora interrogadas. Escritos deléveis ao que já foi escrito. Gostar desgostando, perguntar respondendo, consertar estragando, resistir cedendo, desentendimentos entendidos.

quarta-feira, 13 de outubro de 2004

Estatísticas...

_ 100% das principais leitoras do BR são leoninas.
_ 75% de meus CDs são piratas.
_ 70% do tempo que dispendio usando computador, atualmente, é sem mouse. É nisso que dá usar uma banheira velha pra navegar na web: ter de se virar com o teclado pra alcançar os links, ter que constatar que a placa de som parou de funcionar há menos de duas semanas, e ter de se contentar com o buffer insuficiente para os emuladores. Só não dou tchibum na banheira porque nenhuma das outras banheiras do escritório têm placa de vídeo funcionando.
_ 55% de meus pertences remetem à nostalgias.
_ 50%, pelo menos, do que digo é redundante, desnecessário e totalmente inútil, mas assim sou forçado a proceder no cotidiano. As pessoas subestimam o poder da auto-sugestão e dos silêncios.
_ 40% das pessoas daqui de casa são aquarianas. Inversamente proporcional a isso, pelo menos 60% do que elas falam se inicia com uma pergunta. Cara, isso me tira do sério um tanto...
_ 39,2% dos posts que digito requerem cuidados especiais: volta e meia tem algum olho gordo aqui em casa tentando ler clandestinamente os posts do BR. Preciso estar sempre alerta.
_ 1/3 de meus dias passo dormindo, como todo mundo. Em termos, pois pelo menos 1/3 desse 1/3 fico inquieto e pensando em coisas necessárias para proporcionar cansaço mental o suficiente para eu desistir de ficar acordado e finalmente dormir. Dos 2/3 restantes disso, 1/4 é eventualmente desperdiçado com a tentativa de ignorar os ruídos externos.
_ 22,5% de meu tempo dedico a fazer algo, o que quer que seja, totalmente sozinho. Nem que seja pra não fazer nada. Mas às vezes prefiro fazer nada de forma egoísta, e me porto sozinho nesses momentos. É que penso demais em 77,5% do restante do tempo. Os 22,5% são necessários pra evitar perguntas alheias, pra auto-esclarecimentos ou tentativas de obtê-los, e pra evitar posts desmedidos no BR.
_ 21,25% de meu tempo dedico a tentar não pensar em nada e ninguém. Apenas em mim. Esvaziar essa mente entulhada que é a minha. Nem sempre dá certo. Mas é preciso tentar. As coisas me preocupam demais. Mas a tendência é isso diminuir.
_ 17,5% apenas dos textos que digitei nas últimas duas semanas viraram post no BR.
_ 12,5% das pessoas a meu redor são toleráveis. As outras 87,5% perdem tempo demais com seus umbiguismos, superficialidades e panelinhas.
_ 10% pra cima do que digito é apagado sem dó, sem sequer ser postado no BR.
_ 23,3% desses números são fictícios.
Coisas na língua portuguesa que ouço e que sempre fazem renovar minha surpresa por essa linguazinha de tantas facetas


"Uma conversa longa, curta e grossa." (ouvi hoje do Lorão)
"A Holanda é o primeiro país a oficializar o casamento de homossexuais do mesmo sexo" (ouvi na Tv)
"Vou lavar as mães" (ouvi bastante essa aqui em casa)
"Navio brasileiro entrava navio inglês"
"Vou primeiro que você" (dá pra ser mais primeiro do que o primeiro supracitado? Eis uma das frases batidas da língua portuguesa que mais me encucam)
"É brincanagem comigo!"
"É um sujeito ideiota" (leitores mais antigos do BR perceberão que já postei essa antes)
"Do que eu mais gosto de comer? Sou um ser tudívoro: traço tudo!" (onívoro foi devidamente aportuguesada através do neologismo dessa frase)
"Mas tem uma coisa que apenasmente eu tenho: é chalme" (também ouvi na tv)

terça-feira, 12 de outubro de 2004

BR também é cultura (inútil?)


O grupo O Cavaleiro Azul -- Der Blaue Reiter, nome vindo de uma pintura de Kandinsky -- sucede A Ponte (Die Brücke) em 1911, levando consigo alguns de seus integrantes, como Karl Schmidt-Rottluff. Enquanto que A Ponte é um núcleo de jovens que tem a apresentação de seus trabalhos em torno de uma idéia, O Cavaleiro Azul é mais intelectual, composto por alemães, pelo suíço Paul Klee, o austríaco Alfred Kubin e o russo Wassily Kandinsky, entre outros. Escreve Kandinsky na revista alemã Kunstblatt, em 1930: "O nome, nós o achamos quando estávamos sentados numa mesa de um café de Sindelsdorf; ambos amávamos o azul, Marc os cavalos e eu os cavaleiros. Assim o nome veio por si."

Entre os participantes do Blaue Reiter temos Kubin, Kandinsky e Klee. O grupo caracterizou-se pelo internacionalismo, não se preocupando em fundar um programa artístico específico. O denominador comum foi a expressão subjetiva. Kandinsky comenta, na primeira exposição do grupo: "Nesta pequena exibição, nós não tentamos propagar um preciso e particular estilo pictórico; nós, melhor do que isso, tentamos mostrar, pela variedade de formas representadas, a multiplicidade de caminhos nos quais os artistas manifestam seu desejo interior".

Apesar da curta duração - dissolveu-se na Primeira Guerra Mundial - o grupo, que se concentrava bastante na condição espiritual do homem, foi bastante influente. Franz Marc concentrava-se principalmente na representação de animais, seguindo as distorções expressionistas. É de se destacar seus estudos de cavalos vermelhos e azuis. O artista morreu na Primeira Guerra Mundial. O russo Kandinsky, além de suas obras artísticas, como as pinturas, sem preocupações com a objetividade e sim com a expressividade e espontaneidade, é considerado um dos mais importantes artistas do século. Seus escritos sobre arte também exerceram grande influência sobre os artistas contemporâneos.


A pintura ao lado é a obra de Kandinsky cujo nome o blogueiro tomou, da forma mais propositadamente acidental possível, para batizar este blog falido.

sábado, 9 de outubro de 2004

Tenho um problema: muito texto pra postar, pouca coisa relevante em meio a esse texto. Enquanto não me decido pelo destino dos outros textos, poderia comentar sobre meu estranho magnetismo. Tanto poderia como vou.


Quem é tímido sabe: as pessoas parecem ter um sexto sentido pra te deixar sem-graça. Qualquer coisa me deixava assim há uns tempos atrás: ter de falar a sós com alguém, ter de ouvir especulações sobre meus affairs, ter de conter o enrubescer perto daquela menina que senta a seu lado. Não fico assim há um bom tempo, e como previa, não estou sentindo tanta falta assim. Passei a coroa de acanhado para outro (é a sensação que tenho, pois o que me pegava antes agora pega outro). Uma hora a gente cansa desse acanhamento involuntário, começa a deixar coisas pequenas passar despercebidas, fazendo por conseguinte com que essas mesmas coisas não surtam mais efeitos tão intimidadores como antes. Atingi esse estado, mas volta e meia me vejo rendido por alguma coisa. Uma vez, saindo com irmão, Dilsinho e Cind no shopping, enquanto subia a escada rolante, recebi uma cantada duma moça loira aparentando ter seus trinta pra cima. Flerte seguido dum sorriso bobo e frase de efeito que não me recordo agora. Claro que fiquei estático: já acostumei às ardilosas táticas usada pelas meninas de minha idade, como perguntas-chave ou frases provocantes, mas quando esse arsenal é usado por uma mulher mais velha, aí não há quem fique indiferente. Eu pelo menos não fico.

Atentem para o detalhe de que, pra variar, a escada não estava funcionando naquele dia. Agora faz mais sentido o que aconteceu, não é mesmo? Eu estava subindo, ela descendo. Quando isso acontece com alguém de minha idade, camuflo minha surpresa facilmente com alguma frase desconexa, com alguma coisa que reparei nela, ou com alguma lorota hiperbólica. Eu sou assim, odeio extremos: nem nova nem velha demais. Prefiro igualdade etária. Se bem que a Baixinha, apesar de ter a mesma idade que eu, usava manequim de garotas de doze anos, sem exageros. Mas era uma exceção visual, como eu e minhas roupas surradas. Mas chega de falar dela. Hoje à tarde, irmão estava comentando sobre a menina da semana passada: aquela do olhar que funcionava como a buraco negro de tão repelente e atraente ao mesmo tempo. A do cabelo crespo. Citei-a na DD de domingo, em Paranóia do gostar. Ele está tentando arquitetar algo entre eu e ela, mas é só moagem dele. Sempre é. Me preocuparia, eu acho, se não fosse. Querer algo com alguém que seu irmão conhece? Percebo agora que minha paranóia nem sempre se limita ao tal do gostar. Mas paranóia é uma palavra forte demais, que estou usando sem me preocupar com o devido embasamento psicológico. Dá vontade de encontrar mais embasamento nas coisas, mas muitas vezes a questão é que sequer sabemos no que nos basear pra obter tal embasamento. Base móvel. Básico. Basicamente relativo.


Pronto. E com esse post mais descontraído, volto a postar no BR. Tudo está se saindo bem, até melhor que o previsto. Provavelmente irei pra lá no fim-de-tarde; ainda não a vi. Será que eu deixo registrado aqui que me decepcionei com... não, deixa pra lá! Nada de perder tempo com indiferenças.


Nota mental: escrever posts sobre coisas que considero proibitivas em qualquer pessoa. Mas pra quê eu escreveria um post sobre isso? Sei lá: se rolar uma idéia legal, será devidamente impressa por cá. Não se preocupem, tomarei cuidado pra evitar os argumentos batidos. Mas não esperem milagres...

domingo, 3 de outubro de 2004

Já que estou há um tempo sem postar, farei um flashback rápido dos últimos dias. Na Sexta o dia foi Não, deixa pra lá: dessa vez Sersup poupará os leitores daqueles momentos-diarinho. Eu vou é colocar duas DDs. A menos que prefiram ler sobre minha emocionante manhã de mais de uma hora na fila pra votar*. Foi o que pensei... :P


Divagações diversas

Paranóia do gostar

Olhando pro teto quadriculado de rosa e amarelo do restaurante, começo como de praxe a pensar demais enquanto espero o rodízio trazer uma pizza de bacon. A menina de cabelo cacheado já fora embora, que pena. Mas que olhar intrigante o dela: parecia hipnose! Umas pupilas assustadoramente dilatadas que me fascinaram como raramente alguém faz, usando apenas os olhos. A súbita ausência dela me remete àquelas teorias pessoais que todos fazemos quanto a nossos tendenciosos destinos mensurados por temperamentos. E, do nada, supus cair uma ficha: é como se, desde aqueles fatídicos anos, depois daquele primeiro olhar, nada mais tivesse sido como antes. Tivesse? O uso do subjuntivo soa como eufemismo aqui. Não olhei para mais ninguém da mesma maneira. O suor frio daquelas manhãs começou a se fazer presente em noites como essa, em que me encontrava na presença da menina do olhar que acabo de citar. A cabeça se curva inquietamente às vezes. As mãos precisam ser contidas. As perguntas, oriundas de razãos diversas, respondidas. Os gestos, camuflados. (É)ra como se fazer uma escultura: qualquer cravada na pedra bruta parece indicar uma falha sua. A tensão perante o mármore. Perante o que está perante o mármore. Perante o que está nem perante o mármore, nem perante o que está perante o mármore. Diante de muitas coisas que conduzem a poucas e vice-versa. Metáforas funcionam como a agulhas trabalhando na colcha de retalhos. Cores, imagens, formas entrelaçadas, pezinhos numa ponta, braços no outro... peraí, o que estão fazendo com a minha colcha?



Sem respostas, mas com palpites

Assim sigo os dias, aparentemente sem propósito. Comentarei sobre coincidências, que pensamos assim ser, porque de coincidências só mesmo nossa teimosia de coincidir as coisas. Ontem fiquei o dia inteiro fora de casa; só voltei às quatro da tarde e novamente saí às nove. No período da tarde, um antigo amigo do pai aparece de surpresa lá em casa. Ele ficou de aparecer lá em casa há anos. Sempre adiava por motivos de pouca importância. Até que aconteceu**. Bom, ontem foi esse dia. A razão da visita era o filho dele, que acabara de ser empossado juiz. O irmão me contou, intrigado, que ele e o pai possuíam uma amizade intrigantemente semelhante a que ele tecia com Dilsinho. Black and white. 'nuff said. O cara até tinha um apelido especial pra se referir ao pai. Algo de se chamar a atenção, porque ninguém, mas ninguém mesmo, deixava de chamar o velho por seu nome de guerra. Definitivamente ninguém. Nem minha mãe o fazia. Só minha avó (mãe é mãe, certo?) e ele, como acabo de descobrir. Dilsinho se mudará da cidade no final do ano. Não vai ser fácil pro irmão: os dois são inseparáveis. Tentaram até distanciar esses dois no colégio, trocando os dois de sala, mas nem isso adiantou. Chega a ser engraçado como a aproximação entre o irmão e Dilsinho se manifesta em enlaces quase femininos de amizade. Ciuminhos, códigos mútos que só eles entendem, recíproco desconforto das mães quanto à convivência de ambos, roupas combinadas. E eu pensando que só a irmã fazia esse último com as amigas. Ultimamente ando até quebrando o galho do irmão, me metendo em costumazes furadas só para ele poder passar mais tempo com o estimado amigo antes que este se distancie. Como ontem.



Quanto a mim, até que encontro certas semelhanças entre eu e o carinha que considero melhor amigo. Mas nada tão próximo quanto observo no irmão. Sou distante por natureza. F.H. mais ainda. Eu e F.H. temos segredos reciprocamente confiados, de periculosidade tal que nem pelo BR passam, para se ter uma idéia. Quanta coisa, que só mesmo ele pra entender, quando conto? Nunca ouço coisas conclusivas, mas sempre saio com a certeza de estar sem respostas, mas com palpites. Ou seja, eu complico demais, mas me vejo sempre com alguma simplificação nas mãos. O irmão e Dilsinho, possivelmente, se separarão de forma que a aproximação de antes nunca mais seja a mesma. O que percebo, há relativamente pouco tempo, ter acontecido comigo também. Se tem algo que me instaura certo temor é isso: as pessoas vão e vêm. Não há garantias de que possamos contar com suas presenças como gostaríamos. Lembranças constantemente rotas por conseqüências diversas. Condutores de descaminhos. E o estranho é que a sensação de desorientação que porventura descrevo não vem exclusivamente disso. Quer dizer, nem vinha disso. Vinha desencadeado por outras coisas, evidenciando, trazendo isso junto. E isso é um dos fardos de se ser morgado: tudo vem antes pra você! Enquanto você ainda tenta digerir algumas coisas que já aconteceram a ti (ou que ainda não aconteceram, vá saber), você vê o mesmo acontecendo aos tapados que moram contigo e não pode fazer nada. Embora tenha a sensação de inversão de papéis nesse quesito, mas isso é assunto para um outro post que provavelmente jamais perderei tempo digitando.


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* Ao chegar em casa após o moroso fato, a mãe traz até mim alguns panfletos sugerindo alguns lugares para as férias. Ela ainda não digeriu o fato de eu ter que ficar por cá em Janeiro. Ela pediu pra eu escolher um lugar entre as cinco opções do panfleto, optei Porto Seguro. Não pelas praias, mas pela importância histórica do local. Porque, numa boa, viajar dois mil quilômetros pra se ver numa terra cercado de baiano não tá me animando muito....

** Não o fato de ele vir pra cá; outra coisa aconteceu; quem é atento aos posts do Sersup percebeu o que quis dizer.

terça-feira, 28 de setembro de 2004

Bomba-relógio

Maniqueísmo contrasta fortemente com minha espontânea sinceridade
Não consigo perceber algo tão grandioso assim que tenha a perder
Chega de atrasos oriundos de medos. Encarar de frente, eis a palavra de ordem
A mesma parcialidade que nos poupa de respostas algumas pode nos sujeitar à mesma coisa
A incondicionalidade não coa certas coisas como gostaríamos
Os quatro ventos dos ânimos, soprando incessantemente, pregam peças à luz do nada
Todo o tempo do mundo parece estar acabando em meio a novos tempos ignorados
Desarme súbito. Teor inflamável. Apreensão pelo que poderia ter ido pelos ares. Ou pelo que já foi?
O ponteirinho parece uma lâmina descascando as incrédulas paciências e pincelando os números ao redor
Os números... ah, os números! Abstrações de frustrações, medições de retroações


Não esperem rimas: só consigo escrever versos assim, soltos, sem sofisticações.

quarta-feira, 22 de setembro de 2004

Tem dias em que minhas divagações parecem uma jukebox: não importa o que venha a pensar, o que virá à mente não se utilizará de imagens, mas sim de músicas. A variedade do acervo surpreende por vezes. Não é porque você está se lembrando daquele boçal da faculdade que você detesta que necessariamente venha a surgir na memória alguma variedade do metal. Não é porque você encontrou na rua aquela menina que você conheceu na balada que signifique que tenha de tocar a mesma música que estava tocando no dia. Não é porque estás pensando demais em certas coisas que venha a surgir músicas que você goste, ou ao menos conheça. A jukebox mental tem dessas coisas: não é o que gostes de ouvir que toca sempre, mas o que tenha uma mínima possibilidade de ter algo a ver com o que se sucede dentro dessa cabeça aí. Quer queiramos ou não. Como se a mente criasse um eu lírico que falasse contigo somente através de refrões, tipo aquelas cartas anônimas escritas com recortes de revistas e jornais, sabe? Eu sei, e quando estou nesses dias musicais, não tem jeito: tudo que acontecer comigo durante o dia será suficiente para algum refrão percorrer os meandros desconhecidos da minha cabeça oca.

sábado, 18 de setembro de 2004

Drops

[Cheiroso liga]
_ Oi, ele está?
_ Não, ele deu uma saída mas volta logo.
_ Ah, certo. A senhora poderia...
_ O quê? Senhora? Tá me chamando de velha, é?
[desliga]
[dia seguinte]
_ Eu avisei que tua voz ao telefone é robótica.
_ Não é robótica, é sexy!
_ Talvez ele tenha tido dificuldades em especular tua idade por causa disso...
_ Quantos anos o cara tem?
_ 21.
_ Aquele... hum! E ainda por cima é mais novo que eu!

[ambiente de tensão na sala. Prova de Teoria. Tempo depois, ela termina a prova]
[volta depois de quinze segundos]
_ Ai, profe, eu esqueci de fazer a primeira questão!

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

Esperar. Não direi o quê. Especificar limita interpretações. Em verdade, há momentos em que esperamos com culpa. Em outro momento esperamos com invasiva e inesperada serenidade. Quem gosta de esperar pelas coisas? Tanta coisa nos faz esperar o que nem sempre anseamos esperar. Quer-se esperar pelo que se tem certeza de vir a acontecer, a ser, a estar, dependendo da espera em questão. Eu queria saber ao menos até quando. Ou pelo quê ao certo. Uma uniformidade que aparenta ser um vácuo caracteriza muitas esperas. Uniformidade de quê? Do que se trata essa atenuada avidez? Queremos que as esperas tenham resultados, mas a verdade é que os resultados têm uma espera. Se é que algumas têm, o que nem sempre se percebe. Abstrações e sensações nos acabam encurralando no esperar. Há o que se esperar? Há de se esperar?

Muitas coisas não esperam, como momentos*. Mas, sem esperar, certas esperas, até então desconhecidas dos próprios esperançosos, têm resultados. Como nos aforismos produzidos pelos saberes das massas, as coisas são e acontecem quando menos se espera. Há coisas em que somos todos obrigados a esperar que dispensam menções, e outras em que somos convencidos a sermos obrigados a esperar. E assim vivendo, esperando de mais, esperando de menos, esperando retidos em nossas ignorâncias e dissipações. Esperas que alegram, esperas que contentam, esperas que entristecem, esperas que confundem. O que esperar de quê? Que contradições, fissões, confusões** entremeam as esperas?

A razão de se esperar inibe a ponto de se evitá-lo. Não a razão, mas o esperar. Coisas que nem pela metade são deixadas por causa de especulações precipitadas, antecipadas. Em linhas gerais, esperar é um complemento inevitável e indispensável a um destino cheio de esperas às vezes infrutíferas, às vezes frívolas, às vezes frutíferas, que bom. Não que esperar seja bom à inquieta paciência humana; somente as esperas frutíferas o são. Somente elas? Há um lamentável desdém, por parte da maioria das pessoas, pelo caráter empírico das esperas. E esperar, como deve-se reiterar, é um complemento. A espera não faz o trabalho sujo de viver por nós, veja só. Espera só pra ver onde pararás contando somente com ela...


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* Vide post de meados do ano com títlo homônimo
** Trecho duma música do Skank que lembrei agora.

terça-feira, 14 de setembro de 2004

Sou vago. Isso dá margem à maioria dos que me conhecem a se verem a frente de uma miragem ambulante. Se perco ou ganho por ser assim, não tenho a resposta. E se acredito ter, perco por acreditar. É o constante desafio da incondicionalidade*. Faz diferença sequer sentir-se ou não sentir-se por ela desafiado? O que sei é que ser vago acaba por nos conceber como tal às vezes. Seja a nós mesmos, seja a certas coisas isoladas. Quantas oportunidades de abertura e de descontração perdidas por ser vago! Vacância esta que muitas vezes camufla impressões não tão vagas assim. Uma reduzida condição humana suprimida por várias camadas depositadas por incondicionalidades que sequer sabemos se isso são, que nos fazem desconhecer a causa de vários atos nossos. As causas são um tanto que estatisticamente estudadas por teorias, mas certas causas desafiam os mais renomados teóricos. A causa pelo efeito ou o efeito pela causa? A causa pela causa ou o efeito pelo efeito? Vacância pelo quê?**


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* Vide post do mês passado
** Perguntas retóricas: convites à reflexão quanto ao que ignoro. Se bem que esse post todo é quanto ao que ignoro, desconheço...

segunda-feira, 13 de setembro de 2004

Mendigos que já passaram nas salas em que estudei e as respostas providenciadas por amigos e professores


[aula de Lingüística]
_ Oi, eu vim do Maranhão e não conheço ninguém. Vocês poderiam me ajudar com qualquer quantia?
_ Ah, gênio, você vem pedir isso num bloco de Letras, cheio de professores? Só tem pobre aqui, meu filho. Gente consciente de que vai pra cova na miséria. Vai pro bloco de Direito aqui do lado que você ganha mais!

[no bar]
_ Oi, vocês poderiam me ajudar com um dinheirinho? Eu poderia estar matando, roubando, cheirando, tropeçando, mas estou aqui, pedindo, com dignidade.
_ Moço, já ouviu falar da instituição assistencial xis? Lá eles ajudam indigentes como você. Vai procurar ajuda lá e cai fora da minha mesa, seu fedorento!

[aula de Práticas]
_ Oi, vocês poderiam me ajudar? Eu não tenho isso, nem aquilo, minha filha isso, minha filha aquilo... por favor...
[a pedinte sai da sala após recolher certa quantia]
_ E onde estão os assistentes sociais quando mais precisamos? De decoração nas planilhas de pagamento da Prefeitura, só pode.

domingo, 12 de setembro de 2004

Quem nunca teve a sensação de indiferença da parte dos outros? Aquela situação de via unilateral a qual, por mais que se tente estar próximo de quem se estima, por mais que se goste da presença, do contato da pessoa, é algo que não se percebe da parte do outro? Eu nunca tive. Ou ao menos tenho essa sensação agora. O que me deixa preocupado é que, sem perceber, posso ter passado uma imagem de espessa indiferença para dezenas de pessoas que cruzaram meu caminho, e nunca ter me dado conta disso antes. Mas isso é só uma especulação. A se considerar, claro.

Tenhamos um mínimo de auto-crítica e admitamos que todos nós somos pessoas insuportáveis e ególatras demais para se aperceber disso a maior parte do tempo. Mas porque só agora, ao que parece, pareço me dar conta disso? Pareço me dar conta de que a constante tentativa de imparcialidade da parte das pessoas e suas máscaras é algo tão... tão... tão incisivo e hipócrita? Sim, o mundo tá cheio de gente boçal. Mas quem se acostuma a isso de todo? Cuidado com essa pergunta, retórica.

Me vejo numa época em que descubro que a indiferença é pior do que inimizade. Inimizade é mero antônimo. E indiferença? É antônimo de quê? Homônimo de quê? Sinônimo de quê? Por si só, a descrição de indiferença é um tanto indiferente. Que não é bom nem mau, para o Aurélio. Um nada escrito com onze letras em vez de quatro! Uma lacuna onde se acredita ter algo a preenchendo. Indiferença é algo realmente traiçoeiro, pois sua subjetividade e aparente neutralidade machucam sem se desferir golpes, cortam sem se manejar lâminas, derrubam sem acertar.

quarta-feira, 1 de setembro de 2004

Fórum: perguntas pertinentes com respostas impertinentes


* A verdade dói. E a mentira?
_ Pela lógica, a mentira não deveria doer. Mas esta mente até pra si mesma.
_ Então a mentira também dói!
_ Portanto, não faz diferença se utilizar da mentira ou a verdade. Ambos doem!
_ Já que ambos dão no mesmo, o que seria mais coerente? Usar a verdade entortando um pouco para a mentira?
_ Verdade verdadeiramente mentirosa?
_ Mentira mentirosamente verdadeira?
_ Mentira!
_ Verdade!
_ Mentira!
_ Verdade!
_ Verdade!
_ Mentira!
_ Mentiroso!
_ Arranhe um altruísta e veja um hipócrita sangrar.*
_ Alfinetar a verdade produz mentiras?
_ De que outro jeito?
_ Bom, inicialmente temos a dualidade, e esperava-se desta que se opusessem, mas às vezes se complementam.
_ Bom, isso é não só uma lei da Física como um flerte com o misticismo.
_ Não é porque se complementam que deixarão de se oporem, eu acho.
_ Mas não é porque se repelem às vezes que deixarão de se atraírem.
_ Sim, sim, estamos dando volta em círculos. Presos a dois pólos incondicionais.
_ Mas o incondicional é bom ou mal? Nobre ou vil? Metódico ou inocente?**
_ Se uma imagem mascara a incondicionalidade, esta última existe?
_ A imagem ou a incondicionalidade?
_ Pergunta perigosa. Arrisquemos a incondicionalidade.
_ Se existe, imporia condições para várias coisas inexistirem neste momento.
_ O que inexiste não alimentaria uma possível incondicionalidade?
_ Esse círculo vicioso poderia nos fazer supor que tem muita coisa que é e não é ao mesmo tempo.
_ Só se mentira for mentira e verdade ao mesmo tempo...
_ ...o que é muito, mas muito freqüente.
_ Mas peraí, verdade é verdade e mentira ao mesmo tempo?
_ Desmorona aqui a incondicionalidade. Resta a imagem, que foi deixada de lado há pouco.
_ É mesmo.
_ Verdade e mentira são simplesmente imagens?
_ Imagens, plural, ou imagem, singular?
_ Plural?
_ Singular.
_ Mentiras plurais...
_ Verdades singulares.
_ Devagar aí: verdade singular, ambos no singular.
_ Já parou para pensar que, às vezes, não é a ausência de palavras que impede conclusões impressionantes, mas sim as mentes metódicas que se distraem com essa metodicidade dada às palavras?
_ Está culpando os gramáticos agora?
_ Devia sugerir aos filósofos a escreverem em sânscrito...
_ Eis a questão: mentiras plurais para verdade singular ou mentira singular para verdades plurais?
_ Precisamos criar um novo tipo de desinência: temos o singular e o plural. E se criássemos uma que não fosse nem um nem outro, que fosse ambos, ou que fosse esses dois anteriores ao mesmo tempo?
_ Precisamos de uma desinência nova para isso?
_ Acredito precisarmos criar vários mecanismos para sermos capazes de explicarmos certas coisas.
_ Vou tentar: usarei como desinência para, nem singular, nem plural, -n. Para singular e plural ao mesmo tempo, -x. Para os dois anteriores, -nx. Repetindo a frase: mentiran pluran para verdaden singulan, mentirax plurax para verdadex singulax ou mentiranx pluranx para verdadenx singulanx?
_ Caramba...


Droga, esse post ia ficar muito legal. Tive uma idéia muito tresloucada sobre a questão acima, que daria um desfecho sensacional, mas dá GPF no computador justo enquanto digitava este post. O que consegui recuperar e complementar é o que vocês acabam de ler. Deve ser manifestação divina. Se nem o filho do Homem respondeu à pergunta enquanto em terra, talvez ele não queira que mais ninguém conspire em cima de suas questões. Como quem leva desaforo pra casa, este aí não deve querer ninguém roubando sua resposta. Ah, e respondendo à possível pergunta: não, (não) estou sob efeitos etílicos ou herbais! E não, não estou blefando quanto ao pau do computador!


Nota mental: atenção redobrada aos duplos sentidos e ambiguidades!


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* essa frase foi um dos primeiros posts que li da Andreia. Quem diria que a usaria para um post próprio um dia...
** vide post de 24 de agosto

terça-feira, 31 de agosto de 2004

Pegar de mãos

Poucos param para se delongarem às suas mãos. Se olhos são a janela da alma, mãos são a vitrine desta. Portanto, mais rápidas que os olhos, na lábia do mágico. Mãos italianas, mãos trêmulas, mãos pequenas, mãos furadas. Elas dizem um bocado sobre as pessoas. Sersup sente isso na pele, digo, mas mãos: possuo vários gestos involuntários com elas, provenientes de uma excessiva espontaneidade da qual sou dotado, que são constante objeto de ponderações das pessoas. As minhas dizem tudo: ansiedade, agitação, aflição. Tons cadavéricos após longos períodos imersa em água; tons pastel em dias quentes. O vermelho sangue pulsando nelas enquanto o pulso as ergue em sua eterna dança. Uma vez perguntaram ao pai a primeira coisa que ele olhava quando se encontrava com uma mulher. Ele respondeu as mãos. À época, ouvi aquilo com estranheza; conotei um fetiche que não era fetiche. Era um detalhe. Detalhes dizem muito.

Eu comecei a reparar nas mãos há relativamente pouco tempo. Não primeiramente nas dos outros, mas nas minhas, sempre inquietas, como se os braços atuassem como coleiras, guinchos a prendê-las ao corpo. E como detalhes dizem muito, tem também o quesito das unhas. As do Sersup são eternamente roxas, como se tivessem acabado de sair d'um ambiente frio. Elas são sempre assim. E, cúmplices de meus dedos, tamborilam constantemente na primeira superfície que encontram pela frente. Ou seja, nem sempre as mãos me denunciam: às vezes, os dedos o fazem antes. Furtivos.

Mãos dizem tanto sobre as pessoas que elas dizem o que é difícil dizer. Quando menos se percebe, em alguns casos. Um pegar de mãos diz muito! É uma sutileza imbatível. Manifesta uma aproximação, um contato, um monte de coisa. É quase uma cordialidade universal nas mais diversas situações. Vão descer o cacete, por exemplo num russo, se este tentar cumprimentar algum brasileiro com seus tradicionais beijinhos na fronte. Com um aperto de mão, várias gafes são evitadas, mas se dá espaço a outras. Apertos fortes demais, suados demais, rápidos demais, demorados demais... há toda uma hierarquia social informal nesse aspecto. Qualquer outra parte do corpo chama atenção demais se usada para algum tipo de contato com outra pessoa. As mãos, por mais próximas que fiquem dos olhos, possuem certa discrição. Se você não usá-las para quebrar o nariz de alguém, claro. Discrição esta evitada pelos mais aristocráticos com vários adornos. Luvas, anéis, pulseiras, fitas, socos ingleses, toda uma gama de adereços.

Se pararmos para pensar, as mãos não dizem somente sobre nós individualmente; dizem sobre nós como um todo. Provavelmente foi por elas inspirado que hoje em dia usamos um sistema numérico decimal. Se formos meio improváveis, poderíamos dizer que os trinta dias que compõem um mês de nossos calendários teria sido baseado nas articulações de cada dedo. Observe: cada dedo seu possui duas articulações que dividem cada dedo em três partes iguais. Ou seja, um mês em suas mãos. Sim, reparei que o polegar possui apenas uma articulação. Antigamente, portanto, poderiam considerar, contando as catorze divisões feitas pelas articulações, mais a palma, que cada mão representaria uma quinzena. Tem gente que tem nomes baseados em meses. Como em certas épocas era mais difícil se registrar as coisas, famílias poderiam dar nomes a seus filhos, baseados em meses, para se situarem em que parte de tal ano seus rebentos nasceram. Por exemplo, na época dos doze apóstolos, será que o fato de eles serem doze tinha como função, perdida no tempo, de Jesus e seus discípulos, se localizarem no tempo, uma vez que estavam constantemente em peregrinações e desprovidos de calendários oficiais? Cada dedo dos doze apóstolos poderia funcionar como uma agenda. Assim, se em dia tal fosse dia de se realizar um milagre, amarra-se uma fita vermelha no indicador; se no dia seguinte fosse hora de se transformar água em vinho, fita roxa no anelar. Mas isso é só uma consideração, sem base histórica alguma, da parte do Sersup, que viajou geral nesse parágrafo.

Partindo para argumentos científicos, vou citar mais uma daquelas descobertas científicas, possivelmente inúteis, feitas por aqueles cientistas americanos e britânicos desocupados. Nada do tipo daquelas em que quem come maçã duas vezes ao dia dimini em 25% as chances de ter úlcera nervosa no futuro. Esse tipo de inutilidade estatística, sabe? Citarei uma que vi no Fantástico. Sim, admito que preciso escolher melhor minhas fontes. O cara afirma que, pela distância entre o dedo anelar e o mediano, dá para dizer quem vencerá uma prova de atletismo, por exemplo. Já vi várias variações disso. Sobre medidas digitais que definiriam do tamanho do pé a opção sexual. Gente esquisita como DaVinci conseguiu descobrir certas simetrias do corpo humano, mas imaginemos o perigo que isso pode representar se as pesquisas quanto a essas simetrias avançarem radicalmente: só pela minha mão o cara saberia o tamanho de partes do corpo que Sersup, por ser recatado e discreto, não vai citar; ou então minha propensão a errar certas tarefas manuais só de olhar para as mãos? Pros paranóicos se esbaldarem, essa possibilidade!


Pode até sair dessa página, mas haverá uma mãozinha te acompanhando. Ela não sairá do seu pé, digo, da sua mão: estará perambulando pelo monitor! Particularmente, não sei o que é mouse há meses por causa do meu computador jurássico, mas que a mãozinha está lá, isso está!

segunda-feira, 30 de agosto de 2004

Observo um fenômeno que deve ser comum a toda década, que é a reflexão quanto à década passada. Sersup, sujeito relativamente velho, dois decênios bem sobrevividos, nota que há uma pausa para meditação no ar, um retorno ao que marcou a década passada. O que deve ser uma constante em cada década em que se entra. Anos 80? Um olhar para trás para os anos 70. Anos 90? Reconsideremos os 80. Quem não se lembra das copiosas propagandas do 1406 tentando vender coleções setentistas em LP (olha só em que tempos nos encontrávamos; o Cd ainda batia de frente com o LP em popularidade)? Seria esse retorno uma carência de produtos culturais sólidos? Pare para contar a quantidade de desenhos e filmes oitentistas reciclados atualmente. Em tempos pós-modernistas em que as situações estão sendo tratadas com uma gritante e estandarizada efemeridade, é de me chamar a atenção uma coisa: crescemos ouvindo dos mais velhos o quão legal as gerações anteriores eram, com ambientações sociais únicas e ícones insubstituíveis. E começo a perceber um tanto estarrecido que está chegando a minha vez. Não gosto de ficar imaginando a situação:

_ Ei, Tio Sersup, quem é esse encanador na capa desse jogo?

_ O quê? Você não sabe quem são os Mario Bros.? Os dinossauros dos videogames? Os precursores dos jogos de plataforma? O que é que te ensinam na escola, moleque?

_ Tá, relaxa. E esses cachorros falantes? E esse novela com um monte de crianças de uniforme azul? E esse desenho japonês cheio de gente portando armaduras alegóricas?

_ Caramba, quanto lixo cultural. Vamos por partes...

_ E esse calço de porta com botões?

_ É o meu celular, ô cabeça! Você não é novo demais pra ficar usando sarcasmos, não?

_ Isso não foi um sa... sa o quê?

_ Nossa...


Precisarei, além de me acostumar à idéia de que começo a me estagnar culturalmente, me acostumar à indiferença dos mais jovens quanto às asneiras culturais que povoam toda uma memória coletiva. Ainda bem que não terei filhos tão cedo: seria o fundo do poço eu passar por uma situação como a suposta há pouco. Chega a ser curioso como nossas infâncias são basicamente uma fusão do contexto social presente com as reminiscências de tempos passados trazidas pelos pais. Por exemplo, ao mesmo tempo em que ficava horas e horas assistindo a desenhos matinais, volta e meia era impelido a assistir coisas díspares como ao extinto Concertos internacionais e a alguns faroestes antigos na Record, como aqueles clássicos do Bud Spencer e Terrence Hill. Só para citar um exemplo. Não sei se só eu pareço me ver como uma bagunça cultural, mas há um pouco disso em todos, não? Em Sersup, então, que teve uma infância um tanto reclusa, isso se evidencia mais.

sexta-feira, 27 de agosto de 2004

Comentários comantados

Mais esquisito ainda é eu vir sempre aqui ler o que você escreve... Dois anos já, não?


Tempus fugit.
E como fugit! Esse mês, que quase deixo passar em branco, faz dois anos que comecei a escrever em blogs. Dois anos escrevendo o que nem sempre consigo articular em palavras. Tenho amigos para quem confio as coisas mais constrangedoras, mas o BR me dá a sensação de nenhum deles ser suficiente para tudo o que tenho a manifestar. Na falta de incautos para receber na íntegra a carga de dizeres do Sersup, o BR cai como uma luva, recebendo tudo sem isenção. A não ser a minha própria, claro.

Percebe-se como as coisas mudam. Fazia apenas três meses que atingira a maioridade quando criei meu primeiro blog. Os dois fatos não se relacionam, blogs não têm idade, mas dá para se conotar que certas passagens de nossas vidas são explosivas após certas idades. Pelo menos para nós mesmos. Blogs funcionariam como escombros desse inflamável processo de aprendizado chamado destino. Nos primeiros três meses em que escrevi, não conhecia ninguém do estado que também se aventurasse pela blogosfera. Pelas andanças blogs afora, um dia entro num blog duma menina que se identifica como Xuxu. Inicialmente os posts não me chamaram muita atenção; o blog tinha, assim como o meu, uns três meses. Mas, ao começar a ler alguns posts sobre as aulas das duas faculdades que ela prestava à época, reconheço no texto um amigo meu que estudava com ela. Rolei de rir com aqueles posts sobre ele. Ele, alguns dias depois, até chegou a perguntar se conhecia a Raquel. Achei uma pena quando percebi, dias depois, que não leria mais posts reveladores sobre esse meu amigo, por causa de uma decisão pessoal dela, devidamente escrita num post. Cerca de seis meses depois, me encontraria tomando decisão parecida. E não é fácil. É questão de um clicar de mouse para um atendente, mas uma questão de quase um ano deixada para trás para quem a faz.

No início do ano passado, ela deu uma sumida geral da web. Não respondia mais aos e-mails, parou de escrever, simplesmente sumiu. Apesar de sentir falta da leitora mais antiga que tenho, continuo a postar. Penso em parar, mas sinto que havia coisa a ser impressa em frases. E continuei, esporadicamente, mas continuei. Nesse meio-tempo, conheço novos leitores, novos blogs, até que, seis meses depois, do nada, Xuxu retorna de seu hiatus e volta a escrever. Muitas histórias, muitas bebedeiras, muitas noitadas. Tudo isso estava de volta junto com os posts dela. Mais as mudanças, esta recíproca para qualquer blogueiro. Apesar de, de vez em quando, a gente não ver o menor sentido em escrever essas linhas, em manter um punhado umbiguista de bytes no ar, vale a pena guardar esse álbum de momentos com a gente. Álbum de fotos só serve pra gente sair mal na foto. Álbum de momentos mantém todo um sensorial de um tempo que não voltará. Nem sempre uma boa imagem vale mais que mil palavras, reiteremos isso. Talvez uma palavra valha por mil imagens às vezes.

De quando em quando, quando menos me apercebo, estou encontrando na rua algum leitor do BR. Gente que eu nem fazia idéia de que lia isso aqui vem comentar comigo sobre os posts. Blogs produzem feedbacks randômicos. Mas algo que me intriga é que a Xuxu é umas das poucas leitoras que não conheço pessoalmente. Conheço um bocado de gente no cotidiano que, se não fosse através do BR, talvez jamais viesse a conhecer. Mas toda vez que ensaio conhecê-la, algo acontece. Ano retrasado, o Blogcontro melou. Ano passado, ela volta à web no final do ano. Esse ano, ela estuda no bloco quase ao lado do meu, e nada! Quem sabe um dia consiga... :P